Crônicas de um Carniceiro 3 - A Capela Tremere
- Nicollas Forte

- há 6 dias
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Emilio deixou a Capela dos Santos como chegou, sozinho, em seu opala preto. O bólido era uma preciosidade, tratava-a melhor do que qualquer coisa viva ou não-viva nesse mundo escuro e nefasto, e era brilhante e polido, seu interior era de puro e macio veludo cotelê bordo. Dirigir seu carro, Judite, era uma das poucas coisas que ainda lhe davam prazer nas noites atuais, além de seus negócios. A inauguração da capela repetiu-se em sua mente agitada pelas noites seguintes. Cada palavra falada, cada palavra ouvida. Juramentos, promessas e dívidas. E maldições.
Chegou na capela empolgado com um frescor antigo do início de sua carreira cainita, ainda como Cabeça de Pá. Sentiu-se orgulhoso de si e sabia dos longos méritos de suas proezas nas guerras da noite, mesmo que veladas. Se tivesse uma noite de reconhecimento, certamente seria essa. E foi, no início.
A ausência do príncipe foi um balde de água benta na empolgação de Emílio. Esperava encontrá-lo para pleitear sua posição na Torre de Marfim mais uma vez. E lamentou ao ver Daniela em seu lugar, com sua matilha de encoleirados, independente do respeito que tivesse pela anciã. A frieza da xerife e sua fé estranha. Ofertas cordiais e hospitalidade recusadas e menosprezadas.
Havia ouvido os murmúrios entre as harpias.
“Jagunço”.
“Capataz”.
“Capitão do Mato”.
“Peão”.
E uma noite de maldições.
Convidados de honra relinchando e grasnando como animais prontos pro abate. Cobranças de sangue, pedágios hemofílicos e sangrias de impostos.
“E uma feirinha como pretexto.”
Emilio aprendeu a falar “coerção”, “suborno” e “propina” antes de aprender a ler e podia enxergar os padrões de longe. Os Tremere gritaram silenciosamente, e sem pudores, nas faces pálidas e frias dos corpos secos.
“Nossos favores serão necessários.”
Assim como Emílio cobrava proteção em seu território, proteção contra ele próprio, os convidados dos caprichos dos Feiticeiros, logo souberam que não era um evento social, era uma demonstração de poder. Velada de mistérios, enigmas e segredos e regada de sangue dos desafortunados e menos atentos. Um campo minado de maldições e taxas de sangue.
A noite havia sido um longo encontro frutífero, com negociações sanguíneas e intrigas sombrias. E alianças.
O tempo que passou como Capo da máfia em São Paulo deu a Emílio um estranho senso de união que transferiu à Kamarilla, mas depois dessa noite uma conexão inesperada aconteceu.
Parentes.
Primos.
Magistrados.
O Clã das Sombras está presente, mesmo com seus poucos representantes. E prontos para se organizar.
Uma recente mancha de pó havia caído sobre os Lasombra kariocas e isso precisava ser remediado. A reputação do Clã das Sombras, por séculos a força que puxava as cordas do Sabá e provocava medo e desconforto, hoje era tratado como um descaso, desconfiança e desinteresse.
E apesar de ter deixado a capela sozinho, tinha certeza que não estava mais só. Uma irmandade surgir naquela noite e sua sombra ia se estender pelo Rio de Janeiro antes que qualquer um pudesse perceber.
Nas noites seguintes, uma carta.
Um selo conhecido.
Um nome que trouxe conforto às noites repetitivas e monótonas.
Isabella de La Cruz.
“Sr. Emilio,
Foi um prazer. Nos veremos em breve. Temos negócios a tratar. E as sombras não esperam...”
Emilio sorriu, mastigou um pedaço do coração fresco, enquanto terminava a carta e não sentiu-se mais sozinho.




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