Ébano
- Maria Bortolozzo

- há 4 dias
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No topo da Torre de Ébano, Isabella de La Cruz contemplava o Rio de Janeiro com o cansaço de uma mãe exausta diante de filhos que jamais compreenderiam o que havia sacrificado por eles. A cidade se estendia além das enormes janelas da cobertura em milhares de pontos luminosos, atravessada pelas linhas vermelhas e brancas dos carros, cercada pelas montanhas e pelo negro do oceano. Daquela altura, a Lagoa Rodrigo de Freitas parecia particularmente escura, devolvendo apenas fragmentos das luzes que recebia, e Isabella evitava observá-la por muito tempo. Havia coisas naquela água que antecediam sua chegada ao Brasil e talvez até a presença europeia no continente. Depois de tantos anos, ainda não sabia dizer se a anomalia sob a Lagoa atraía o Oblívio ou se fora o contato prolongado com ele que transformara aquele lugar em algo diferente. Em noites como aquela, quando a superfície parecia negra demais mesmo sob as luzes da cidade, preferia não decidir.
O vidro devolvia seu rosto sobreposto à paisagem. A pele oliva permanecia quase inalterada pelos séculos, mas seus olhos já não eram os mesmos olhos castanhos da camponesa que atravessara descalça as planícies de Yucatán. Haviam adquirido uma tonalidade púrpura, vibrante, quase mineral, que se acentuava depois de longos períodos nos pavimentos inferiores da Torre. Às vezes se perguntava quanto daquela mudança vinha da Vitae e quanto fora deixado nela pelas coisas que aprendera a tocar, embora a pergunta já não tivesse grande utilidade. Depois de tantos séculos, separar a mulher do monstro seria como tentar descobrir a qual ferida pertencera uma gota de sangue caída no chão.
Atrás dela, o escritório permanecia impecável. Madeira escura, mármore frio, documentos da Camarilla separados por assunto, livros em espanhol, português, latim e línguas que poucos Membros ainda sabiam ler. Entre eles sobreviviam objetos de outras vidas: uma caixa trazida do México, correspondências antigas, uma pequena imagem religiosa cuja fé original já não sabia dizer se ainda possuía. Isabella gostava de ordem, talvez porque viver perto demais de algo cuja natureza era desfazer todas as coisas lhe ensinara a respeitar profundamente aquilo que permanecia onde deveria estar. Naquela noite, entretanto, alguma coisa não estava.
A pressão começara horas antes, discreta atrás dos olhos. Descera pela mandíbula, alojara-se nos dentes e agora alcançava a base do crânio. Não chegava a ser dor; lembrava mais a presença de dedos pressionados contra o interior de sua cabeça, procurando uma abertura que ainda não existia. Isabella conhecia aquela sensação bem demais. Fechou a pasta que estava sobre a mesa, permaneceu alguns segundos olhando para a capa e soltou um suspiro curto.
— Sí, sí. Ya voy.
A pressão aumentou.
— Qué impaciente.
Deixou a cobertura e começou a descer.
Os primeiros lances ainda pertenciam ao mundo. Concreto, mármore, iluminação elétrica, elevadores e portas cuja existência qualquer arquiteto poderia explicar. Passou pelos pavimentos reservados aos outros quatro Lasombra, depois pelas áreas técnicas, servidores, sistemas de segurança e tudo aquilo que permitia à Torre de Ébano apresentar-se ao Leblon como apenas mais um edifício caro habitado por pessoas discretas. Nos dois últimos pavimentos, contudo, a explicação terminava. Eles existiam nas plantas, tinham metragem, peso calculado e engenheiros haviam assinado documentos garantindo que estavam ali, embora nenhum desses homens jamais tivesse caminhado por aqueles corredores.
