O INDEPENDENTE DE PARATY- 29 abr. 2026.
- Daria Oliveira

- há 6 dias
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O seguinte recorte de jornal pode ser encontrado na carteira de Verônica Marino. Assim como o cheiro da maresia e o perfume das flores dos ipês-amarelos, esse recorte é uma das poucas coisas materiais que Verônica tem para lembrar de sua terra, da cidade em que ela viveu, morreu e renasceu.
O INDEPENDENTE DE PARATY- 29 abr. 2026.
30 ANOS DO “MASSACRE DAS PÉROLAS”: O QUE SABEMOS E AINDA NÃO SABEMOS SOBRE A NOITE QUE MARCOU EM SANGUE A HISTÓRIA DE NOSSA CIDADE.
Por Fernanda Silva Abraão- Paraty
A noite do Dia do Trabalhador de 1996 começou como uma noite comum de festa. Apesar da presença de algumas manifestações de luto devido à tragédia que assolou a família Vilella 1 ano antes, em 1995, as rezas e flores rapidamente deram lugar ao grito alegre de crianças, a música dos inúmeros shows que alegravam os moradores, ao som de garrafas se chocando em brindes no ar e aos fogos que iluminavam os céus daquela noite estrelada.
Não por acaso, quando as poças de sangue começaram a escorrer para fora dos casarões do centro em direção às ruas, muitos não compreenderam o que aquilo de fato significava. Primeiro, muitos populares acharam que se tratava de vinho derramado, algo que não seria um absurdo de se pensar, principalmente vindo das casas das famílias mais abastadas da cidade. Porém, quando o líquido vermelho não parou de cessar e o cheiro de ferro tomou conta do ar, multidões se formaram na frente destas luxuosas residências, batendo em suas portas e tentando espiar em suas janelas.
A primeira casa invadida com sucesso pela multidão, o Solar dos Bitencourt, revelou o terrível destino que quase todas as famílias de elite da cidade, como os Solano, os Arruda, os Trevisan os Godoy e diversas outras haviam sofrido: pedaços de cadáveres, vísceras e ossos decoravam o interior da casa, em uma cena saída diretamente de um filme de terror. Em uma só noite, as 10 famílias mais ricas de Paraty foram sorrateiramente atacadas, e seus membros adultos, eliminados das maneiras mais brutais capazes de se pensar. As crianças e adolescentes, que tiveram suas vidas poupadas, pouco conseguiam descrever o que viram:
“A maior parte delas estava em estado catatônico. Levaram meses para se recuperarem, e algumas, continuam assim até hoje. Os testemunhos que coletamos delas eram extremamente confusos: algumas diziam ter visto um ‘lobo branco e feroz’ que invadiu as suas casas e atacou seus pais, outras falavam sobre uma figura humana que empunhava facões e possuía garras e dentes de um lobisomem, e, em um caso específico, um adolescente afirmou que esta figura seria a de uma mulher ‘possuída pelo próprio satã’.” -relata William Abreu de Lima, delegado da Polícia Civil responsável pela investigação do caso na época.
O caos se instaurou pela cidade. A população, sem entender o que havia acontecido, retornou para as suas casas às pressas. Os shows pararam, a polícia da cidade foi posta as ruas, tendo contado com reforços policiais vindos às pressas de Angra dos Reis e de peritos vindos diretamente da capital. Milicias populares se formaram para caçar os culpados por este massacre, não tendo obtido nenhum sucesso. Uma recompensa de 1300 reais por informações que levassem ao paradeiro dos assassinos, 10 vezes o salário mínimo da época, não conseguiu coletar nenhuma informação de impacto para as investigações. Ao todo, 61 pessoas haviam sido assassinadas a golpes de armas brancas e a tiros naquela noite, sem que seus gritos, abafados pelas comemorações, pudessem ter sido ouvidos. A foto que ilustrou a capa do jornal Crônica Caiçara, um colar de pérolas em meio a uma piscina de sangue, ajudou a dar nome ao caso. “O Massacre das Pérolas”, como ficou conhecido nacionalmente, moveu investigações que duraram cerca de dez anos, sem terem tido sucesso em identificar os responsáveis por tamanha barbárie.
