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CORAÇÃO DO OBLÍVIO - O abraço.


Alerta de Gatilhos!

Esse material contém conteúdos sensíveis sujeitos à gatilhos emocionais para pessoas mais sensíveis aos assuntos abordados. Continue por sua conta e risco.


Recomendações do autor

Essa história foi escrita 100% durante madrugadas silenciosas. Escolha um lugar com pouca ou nenhuma iluminação e silêncio para uma melhor experiência. Boa leitura!



Capítulo 1 - A Criação de Adão


Por que você está aqui? É, você mesmo que está lendo isto. Quer saber minha história? Hm… Acho que posso entreter você e seu interesse inocente. Espero que goste de histórias de terror. Não aquelas com monstros e fantasmas, pois isso é apenas um cotidiano. Um terror real. O meu terror…


15 anos atrás…


Manhã no Rio de Janeiro.


A luz invadia o banheiro do apartamento no Leblon, o som alto do rádio escapando pelo basculante. 'Sweet Child O' Mine' dominava, e eu, com a escova de dentes pendurada na boca, acompanhava a melodia em um tom notoriamente desafinado. Não havia elegância ali, apenas a inércia rotineira.


Enxáguo a boca com a água gelada que desperta o que restava do sono. Seco o excesso com uma toalha de rosto e encaro o espelho, exibindo os dentes recém escovados em uma rápida inspeção. Ao aprovar a qualidade da limpeza, a reação era automática: duas estaladas secas com a língua, a mão moldada em uma “pistola de dedos” apontada para o próprio reflexo, seguida por uma pose ridícula de 'durão'. Um momento breve de comédia banal, a minha preferida.


Me dirijo ao quarto. Em um espelho de corpo inteiro está pendurada uma camisa social branca que me espera. Abotoo a camisa, ainda cantarolando o solo de guitarra da música em um murmúrio. Então meus olhos se desviam. O foco se quebra para a lateral do cômodo, onde o berço do meu filho, faltando pouco para a chegada, se encontra. Paro o que estou fazendo. A camisa fica mal abotoada sobre o peito enquanto me aproximo da madeira polida.


Aliso a borda do berço. Minha mão sente a textura suave enquanto encaro o interior vazio, a mente imaginando a criança ali dentro. Entre um devaneio e outro, a preocupação me aperta o peito, a sombra do risco, da responsabilidade, mas, no mesmo instante, não consigo impedir o sorriso de alegria genuína que se abre no meu rosto. É o futuro, é a luz, ainda intacta, para alguém como eu que já viu cenas tão impactantes no ofício de policial.


“Procurando alguma coisa, detetive?” – disse ela sorrindo da porta do quarto, quebrando o meu momento de reflexão. Aquela era Ellen, minha mulher. Exibindo sua linda e avantajada barriga de grávida coberta por seu vestido de cetim branco, enfeitado com estampas de pequenas margaridas.


“Olha moça, eu não consigo imaginar o porquê, mas se eu tivesse, você seria a principal suspeita!” – digo em tom irônico, esboçando um leve sorriso debochado.


Ela se aproxima com as mãos atrás das costas. – “Você parece preocupado. Achei que depois de quase nove meses já teríamos passado dessa fase.” – Disse ela enquanto se posicionava à minha direita deitando sua cabeça em meu ombro e encarando o berço junto à mim.


“Algo me diz que nunca passaremos dela.” – Digo com em tom baixo, quase um sussurro enquanto suspiro preocupado.


Rapidamente sou surpreendido com uma pequena caixa embrulhada em papel de presente que ela tira de trás das costas. – “Feliiiiz…” – Disse ela querendo que eu completasse a frase.


“Feliiiz…?” – Disse eu não completando.


“Sério?! Você esqueceu?” – Indignada ela pergunta trocando seu sorriso por uma feição aborrecida e decepcionada.


“Ah, qual é?! Dá uma pista! Vai, me diz se eu estou quente ou frio: É dia de São Cosme e Damião?” – Perguntei em tom irônico e provocando ainda mais ela.


“Nosso aniversário de casamento Hazyel!” – Disse ela claramente chateada, com seus olhos fumegando. Era engraçado, por que gosto tanto de irritá-la?


“Putz! Era isso!” – Eu disse estapeando minha testa exageradamente, como se lembrasse de algo importante.


