Livrai-nos do mal
- Lara

- 5 de ago.
- 2 min de leitura
Entre todos os lugares possíveis, o que foi palco da pior noite de Zilá foi um Graal.
Voltava de um encontro da ordem junto de sua Irmã Catarina, tão cansada que nem teria percebido a parada de madrugada, se não fosse pela melhor amiga avisando-a que ia esticar as pernas. Os minutos passavam e seu sono não voltava, assim como Catarina. Finalmente se dando por derrotada, saiu para ir atrás da outra. Não a encontrou dentro do estabelecimento. Não a viu entre as pessoas espalhadas na área iluminada perto dos ônibus. Mas viu um movimento na escuridão, logo além do alcance das lâmpadas trêmulas, brusco e agitado. Cada passo que dava, o coração pesava e rezava para que ouvisse a voz da irmã atrás de si, a chamando para voltar.
Infelizmente, ela não tinha como gritar com a garganta aberta daquele jeito.
Não que os próprios gritos de Zilá tivessem sido de muita ajuda, era tarde demais quando alcançou a cena, a coisa já tinha terminado.
Os próximos meses não lhe trouxeram alívio. As escrituras pareciam vazias, não conseguia entender por quê o Criador teria deixado aquilo acontecer com a sua filha mais devota, muito menos por que as orações não funcionaram contra um demônio. O convento pareceu cada vez menor e mais restritivo. Não aguentava ficar parada sabendo que tinha algo lá fora que matou Catarina e sairia impune, por que todos pensavam que seu relato era apenas o resultado de uma mente despedaçada pelo testemunho de uma morte brutal. Zilá sabia o que tinha visto e, justamente por isso, deixou a clausura em busca de respostas mais concretas às suas perguntas.
Assim chegou até Ferreira, um caçador experiente que a acolheu e lhe explicou que aquilo que matou sua amiga realmente não era humano. Zilá não tinha como pagar pelos serviços de caça dele, na verdade não queria, aquela caçada era dela. Quando disse isso, recebeu em troca um sorriso macabro e uma oferta para aprender. Não hesitou por um segundo, afinal, devoção total a uma crença era algo que conhecia bem, vinha naturalmente para si. Zilá tinha apenas encontrado sua nova missão divina.



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