A ausência de iluminação elétrica não significava escuridão completa. Havia luminosidade suficiente para que Isabella percebesse formas, mas era difícil determinar de onde vinha. As paredes não eram negras porque tivessem sido pintadas; a luz simplesmente não retornava depois de tocá-las. Sob os dedos ofereciam resistência, mas nenhuma textura que pudesse ser identificada como pedra, concreto, metal ou madeira. O lugar permanecia estável porque Isabella o obrigava a permanecer. Cinco marcas permitiam atravessá-lo, uma para cada Lasombra da Torre: a sua e as concedidas a Thiago, Emílio, Júlio e Hazyel. A marca não tornava ninguém seguro. Informava apenas àquilo que habitava além das paredes que aquelas cinco criaturas não deveriam ser consumidas imediatamente, e Isabella sempre fazia questão de explicar o “imediatamente”.
Os jovens tinham uma tendência irritante a confundir obediência com domínio. Bastava uma sombra responder a um comando para começarem a imaginar que o Oblívio lhes pertencia. Ela própria cometera erros semelhantes muitos séculos antes, quando ainda acreditava que sobreviver a alguma coisa significava compreendê-la. Com o tempo aprendera que certas formas de conhecimento eram portas e que curiosidade, no lugar errado, podia ser apenas uma maneira muito elegante de cometer suicídio. Por isso não virou a cabeça quando algo comprido demais se recolheu atrás de uma coluna, nem quando uma sombra atravessou o teto na direção contrária à única luz existente.
No fim do corredor encontrou a superfície negra sem maçaneta ou dobradiças. Colocou a palma sobre ela e sentiu a escuridão reconhecer sua Vitae. Do outro lado, alguma coisa encostou a mão na sua. Os dedos eram maiores.
Isabella franziu a testa.
— No empieces.
A passagem se abriu.
O salão além dela era maior do que o espaço disponível dentro da Torre. Isabella não perdeu tempo contemplando a impossibilidade; exigia-se coerência demais do mundo dos vivos para insistir nisso ali também. A porta se fechou às suas costas e levou consigo todos os sons do edifício. Não havia motores, elevadores, tubulações ou trânsito distante. No centro do salão permanecia uma cadeira de mogno e couro, humana, antiga e pesada. Isabella gostava dela justamente porque era absurda naquele lugar.
Caminhou até lá enquanto outros passos acompanhavam os seus, sempre ligeiramente atrasados. Quando seu salto tocava o chão, outro toque vinha atrás. Quando diminuía o ritmo, a coisa também diminuía. Isabella parou, e o passo que a seguia veio uma última vez.
Ela esperou.
Nada.
— Vas mejorando.
Sentou-se.
A pressão atrás dos olhos aumentou, e o negro diante dela pareceu adquirir profundidade até produzir a impressão de que a Torre inteira era apenas uma fissura pela qual alguma coisa vasta demais conseguia observá-la. Então a voz surgiu, não atravessando o salão, mas dentro de sua memória, já acompanhada da certeza de que havia sido pronunciada.
— Você está cansada.
Isabella cruzou as pernas.
— Estou.
— Então descanse.
Um sorriso curto apareceu em seu rosto.
— Já descansei cento e cinquenta anos. Foi una mierda.
A escuridão se moveu.
— Sabe que não foi descanso.
A voz seguinte atingiu-a com mais precisão.
Sua mãe.
O sorriso desapareceu.
Com o timbre vieram o calor de Yucatán, a terra seca sob seus pés, panelas vazias e o cheiro que uma casa adquiria quando ninguém tinha comida suficiente. Cinco irmãos ficando menores diante de seus olhos. A mãe rezando enquanto tentava repartir entre os filhos aquilo que já não bastava para um.
Isabella apertou o braço da cadeira.
— Não.
— Mija...
— No.
A palavra saiu mais dura.
— Tienes hambre.
Ela abriu os olhos.
— Você não sabe o que é fome.
— Eu posso acabar com ela.
— Você acaba com tudo.
A resposta veio quase carinhosa.
— Qual é a diferença?
Isabella passou a língua pelos dentes antes de responder.
— Para você? Poha Nenhuma. Para mim, toda.
A voz da mãe desapareceu, e outra ocupou seu lugar.
Seu primeiro marido.
— Seus filhos morreram.
Seis rostos atravessaram sua memória. Três haviam chegado à idade adulta. Dos outros, ainda se lembrava do peso nos braços, da febre e do esforço inútil para alimentar bocas que já não conseguiam engolir.