“É! Era isso!” – Ela conclui cruzando os braços.


“É por isso que eu tinha comprado isso ontem, estava tentando lembrar o porquê!” – Digo mantendo o tom irônico enquanto retiro de trás do espelho um vaso de plantas com margaridas.


“Margaridas!!” – Rapidamente sua expressão chateamento mudou e seu sorriso tomou conta do lugar novamente seguido de um repentino abraço.


Nesses momentos meu mundo parece parar, e meu dia ganha segundos preciosos. Eu acariciava seus cabelos; meus dedos deslizavam por eles como em fios de seda. Com a outra mão, percorria os seus ombros até a ponta dos seus dedos e em seguida sua barriga em um carinho que parecia não ter fim. Era um universo contido na proximidade.


Ellen... Ainda hoje, se fecho os olhos, consigo lembrar da sua presença como se estivesse aqui, palpável. Ainda parece que sou capaz de descrever as inúmeras sensações apenas da sua proximidade. Mas seus olhos são o que mais me marca. No interior do castanho deles existe um abismo tão negro, tão profundo, que suga a minha alma e o meu coração em um simples relance. Outros exemplos são seus beijos e toques me acalmavam até mesmo depois dos dias de maior tensão. Seria possível, hoje, com minha pele fria sentir essas mesmas sensações? Seria possível, hoje, afogado nas sombras do nosso passado, retribuir o amor que sinto por você?


Eu encarava seus olhos e seu sorriso como se fosse a primeira vez. – “Vai, abre seu presente” – disse ela, a ansiedade quase transbordando.


Era uma caixa pequena, do tamanho da palma da mão, mal embrulhada em um papel de presente vermelho amassado, como se a urgência fosse mais importante que a estética. Ao rasgar o papel, revelei uma caixa preta aveludada. Ao abrir, me deparei com um relógio de bolso prateado, simples e clássico.


“Você sempre gostou dessas coisas antigas, quando eu vi vendendo num antiquário lembrei na hora de você” – disse ela ainda ansiosa.


“Uau! Muito obrigado, meu bem! Eu achei incrível!” – Disse apreciando a beleza dele enquanto o abria por clique, que revelou o interior do relógio com uma foto do o berço do nosso filho e no interior da tampa, outra foto, dessa vez nossa, abraçados em nossa última viagem para a Grécia. Ali aquele presente valia mais do que ouro.


Um momento de silêncio tomou o local, eu olhava para o relógio com um sorriso bobo enquanto ela parecia esperar por alguma resposta. – “É o melhor presente de todos…” – disse enquanto a abraçava.


Então, nosso momento foi abruptamente rasgado. De repente, um som irritante e insistente: a campainha. Um ruído que quebrou a delicadeza da cena. Foi um pequeno susto, um aviso de que o mundo exterior ainda existia e era impaciente.


Dirigi-me à porta, visivelmente irritado pela interrupção. Abri-a. Ali estava ele: meu amigo William que trabalha comigo, esmagando o botão da campainha. Ao me ver parado, ele congelou, capturado em flagrante na sua própria travessura.


“Não tinha momento melhor para você aparecer?” – Pergunto impaciente.


“Claro que tinha, à 10 minutos atrás, mas a mocinha delicada esqueceu que combinou de se encontrar comigo no estacionamento e irmos pro trabalho juntos. Então fiz questão de buscar a princesa.” – Disse ele cruzando os braços e encostando na parede do corredor. – “Qual é, sua senhora deve se arrumar mais rápido que você!”


“Eu tenho que dar razão à ele, meu amor” – Ellen aparece na porta, cumprimentando William.


“Olha ela aí! A buchuda gringa mais fofa do Rio! Como você está, doçura? O ainda-mais-mini-Hazyel aí dentro anda chutando muito?” – Ele pergunta sorrindo e debochando da minha altura para tentar me irritar.


“Na verdade não, ele é muito tranquilo…” – Ela responde acariciando a barriga.


“Ah, herdou o talento ‘chuta fofo’ do pai. Cuidado Hazyel, capaz do teu filho ser melhor de briga do que você” – ele brinca enquanto faz uma pose tosca de luta.


“Engraçadinho, a gente não estava atrasado?” – Pergunto terminando de pegar meu coldre peitoral, pistola, algemas e distintivo.


