À la sombra, ah lá hétero
- Catherine Vitagliano

- 14 de fev.
- 3 min de leitura
Uma xerife, duas doidas e um submisso entram num bar...
De BDSM!
Pelas câmeras, entretanto, olhos atentos poderiam observar adentrar também a sombra de um homem. A heráclita porta da saída até poderia ser a mesma da entrada, mas o homem, a sombra...
Os mortais na superfície brincavam no raso poder e rendição. Os Imortais comungavam com a Besta na divina transcendência da carne em carmesim.
E um hétero daria o seu cu.
Para um pau.
Ou tentáculo, mas aí já fica um pouco menos relevante. Fato é que o outro era uma pessoa de pênis.
Havia poderosa magia de sangue no ar. A besta que antes apenas espreitava por frestas agora se aninha na sua pélvis, roçando, esperando você ficar duro para montar. Desejo cru, devassidão imortal, agudos êxtases insanos.
Um homem de terno impecável, óculos escuros e luvas negras entra em um quarto de prazer, ele tem uma missão, ele estava no controle. Outro homem sorri lascivamente ao vê-lo entrar.
A magia corrompe ou revela? Transmuta?
Um lapso de negação se perde em meio à sombras de rendição. Há uma centelha de preservação de poder, de identidade, de qualquer coisa que não o faça negar a si mesmo, que o impeça de deixar de existir. Mas a tentativa falha de se manter no controle resulta apenas em dois switchers.
Tentáculos se movem pelo chão como serpentes ávidas, se enrolando nas pernas do lasombra. Desabotoam seu paletó e camisa sensualmente. Abaixam suas calças devagar. O erguem enaltecendo sua total entrega, com suas costas formando um belíssimo arco. Tiram suas roupas deixando a mostra primeiro seu tórax, depois suas pernas e pés, por fim rasgam...
Rasgam e roçam e penetram. Tudo e por todo o lugar.
Rendição e êxtase.
O gemido ecoa agudo, surpreso e livre.
O último tentáculo deixa uma sensação úmida por entre os dedos do pé do lasombra, que passa a se posicionar ativamente, com raiva e desejo.
Tenebrosos tentáculos, agora de sombras, vão na direção do outro homem. O despem já arranhando a sua pele, revelando um torço largo e hirsuto. As calças, sapatos e jockstrap são rasgadas sem cerimônias. Os tentáculos penetram sua boca e ânus, envolvem seu pescoço que, se mortal fosse, já teria perecido. Puxam cada um de seus membros de forma impossibilitar totalmente os movimentos. Se contorcem na base do pau dificultando o gozo. O outro homem mal consegue gemer.
O lasombra controla tudo com raiva cega e tesão profundo. Seu corpo o trai ao sentir a ausência, como se fosse acostumado a estar preenchido. A ausência vira ânsia, a ânsia vira ódio e buraco.
O outro goza. O fluido branco macula o negro das sombras. Algo se quebra em algum lugar que não existe.
O lasombra sai correndo do quarto de prazer. Vomita sangue. Demanda que alguém apague suas memórias. Consegue.
Conclui satisfatoriamente a sua missão.
Perigosamente antes do amanhecer ele obsessivamente limpa e passa o seu terno, até que fique imaculado mais uma vez. Todo sangue, sujeira e amassado, até a ausência de cueca, têm uma perfeita explicação lógica por conta da missão e que definitivamente não precisam ser melhor examinadas.
Por seu corpo perpassam diversas sensações que insinuam ânsias e satisfações, mas certamente são apenas efeitos do que quer que estivesse no ar daquele lugar maldito e decadente.
Finalmente, ao se encaminhar para deitar, o lasombra passa por um espelho que ele nunca jogou fora sem saber bem o porquê.
Uma miríade de sentimentos já o atravessaram ao se perceber sem reflexo nele em outras noites: surpresa, medo, vaidade, satisfação, arrependimento, gana...
Mas foi a primeira vez que ao não se ver no espelho ele sentiu:
alívio.
Fim.
De uma noite, um mapa, de um cartógrafo.
Comentários extras do cartógrafo:
1. A partir de quantos séculos de existência não existem mais héteros?
2. Ele teria apagado suas memórias se não tivesse gostado?




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