— Eu sei.
— Seus irmãos morreram.
— Também sei.
— Sua mãe morreu.
A mandíbula se contraiu.
— Eu estava lá.
— Seu marido morreu.
Isabella inclinou a cabeça.
— Gracias a Dios.
Houve um movimento profundo nas paredes, algo que poderia ter sido riso se o Oblívio fosse capaz de rir.
— ¿Eso te hizo gracia? — perguntou ela, com um pequeno sorriso. — Pelo menos estamos aprendendo juntos.
Então veio a voz que temia desde o início.
— Mi amor.
Os dedos se apertaram ao redor do braço da cadeira.
A rouquidão discreta estava certa. A cadência também. Até o modo de alongar aquelas duas palavras imitava Carmen Francisca del Coracion quando queria alguma coisa.
— Isa... mírame.
— Não use a voz dela.
— Mírame, corazón.
A escuridão diante da cadeira começou a ganhar volume. Uma mão feminina surgiu primeiro, depois o braço, os ombros e o contorno de um corpo que Isabella conhecera de maneiras que nenhuma memória deveria sobreviver por tantos séculos. O rosto veio por último.
Carmen.
Isabella permaneceu sentada.
— Você sente falta de mim.
— Todos os dias.
A resposta saiu sem hesitação e a figura estendeu a mão.
— Então venha comigo.
Isabella olhou para os dedos oferecidos.
— Não.
— ¿Por qué no?
— Porque você não é ela.
— Você não sabe onde ela está.
— E você sabe?
A figura sorriu.
— Talvez.
Isabella soltou uma risada baixa.
— Ah, cabrón. Essa foi boa.
Carmen manteve a mão estendida.
— Ela pode estar comigo.
— Pode.
— Então venha descobrir.
— Não.
— Você atravessou continentes por ela. Matou por ela. Desafiou sua Seita.
Isabella se levantou.
— Muitas vezes.
— E não atravessaria uma porta?
Ela caminhou até a aparição e parou diante dela. De perto, a reprodução era ainda mais cruel. Pequenas marcas na pele, a curvatura das sobrancelhas, o formato das mãos. Tocou seu queixo e aproximou o rosto.
— Carmen nunca me pediria para desistir.
A figura permaneceu imóvel enquanto Isabella estudava seus olhos.
— E você errou a cor dos olhos.
Carmen desapareceu.
A Torre gemeu, e a mudança de humor foi imediata. As sombras começaram a escorrer pelas paredes e a se acumular no chão, ganhando movimento ao redor de seus sapatos. Isabella firmou os pés.
— Ah, não. Agora ficou ofendido?
A massa avançou.
— Qué sensible.
Uma veia escura surgiu sob a pele de seu pulso, e outra subiu pelo antebraço. A dor alcançou seus ossos, arrancando dela qualquer vontade de continuar brincando. Estendeu a mão.
— Basta.
O avanço diminuiu, mas não parou.
— Eu disse BASTA.
A escuridão empurrou.
Isabella puxou.
Pensar naquilo como uma batalha seria um erro. Batalhas terminavam; tinham vencedores, cadáveres e algum momento em que alguém podia baixar a arma. Aquilo era contenção. Sob seus pés, uma presença sem dimensão definida procurava caminhos para fora, alcançando as fundações da Torre e tateando o Rio. Túneis, galerias pluviais, apartamentos fechados, becos, interiores de carros, quartos sem janelas. Cada ausência de luz oferecia por um instante a promessa de uma passagem.
Isabella cerrou os dentes.
— Aquí no.
Puxou novamente.
Sangue negro escorreu de seu nariz.
— Séculos — disseram centenas de vozes. — Séculos segurando uma porta para criaturas que não sabem que você existe.
— Melhor assim.
— Elas teriam medo de você.
— Espero que sim.
— Os seus têm medo de você.
Ela pensou nos quatro Lasombra abaixo.
— Eles têm juízo.
A pressão cresceu.