“É estamos e o dia já começou daquele jeito! Mas eu te conto melhor no carro. Não demora, se não eu vou sem você!” – diz ele acenando para Ellen enquanto segue em direção ao elevador.


“Está tudo bem?” – Pergunta Ellen preocupada.


“Não deve ser nada, meu bem. Apenas problemas do trabalho” – Disse tentando confortar ela enquanto beijo sua barriga e em seguida seus lábios. – “Eu estou indo, te amo muito” – Me despeço terminando de pegar meu equipamento.


“Eu te amo mais… volta logo.” – Ela diz brandamente.


Saí de casa e encontrei William no corredor. Ele não exibia o sorriso habitual; a seriedade em seu rosto era um presságio. Esperávamos o elevador enquanto ele tirava um jornal dobrado da mochila e o colocava contra meu peito.


"Acho que você vai querer ler as notícias de hoje!” – ele disse sério. William era o cara que aliviava as missões mais tensas com alguma idiotice. Para ele estar sério assim, a situação não era brincadeira.


Vendo a gravidade em seus olhos, abri o jornal e comecei a ler.


“Mas o quê...? ‘Jonas Lima, conhecido como Jonas Açougueiro, é solto nesta terça-feira?’” A indignação me subiu à garganta. – “O que deu na cabeça dessa gente para soltar esse animal???"


"O que será que deve ter sido?!” – William respondeu, numa ironia fria. – “Vai para o segundo parágrafo."


"...blá blá blá... O tribunal de justiça afirma que as supostas provas apresentadas não são suficientemente convincentes de que Jonas tenha cometido os crimes qu–…’” – Amassei o jornal na mão. – “Que maravilha! O DNA desse desgraçado estava espalhado por toda a cena do crime, em cada canto. Como isso não foi prova o suficiente?"


"Não é difícil de entender quando você lembra dos contatos que esse homem tem na política” – William desabafou. – “Sabe, Hazyel, às vezes me pergunto por que ainda insistimos nesta carreira. A gente avança um passo na direção certa, mas tem vagabundo que consegue puxar nosso tapete por simples questões de ‘contato’.” – O elevador chega e entramos nele. – “Eu estou ficando exausto. É sempre isso..."


A exaustão que pairava sobre ele, era mútua. Jonas era um traficante com tentáculos na política, na bandidagem, e agora pelo o que parece, no tribunal de justiça também. Ele foi o responsável por um dos casos mais hediondos que eu já havia resolvido: dezessete homicídios, cinco estupros de vulnerável, três desaparecimentos e uma ficha criminal como traficante maior que meu braço.


Mas a lição mais amarga que se aprende vivendo no Brasil é que o dinheiro fala muito mais alto que a justiça, e o dinheiro dele gritava de forma ensurdecedora.


“É William… eu também…” – O elevador chega no térreo do prédio. – “Mas meu filho está para nascer, e o que eu puder fazer para construir um lugar melhor e mais seguro pra ele, eu farei. E se eu não conseguir, pegarei nossas coisas e saio do Rio de Janeiro com a minha família sem olhar para trás!”.


“Seria de fato a melhor coisa à se fazer…” – Conclui William.


A conversa morreu ali. Seguimos para o trabalho com o carro dele, trocando poucas palavras. O silêncio era pesado, preenchido apenas pelo ruído do trânsito carioca e pelo eco daquela injustiça nas nossas cabeças. Parecia que ambos mastigávamos o absurdo da soltura de Jonas em silêncio, em um esforço mútuo para não deixar o dia azedar antes mesmo de começar.


Na delegacia, a normalidade era um conceito relativo para um detetive já mergulhado em um caso. Eu estava no rastro de uma série de mortes inexplicáveis que se espalhavam pela Zona Sul, Norte e pelo Centro do Rio. Havia um padrão perturbador que conectava as vítimas, um fio condutor macabro: o sangue era completamente drenado. Às vezes, o cenário apresentava variações: membros faltando, sinais de violência bruta ou suicídios encenados com perfeição; mas a sede do assassino era constante.


Geralmente assassinos em série seguem um padrão em seus assassinatos, com variações mínimas ou nulas, no caso dos mais compulsivos. Mas além do sangue drenado, existiam variações muito distintas umas das outras. Isso me levou a crer que não enfrentávamos um lobo solitário, mas um grupo operando sob uma compulsão metódica.