A única família que de fato sobreviveu ao ataque, os Marino, também teve perdas naquela noite. De acordo com testemunhas, um baile celebrado pela família foi interrompido quando, às 21:15 da noite do dia 1 maio de 1996, uma saraivada de balas vindas da mata atingiu o salão nobre do casarão dos Marino, na zona rural de Paraty. 3 funcionários, os quais os nomes não foram divulgados a pedido de seus familiares, e 2 membros da família Marino, foram atingidos fatalmente pelos disparos antes que os guardas da família pudessem revidar os agressores, que não foram vistos. Pedro de Barros Marino, de 28 anos, e seu primo, Jorge Ferreira Marino, de 23, foram atingidos no tórax e na cabeça, respectivamente. Pedro foi encaminhado para o Hospital Municipal de Paraty, onde não resistiu aos ferimentos, e Jorge faleceu no local.
Em 17 de maio de 2006, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro anunciou o fim das investigações, tendo concluído que “Na noite de 1 de maio de 1996, um grupo desconhecido de pessoas invadiu a casa de nove famílias de Paraty, tendo tentado invadir, sem sucesso, a residência da família Marino, resultando na morte de 61 pessoas. Nenhum item de valor foi abduzido das residências, e não foi possível concluir as motivações por trás destes atos.” A conclusão de que o ato foi cometido por um número indeterminado de pessoas veio partir dos horários dos assassinatos, sendo humanamente impossível que apenas uma pessoa tenha conseguido transitar entre as casas a tempo de cometer estes brutais atos.
Neste último pronunciamento, a Polícia Civil também afirmou não ter encontrado nenhuma ligação entre esses eventos e o Massacre da Família Vilella, ocorrido exatamente um ano antes do Massacre das Pérolas, em 1 de maio de 1995, quando 5 membros da família Vilella e 2 funcionários foram mortos em sua fazenda. Dentre eles, o patriarca Américo Vilella, sua esposa Sandra Vilella e seus três filhos, que na época possuíam 8, 12 e 17 anos de idade. A filha mais velha da família, Camila Vilella, de 25 anos, desapareceu, com a polícia tendo encontrado indícios que apontam para um sequestro. Assim como as 9 famílias chacinadas em 1996, os Vilella também eram uma das mais ricas famílias de Paraty, sendo ativos na área da agropecuária, e a identidade dos criminosos ou o paradeiro de Camila nunca foram solucionados.
Após 30 anos, a memória sobre estes eventos ainda permanece viva. As festas do Dia do Trabalhador só retornaram a acontecer 7 anos após a tragédia, começando como uma homenagem às vítimas tanto do Massacre das Pérolas quanto aos mortos na fazenda dos Vilella, seguido pelas mesmas festas e shows que alegraram os moradores da cidade por décadas. Os efeitos destas tragédias foram espontâneos na cidade: os anos seguintes viram uma queda no turismo, que só foi se recuperar totalmente após o fim das investigações. Recentemente, uma onda de turismo mórbido tem atraído centenas de pessoas curiosas pela história dos massacres e os locais em que estes atos ocorreram, causando transtornos e visões conflitantes entre os moradores. Os Marino, tendo se reerguido após a morte de dois de seus membros jovens, se tornaram, na prática, a família mais rica da região, tendo absorvido os negócios e propriedades da maior parte das famílias vítimas da tragédia. Em homenagem a elas, desde 2003, os Marino custeiam não só a homenagem a elas durante a festa do Dia do Trabalhador, mas a festa como um todo e diversos outros eventos culturais e trabalhos de filantropia.
Mesmo com essa mancha em sua história, a cidade de Paraty se reergueu como o centro cultural e turístico que sempre foi, com praias belas, uma natureza intocada e um legado cultural e arquitetônico rico, que encanta e atrai milhões de turistas todos os anos. Esses episódios, de certa maneira, se tornam quase invisíveis, como uma cicatriz que, apesar de trazer memórias de tempos complicados, se apaga em meio as suas incontáveis belezas.




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