— A Camarilla usou você. Montano usou você. Sua criadora usou você. O Justicar usou você. Seu Príncipe usa você. Todos colocam suas guerras sobre seus ombros e dão outro nome ao SEU PESO.
Isabella limpou o sangue que alcançara seus lábios.
— Claro que usam. Todos usam todos, mi querido. Favores, dívidas, lealdade, medo, amor, sexo, sangue, poder. Às vezes até carinho. É assim que pessoas funcionam.
A escuridão se comprimiu ao redor dela.
— Você acha isso feio porque não entende troca. Não entende dever. Não entende por que alguém aceita carregar um peso quando poderia largá-lo. Você só sabe comer.
Deu um passo adiante, os dentes manchados de sangue.
— E ainda quer me ensinar sobre o mundo?
O negro explodiu ao redor dela.
A Torre desapareceu.
Por um instante, Isabella viu o Rio como seria se simplesmente soltasse as rédeas. A noite caiu sobre a cidade em pleno dia, não por nuvens ou eclipse, mas porque a luz deixou de existir. A Lagoa Rodrigo de Freitas tornou-se uma abertura negra no centro do Rio e os prédios ao redor começaram a desaparecer andar por andar, sem desabar. Túneis se encheram de criaturas que possuíam dentes demais para qualquer anatomia possível. Pessoas correram pelas avenidas enquanto suas sombras se desprendiam dos pés e as arrastavam para superfícies que jamais deveriam possuir profundidade.
Copacabana desapareceu primeiro, seguida por Ipanema, Leblon, Botafogo e o Centro. Os gritos duraram pouco porque o som foi uma das primeiras coisas consumidas. Depois não havia prédios, porque ruínas ainda seriam alguma coisa; não havia corpos, porque corpos ainda ocupariam espaço; nem silêncio permanecia, pois silêncio continuaria sendo uma condição existente.
Restou ausência.
Isabella permaneceu no centro dela e não sentiu nada.
Nenhuma fome. Nenhuma culpa. Nenhuma criança morta em seus braços. Nenhuma mãe rezando diante de uma panela vazia. Nenhum México, nenhuma Espanha, nenhuma Camarilla ou Sabá. Nenhuma guerra.
Nenhuma Carmen.
Nenhuma saudade.
Isabella percebeu que estava sorrindo, e aquilo a assustou mais do que qualquer criatura que encontrara no Abismo. Depois de séculos carregando seus mortos, o Oblívio lhe oferecia algo que Deus, a Vitae e todos os poderes que conhecera jamais haviam conseguido oferecer. Ela não precisava perdoá-los, esquecê-los ou aprender a viver com a ausência. Bastava deixar de existir qualquer coisa capaz de ser lembrada.
— Ya está, mi amor — disse Carmen atrás dela. — Suéltalo.
Isabella não se virou.
— Estás cansada.
Os olhos se fecharam.
— Sí.
— Entonces ven conmigo.
Dessa vez ela virou.
Carmen estava perfeita.
Os olhos estavam certos.
Isabella sentiu medo.
A coisa aprendera.
Aproximou-se e tocou seu rosto. Havia calor na pele e uma pulsação discreta sob o pescoço. Até o cheiro estava próximo, imperfeito apenas o bastante para ferir. Seu polegar passou pelos lábios da aparição.
— Mi Carmen...
A figura sorriu.
Por um momento terrível, Isabella quis acreditar.
Então puxou delicadamente o lábio superior.
Parou.
— Ay, cariño...
O sorriso dela voltou.
— Quase.
O incisivo era perfeito. Carmen tivera um pequeno desalinhamento que se recusara a corrigir mesmo depois do Abraço.
— El diente.
A figura não respondeu.
— El maldito diente.
Isabella enterrou os dedos no rosto da coisa.
A visão se rompeu, e ela caiu de joelhos no salão da Torre com sangue escorrendo do nariz, da boca e dos ouvidos. As unhas rasparam o piso negro enquanto procurava apoio. À sua frente, a abertura estava grande demais.
— Hijo de puta...
Começou a fechá-la.