Eles não estavam apenas matando; pareciam estar seguindo um comportamento que eu ainda irei decifrar!



Mais tarde, naquele dia…


William para o carro diante da entrada do meu condomínio. Despeço-me com um aceno rápido e saio para enfrentar o que restou do dia. O Rio de Janeiro decidiu desabar em uma chuva torrencial, daquelas que parecem querer lavar o asfalto, mas que apenas tornam tudo mais turvo.


Bato a porta do carro e o som é imediatamente devorado pelo ruído da tempestade. Agradeço a William com um aceno cansado e me despeço. Trovoadas pesadas ecoam ao longe, um barulho que reverbera no peito como um mal pressentimento.


Caminho apressado sob a cortina de água, sentindo os pingos gelados atravessarem o tecido da camisa branca enquanto os relâmpagos desenham silhuetas rápidas e cinzentas entre os prédios do Leblon. A luz da guarita do porteiro parece, naquele momento, a única luz visível em um mundo que começa a se dissolver no cinza.


Seguindo para o interior do prédio em direção ao elevador, o som das portas de metal se fechando é o sinal que eu precisava para finalmente soltar os ombros. Lá dentro, o confinamento se torna meu santuário. Reflito sobre o dia denso: a injustiça na soltura do Jonas, os corpos drenados… o Rio que parece sangrar de formas que eu ainda não entendo.


O elevador subindo se torna um local de descarrego, um limiar entre o mundo brutal da delegacia e a paz que me espera andares acima. Entre um andar e outro, tento deixar a maior parte do estresse para trás, como se a gravidade estivesse puxando as preocupações para a fundação do prédio. A cada número que brilha no painel, o peso do dia se torna mais suportável.


Respiro fundo, exorcizando os crimes e o cinismo. Preciso estar inteiro. Preciso ser o marido e o pai que a Ellen e meu filho merecem agora, nesse momento tão delicado em que a vida está prestes a transbordar.


Todo santo dia, a dúvida me visitava como um fantasma persistente: eu seria um bom pai? Era um questionamento que parecia me consumir por dentro, mas que eu abafava mergulhando em uma espécie de memória forjada, um sonho tão vívido que eu quase podia sentir a textura da realidade.


Nele, eu segurava uma mãozinha minúscula e macia, que tateava o ar até encontrar o meu rosto.


Eu mal podia esperar para reencontrar o olhar da mãe no seu. Queria me perder novamente naquele poço profundo e negro que eram os olhos de Ellen, mas que, no seu caso, estariam transbordando com a luz da descoberta e de uma esperança ainda intacta, sem as cicatrizes do mundo.


Você nem sequer chegou, e eu já sentia esse amor me ancorando à vida de uma forma que eu nunca julguei possível. Meu amado filho... Meu pequeno pedaço de futuro…


O elevador chega ao meu andar com um tilintar metálico que me arranca, subitamente, do meu devaneio. Saio para o corredor silencioso, meus passos ecoam de forma abafada no carpete. Eu estava tão perdido em pensamentos, tão mergulhado na imagem de meu filho e no cansaço acumulado do dia, que o mundo ao meu redor era um borrão de segurança ilusória.


Mas, conforme me aproximo da porta do meu apartamento, meu instinto de detetive, que nunca dorme de verdade, mesmo sob a exaustão, grita em alerta antes mesmo que meus olhos processem a cena.


O passo vacila. O ar gela nos pulmões. Mal pude perceber de imediato, mas ali estava a realidade brutal: a porta não estava apenas aberta; o batente estava estraçalhado, a madeira lascada projetando-se para dentro como dentes quebrados.


A porta estava arrombada e o silêncio que vinha de dentro do apartamento era um terror absoluto.


Saco a pistola rapidamente. O metal frio na palma da mão é a única âncora de realidade enquanto deslizo para dentro, as sombras do apartamento parecendo se contorcer sob a luz da tempestade que entra pelas frestas. Eu esperava encontrar um invasor, esperava um confronto tático. Mas o que vi me abalou mais do que tudo que vi até agora em minha carreira.


Ellen estava deitada no centro da sala. Imóvel. Desacordada, talvez. Naquele instante, anos de treinamento de elite e procedimentos de segurança foram varridos por um pavor primitivo. Era a primeira vez que eu a via daquele jeito, e o impacto visual foi mais doloroso que qualquer tiro. Ignorei o protocolo. E talvez tenha sido o meu maior erro.


