Registro #1: Rosinha — por Bernardo Bertrand
- Eduardo Felipe (Bernardo Bertrand)

- há 6 dias
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É estranho se exilar dentro da própria cidade, a época é outra e a “opressão” é a mesma, mas, dessa vez, bem mais difícil. Eu estou aqui sentado escrevendo este diário, pois acho que, dessa vez, vai ser mais complicado escapar.
Quando voltei do Chile, no início dos anos 80, eu não queria acabar me envolvendo novamente com familiares e amigos que deixei por aqui. Coisa que eu não deveria fazer mesmo, pois, oficialmente, sou um dos brasileiros desaparecidos durante a ditadura do Pinochet. Mas, pouco tempo depois, acabei encontrando algumas pessoas, e elas foram desaparecendo, igual aos anos de chumbo, quando você desaparecia por se envolver com pessoas erradas (eu, no caso). Depois eu conto essa história…
Mas uma pessoa em especial eu fiz questão de manter distância por um tempo, mas agora estou aqui olhando para ela sentada na poltrona, dormindo, apagou assistindo à novela.
Rosinha sempre foi de dormir onde se encostasse; quando a gente era criança, ela desapareceu no pique esconde, se escondeu no armário e dormiu. Agora? Dona Rosa… Dona Rosa… Com seus 75, memória de 15 e disposição de 25. Amanhã eu faria 81 se não tivesse parado nos 30, ou melhor, se não tivessem me parado .
Nós somos amigos desde criança; quando minha mãe ia à casa das amigas no Alto da Boa Vista, ela me levava junto. Aquela criançada largada o dia inteiro no quintal. Rosinha era filha da dona da casa, esta aqui em que estou, inclusive, e era a mais nova de todas, a “café com leite”. Ela tinha uma raiva absurda disso. Então, eu me aproximei dela e a ajudava nas brincadeiras, por ela ser a menor.
Nós crescemos e continuamos amigos, e não nos afastamos depois que entrei pra faculdade. As coisas só ficaram meio estranhas no dia do seu aniversário de 17 anos; nesse dia, ela se declarou para mim, e eu tive medo. Medo do que iriam falar, pois eu já tinha 22 anos e estava na faculdade, e ela ainda era normalista; medo de ser julgado por isso. Mas esses medos eram menores. O medo maior era dela se envolver no
Movimento, porque ela iria se envolver, certamente.
No ano seguinte, ela fez 18 anos e entrou na faculdade, foi minha caloura e, enfim, acabamos nos envolvendo. Ela não se metia diretamente nas ações do Movimento Estudantil, mas ficava com algumas amigas no banco da praça, de olho nas esquinas.
Era os nossos olhos enquanto a gente fazia nossas reuniões de comitê.
A coisa ficou feia nesse ano, era 1968 e a gente se reunia na minha casa em Botafogo.
Era aniversário do nosso saudoso “Bolota” quando os canas apareceram lá em casa e levaram a gente para interrogatório. Rosinha morreu de medo e se sentiu culpada de não ter ficado de prontidão na praça. Mas, naquele dia, era apenas uma comemoração, não tinha nenhuma reunião… Enfim… Ninguém ficou preso, todo mundo foi liberado no dia seguinte. Mas essa ação gerou uma revolta e acendeu uma chama na gente.
No ano seguinte, em setembro de 69, a gente comemorava silenciosamente a leitura da carta da ALN/MR-8 e a libertação dos presos exilados no México. Mas aquilo ali cheirava mal, a gente viu que a coisa ia piorar.
Nesse mesmo ano, Bolota, Berta e Jão foram levados, nunca mais se ouviu falar deles. Outros camaradas da faculdade, da ALN, do PCB, começaram a desaparecer.
E em novembro de 69, terminei com Rosinha, para que ela não fosse associada à minha imagem e presa. E me exilei no Chile. Foi a última vez que nos vimos.
Em 1975, eu morri, e consegui mandar uma carta forjada, em nome de Eleanora, dizendo para a minha família e para Rosinha que eu, Bernardo Machado, militante do PCB exilado, havia sido levado de casa e preso no Centro de Detenção Estádio Nacional do Chile. E que nunca mais havia sido visto vivo desde então. O que não foi mentira.
Na década de 80, consegui voltar para o Brasil, mas já era esse outro eu, Malkaviano, com essa misofonia infernal, curvando a cabeça para a Camarilla. Aprendendo a sobreviver.
Tentei ficar longe da Rosinha, eu a vi de longe pela primeira vez em 1985, ela já com seus 30 anos, a idade que eu tinha quando a deixei. Segurei a vontade de falar com ela por mais 30 anos e, em 2015, me apresentei como Bernardo Bertrand, filho do Bernardo que foi pro Chile, um filho que ele teve em Santiago e escondeu de todo mundo. Mas a história não batia, as contas de idade não fechavam…
E agora eu preciso parar de escrever e ir para o porão descansar, o sol vai nascer. Rosinha não questiona meus pedidos para não ser acordado de manhã. A verdade é que nós fingimos acreditar que estamos conseguindo enganar um ao outro.
Hoje eu temo pela vida da Rosinha, da mesma forma que temia antes do exílio; eu não sou ninguém nessa Camarilla, mas também, quando era vivo, não era ninguém pra ditadura.
Preciso dormir e sair quando acordar. Estou aqui há três noites, tenho fome.
Caminhando até a cozinha, onde fica a escada até o porão, Bertrand olha de relance para a janela: vai amanhecer. Ele se vira em direção à porta do porão e passa pela mesa de jantar. Lá está um bolinho de cenoura, seu favorito, feito em uma forma pequena, com uma velinha de aniversário.




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