A pistola escapou dos meus dedos, corri na direção de Ellen, o nome dela saia da minha garganta em um clamor desesperado. Eu só precisava alcançá-la.


E então um golpe veio do nada, um impacto brutal que me jogou contra o chão, ao lado dela. Antes que eu pudesse processar a dor, o peso de dois homens me esmagou contra o piso, prendendo meus braços e forçando meu rosto contra a frieza do assoalho.


Assim, vindo do fundo da sala, uma silhueta se desprendeu da penumbra. O rosto que eu vira nas páginas amassadas do jornal naquela manhã estava ali, vivo e carregado de um cinismo doentio: Jonas Lima. O predador que o sistema soltara havia acabado de encontrar o caminho para a minha casa.


“Boa noite, detetive… Espero que se lembre de mim, se não a noite de hoje não teria sentido nenhum” – Dizia Jonas enquanto exibia um sorriso doentio através da escuridão.


“JONAS!!! O QUE ESTÁ FAZENDO NA MINHA CASA? O QUE FEZ COM MINHA MULHER?” – Perguntava rosnando de raiva enquanto tentava me desvencilhar da imobilização.


“São muitas perguntas… típico de um Detetive tão jovem e com tão pouca experiência nos negócios do Rio de Janeiro quanto você.” – Ele dizia enquanto se aproximava de Ellen e pegava a pistola que deixei cair no chão.


“Eu vim acertar as contas com você, detetive… Não é nada pessoal, mas esse é o procedimento quando alguém se mete onde não é chamado…” – Ele dizia enquanto com o cano da arma colocava o cabelo de Ellen atrás da orelha, revelando seu rosto desacordado.


“SEU DESGRAÇADO, NÃO ENCOSTA NELA!!! SEU PROBLEMA É COMIGO!!!” – Urrava desesperado, mas quanto mais eu tentava me soltar, mais me seguravam.


Eu me contorcia sob o peso dos capangas, o peito sendo esmagado contra o chão enquanto o ódio borbulhava na minha garganta como veneno. Jonas não tinha pressa. Ele ignorava meus rosnados e esforços inúteis, mantendo os olhos fixos em Ellen. Ele começou a passar com a ponta da arma nas costas de Ellen com uma calma predatória que me revirava o estômago. Cada centímetro parecia um prego sendo martelado na minha sanidade.


A fúria me cegava. Ver aquele monstro tão perto do que eu mais amava, era uma tortura. E então, ele parou. O rosto pensativo de Jonas foi iluminado por um relâmpago que rasgou o céu, e eu vi: ele estava ficando com aquele olhar: Um brilho vitrificado, uma mistura de triunfo sádico e vazio moral. Aquele olhar de quem não busca apenas um acerto de contas, mas que sente um prazer quase divino em profanar o que o outro considera sagrado. Ele não estava ali apenas para me assustar; ele estava ali para me assistir quebrar.


A mão dele desceu lentamente em direção ao rosto de Ellen, e o mundo ao meu redor começou a escurecer nas bordas, afogado pelo som do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos.


“Tem uma bela mulher, detetive... você tem sorte…” – Ele rosnou, a voz carregada de uma satisfação doentia. – “E sabe de uma coisa? Esta noite, eu também.” – O som metálico da fivela do cinto se abrindo foi como o gatilho de uma execução.


Vi, em um horror paralisante, ele levantar o vestido de Ellen até a cintura. Profanando o nosso lar e a vida que tínhamos construído.


“MALDITO! NÃO OUSE!!!” – O grito rasgou meus pulmões, mas eu continuava sendo esmagado, a pressão contra o meu peito transformando minha voz em um ruído sufocado.


Naquele instante, Ellen começou a despertar do impacto. O terror nos olhos dela ao encontrar os de Jonas foi uma das coisas mais cruéis que já presenciei até ali. Ele se deitou sobre ela, com o peso bruto pressionando a barriga onde nosso filho descansava fazendo-a gritar de dor, e apontou a pistola para a minha cabeça, garantindo que ela visse.


“Não resista, ou eu mato ele e você…” – Jonas murmurou, com rosto colado ao dela, enquanto mantinha o olhar fixo em mim.


Ele queria que eu fosse a testemunha. As lágrimas de Ellen começaram a cair, silenciosas a princípio, antes que outro grito dela tomasse a sala. Foi um som ensurdecedor, que carregava não só a agonia de uma mãe sentindo o fruto de seu ventre ser esmagado contra o chão frio, mais a dor da violência sexual.


Ele a violou ali, de forma agressiva, repetitiva, covarde. Se esfregava e empurrava ela contra o chão de forma bruta e agoniante. Ele socava as costelas e a lateral de sua barriga repetidas vezes enquanto a violentava.


Eu lutei para me desvencilhar. Lutei com cada fibra que me restava. Mas o estalo seco do meu osso quebrando ecoou pela sala quando um dos capangas forçou meu braço além do limite. A dor foi um clarão branco, e quando tentei esconder o rosto contra o chão para não ver o fim do meu mundo, o outro capanga puxou meu cabelo com violência, obrigando-me a manter os olhos abertos e vendo tudo. Fui condenado a assistir aquela cena de terror até o fim.


"Está gostando do que vê, detetive?!” – A voz de Jonas era um escárnio que se sobrepunha ao horror, uma nota dissonante que cortava o som da chuva. – “Pois eu também não gostei de ir pra cadeia e de ter você se intrometendo em meus negócios!.” – Ele desferia cada palavra como um golpe, enquanto continuava a estuprá-la com uma brutalidade cega.

O sangue de Ellen, misturado ao suor e às lágrimas, começou a se espalhar pelo chão, desenhando um mapa de tragédia no piso da nossa sala.


“Por favor… pare!! – Eu implorei, quase sem forças, mas ele não parava.


Eu, o homem que acreditava na ordem e na justiça, vi-me reduzido a um amontoado de carne e desespero, suplicando para que aquele pesadelo cessasse. Mas não havia piedade no carrasco. Eu sentia, fisicamente, a minha mente se rachando, como um vidro sob pressão extrema.


Cada milésimo de segundo que se arrastava como uma eternidade de agonia, somado aos gritos sufocados e às lágrimas de Ellen, alimentava algo novo dentro de mim. Minha humanidade estava se esvaindo, escorrendo para fora junto com o sangue dela, e em seu lugar, um vazio gélido começava a ser preenchido. O ódio não era mais um sentimento; era uma força biológica, uma pressão insuportável que crescia exponencialmente a cada grito dela. Naquele chão frio, enquanto eu assistia ao fim do meu mundo, o detetive Hazyel Franklyn morria muito antes de seu coração parar.


Com o passar do tempo, os gritos de Ellen foram morrendo. O som da sanidade se apagando é mais alto que qualquer clamor. Ela parou de lutar. O olhar que antes era um poço de vida tornou-se um abismo de vácuo, vazio e quase sem alma, encharcado pelas próprias lágrimas.


Jonas e seus cães se levantaram. Eles disseram algo, talvez uma ameaça, talvez uma piada, já não conseguia distinguir suas palavras para além de um zumbido abafado pelo trauma que se instalava na minha alma.


Quando a porta finalmente bateu e o silêncio da chuva voltou a dominar o apartamento, eu ainda estava inerte. Arrastando o que restava da minha dignidade e o meu braço quebrado, estiquei a mão boa em direção à dela. Meus dedos mergulharam na poça de sangue viscoso que saía debaixo dela e preenchia as frestas do piso.


Toquei sua mão fria e quase sem pulso, implorando em silêncio para que houvesse um amanhã e que isso tivesse sido apenas um pesadelo, mesmo sabendo que a luz do sol nunca mais brilharia da mesma forma.



Dois meses depois...


A ponte Rio-Niterói vibra sob meus pés a cada carro que passa, um gigante de concreto que parece rugir junto comigo. Mas, para quem olha de longe, eu sou apenas uma silhueta solitária contra o horizonte noturno. O vento aqui em cima é selvagem; ele açoita meu rosto, trazendo o cheiro de diesel e o salitre do mar, como se tentasse me empurrar para o esquecimento.


Fraco... Impotente... Essa palavras giram na minha mente como um disco quebrado. Eu era o detetive, o protetor, o homem da lei. E, no entanto, não pude proteger o que dava sentido à minha vida. Minha casa não é mais um lar; é um museu de horrores, onde as paredes, mesmo que brancas, parecem ter gravado aquele cenário em uma tinta invisível que só aparece em minha mente. Minha família... o que restou dela é um estilhaço de vidro que me corta toda vez que tento segurar.


É amargo pensar nisso: eu sempre temi não saber nadar se um filho meu estivesse se afogando. Irônico, não é? No fim, ele não morreu na água. Ele morreu onde deveria estar mais seguro. E agora, sou eu quem está se afogando no seco, com o calcanhar na beira de um abismo de setenta metros. O mar lá embaixo está escuro, revolto, faminto. Ele parece ser o único lugar que não vai me julgar, o único lugar onde minha mente pode se calar de vez.


Olho para as minhas mãos e não vejo o sangue de Jonas, vejo o vazio. Nesses dois meses, eu morri um pouco a cada dia.


Ellen, o amor da minha vida agora me vê como o gatilho da sua dor. Cada vez que ela olha para mim, seus olhos se perdem no pânico e uma parte da minha alma se apaga. Eu me tornei a sombra do monstro dos pesadelos dela.


No trabalho eu tive que ser afastado, William está carregando o meu cadáver profissional nas costas. Eu me tornei um perigo público, um homem que não consegue mais prender um criminoso sem querer arrancar a pele dele com as mãos.


O mundo… ele continua girando. As pessoas riem, os carros passam, o sol nasce. Por que o mundo não parou quando o meu universo colapsou? E por que eu tenho a sensação que todas essas conversas e risadas são para mim? Essas pessoas nem me conhecem, mas parece que riem de mim, falam de mim.


Estou cansado. Cansado de sentir esse buraco no peito que nenhum ar consegue preencher. Cansado de falhar. A cada milésimo de segundo, o mar parece mais convidativo. Um passo. Apenas um passo para o silêncio definitivo. Vamos! Reaja! Pelo menos uma vez depois de tudo, faça alguma coisa!


Eu inclino o corpo levemente para frente. O instinto de sobrevivência grita, travando meus músculos, mas minha mente já se despediu. Estou ofegante, o coração batendo como um pássaro enjaulado contra as costelas. Mas eu dei um passo, e é o fim.


O chão desaparece. A gravidade, que antes era uma âncora pesada, agora se torna uma mão invisível me puxando para o abismo violentamente. O vento não sopra mais contra mim; ele me atravessa, ensurdecedor, enquanto a ponte Rio-Niterói se encolhe rapidamente contra o céu escuro.


Eu deveria ter menos de quatro segundos antes do impacto, mas o tempo, em sua crueldade final, decide se dilatar me dando uma infinidade de pensamentos e sentimentos à cada segundo.


Negação… Isso não é real. É apenas mais um daqueles pesadelos que me acordam suando no sofá da sala. Eu vou fechar os olhos e, quando abrir, estarei deitado no chão frio, com o cheiro de café velho de William impregnando o ar. É apenas um sonho. Tem que ser.


Ódio… A negação morre antes mesmo de eu completar o pensamento. A pressão do ar no meu rosto é real demais. A raiva explode no meu peito, mais quente que qualquer tiro que já levei. Covarde. Eu segui o caminho mais fácil. Jonas está lá fora, respirando, rindo, enquanto eu escolhi o silêncio das águas. Eu sou um fracasso até para me vingar.


Instinto… O agente em mim tenta assumir o controle. Meus braços se agitam instintivamente, procurando por algo que não existe. Meus olhos buscam a superfície da água, tentando calcular o ângulo, tentando encontrar uma saída da armadilha que eu mesmo armei. Mas não há cálculo que salve um corpo caindo de setenta metros. A lógica se torna um ruído branco diante da morte iminente.


Perda e a Aceitação… O rosto de Ellen brilha na minha mente uma última vez. Não a Ellen traumatizada do hospital, mas a Ellen que sorria para mim nas manhãs de domingo. Eu nunca mais vou sentir o cheiro dela. Nunca mais vou ouvir sua voz.


E, no milésimo de segundo final, o frio da água salgada me atinge como uma parede de concreto. Eu percebo, com uma clareza aterrorizante, que eu realmente fiz. Eu pulei.


O impacto com a água não foi o mergulho que eu esperava; foi uma colisão. O mar da Baía de Guanabara me recebeu com a dureza do mármore, expulsando o pouco ar que restava nos meus pulmões e transformando meus ossos em vidro moído. A escuridão lá embaixo é total, um vácuo líquido que me engole antes mesmo que eu consiga entender que ainda estou consciente.


O medo, aquele instinto animal e rasteiro que eu achei ter matado na ponte, ressurge com uma força avassaladora. Meus braços batem freneticamente, mas a água é pesada demais, um abraço de chumbo que me puxa para o leito de lama. Eu tento subir, tento encontrar a superfície, mas o labirinto de sal, areia e espuma destrói meu senso de direção. Não há 'cima' ou 'baixo'. Existe apenas o frio e a pressão que esmaga meus tímpanos.


Minha garganta se fecha em um espasmo violento. Eu quero gritar, quero implorar por uma segunda chance, mas meu corpo está ocupado demais lutando por um oxigênio que não existe aqui. A necessidade de respirar torna-se uma agonia insuportável, uma queimação que começa no peito e se espalha por cada nervo, como se eu estivesse sendo incendiado de dentro para fora no meio do oceano.


E então, o ponto de ruptura. O reflexo involuntário supera a vontade de viver ou de morrer. Eu abro a boca para buscar o ar e recebo o oceano.


A água salgada invade minhas vias respiratórias como metal derretido. A ardência é absurda. Cada alvéolo do meu pulmão parece gritar enquanto é inundado por esse líquido salgado e gelado. É uma dor que não permite pensamento, não permite luto, não permite nada além do puro e simples sofrimento físico. Eu sinto meu corpo desistindo, a luta diminuindo enquanto a dormência começa a substituir o fogo. O mundo se torna um borrão cinzento. O silêncio finalmente chega.



Ouço uma risada. Ela ecoou no interior do meu crânio, no último espaço onde a luz ainda tentava resistir. Era um som seco, como o atrito de pergaminho velho, carregado de um escárnio que me fez sentir pequeno, insignificante. – “Hahahaha… isso… se entregue ao vazio… deixe que ele devore sua dor… não sinta… Relinquere omnia post tergum…”


Eu abro os meus olhos.


Mas não há Rio de Janeiro. Não há ponte. Tudo o que vejo é uma escuridão absoluta, mas uma escuridão que tem peso, que tem voz. Ouço gritos que parecem vir de séculos atrás e lamúrias de almas que nunca encontraram o repouso. Sinto um frio sepulcral me atravessar, uma geada que não congela a carne, mas o espírito. É uma agonia que faz o sal nos meus pulmões parecer nada. Por um instante, eu não sou mais um homem; sou apenas um pensamento perdido no vácuo. Um vácuo que parece me encarar com olhos famintos.


Pisco novamente, e a realidade física volta com a violência de um tiro. O impacto do concreto contra minhas costas me faz arquear. Estou em um dos pilares gigantescos que sustentam a ponte Rio-Niterói, a poucos metros acima da água que quase me reclamou. O concreto é frio, úmido com limo e salitre, mas o que realmente me aterroriza é o fato de que eu deveria estar morto.


Tusso violentamente, expelindo o que deveria ser água mas não sai nada além de cinzas. Meus pulmões ardem, meus ossos doem muito, mas parecem inteiros, o que contradiz com o impacto que sofri. Mas, no meio dessa dor, percebo que não estou sozinho naquele pilar isolado no meio do mar.


Envolto em uma sombra que parece desafiar as luzes distantes da cidade, uma figura está de pé na beira do pilar, observando o horizonte com uma indiferença divina. Ele não parece se importar com o vento cortante ou com o estranho cheiro de morte que emana de mim.


Ele se vira devagar, mas as sombras da ponte parecem esconder seu rosto dos meus olhos.


“Você pulou para morrer, Detetive” – a voz dele é a mesma da minha consciência, mas agora ela tem corpo. – “No entanto, o abismo tem outros planos para quem carrega um ódio tão... autêntico.”


Tento me levantar, mas meus braços falham e eu permaneço ali sentado. O pânico de antes foi substituído por uma curiosidade mórbida. Quem era aquele homem?



Bom, acho que por enquanto é isso. Ah! Você quer saber como termina?! Não se preocupe com o final, essa é uma história sobre um vampiro imortal. Além disso, estamos apenas começando…


Continua.


Robin Rowland (revisão)

Bruna Spina (revisão)

Rio das Trevas (Comunidade que tornou isso possível)



 
 
 

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