Não houve gesto grandioso. Centímetro por centímetro, Isabella obrigou aquilo a recuar. Cada redução da fenda parecia puxar alguma coisa de dentro de seu corpo, fazendo a mão direita tremer e sua visão falhar duas vezes. Ainda assim, continuou até que a abertura retornasse ao limite que considerava tolerável.
Permaneceu ajoelhada quando a voz voltou de muito longe.
— Uma noite você estará cansada demais.
Isabella limpou a boca com as costas da mão.
— Provavelmente.
— Uma noite Carmen terá o dente torto.
Sua mão parou.
Dessa vez não houve resposta mordaz. Isabella levantou os olhos para a escuridão.
— No te atrevas.
O Oblívio permaneceu quieto. E isso foi pior.
Um clique veio da passagem e Isabella virou a cabeça no mesmo instante. A porta começava a se abrir, lenta demais para que ela pudesse impedir completamente o movimento.
— Não. Hazyel, não entre.
Tarde demais.
O mais jovem dos cinco Lasombra surgiu no salão e interrompeu o passo ao encontrá-la ajoelhada, coberta pelo próprio sangue, com uma das mãos ainda apoiada no piso negro. A surpresa em seu rosto durou pouco, porque Isabella percebeu antes dele a mudança no ambiente. Toda a atenção do Oblívio, até então concentrada sobre ela, desviou-se para a nova presença com uma rapidez que nada tinha de emocional. Ele era algo menor, mais jovem e muito mais fácil de alcançar.
— ¡Atrás!
Hazyel recuou, mas a sombra já avançava.
Isabella se colocou entre os dois antes que ele pudesse compreender o que estava acontecendo. Sua própria escuridão ergueu-se do chão e colidiu com a massa que vinha do Abismo, revelando por frações de segundo formas que o olhar não conseguia organizar: braços compridos demais, dedos que se dividiam em outros dedos, bocas abrindo-se dentro de bocas, anatomias montadas a partir de uma lembrança defeituosa do corpo humano. A dor atravessou seu corpo de uma só vez e fez seu rosto se contrair.
— Isabella—
— ¡Muévete, carajo! Para trás. Agora.
— Eu posso ajudar.
Ela virou o rosto o suficiente para olhar para ele.
— Hazyel.
Foi só o nome, ele recuou.
Isabella manteve a coisa contida enquanto avançava até o jovem. As sombras se enrolaram em seus braços e abriram cortes onde não havia lâminas, rasgando a pele enquanto tentavam alcançar o espaço atrás dela. Assim que Hazyel ficou ao alcance de sua mão, ela agarrou sua camisa e praticamente o lançou para fora da passagem. A escuridão tentou acompanhá-lo, comprimindo-se entre ela e a porta, mas Isabella se colocou no caminho e forçou o fechamento.
A passagem selou-se.
O primeiro impacto fez o corredor estremecer. O segundo veio mais forte, vibrando pelas paredes, e um terceiro percorreu a superfície negra como se alguma coisa muito grande tivesse lançado o próprio peso contra o outro lado. Isabella permaneceu imóvel diante dela, com uma das mãos estendida e sangue escorrendo pelas pontas dos dedos, até que o silêncio retornou.
Só então se virou.
Hazyel estava alguns passos atrás, ainda tentando recuperar a compostura. Havia medo em seu rosto, embora se esforçasse para escondê-lo.
— Primigênie...
— Nunca mais faça isso.
A voz dela saiu baixa, mas de um certo modo tranquila. Hazyel começou a explicar que sentira alguma coisa e acreditara que poderia ajudar, mas Isabella o interrompeu antes que terminasse.
— Eu sei, mi hijo, mas você ainda não está pronto para ir sozinho.
Ele fechou a boca.
A irritação dela ainda estava presente quando se aproximou, mas perdeu espaço assim que percebeu o estado do jovem. Segurou seu queixo e virou o rosto primeiro para um lado, depois para o outro, examinando olhos, pescoço e pele em busca de qualquer sinal que não deveria estar ali.
— Está ferido?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela continuou examinando seus olhos.
— Ouviu alguma voz? Alguma memória que não era sua? Sentiu vontade de voltar?
— Não.
Hazyel hesitou um pouco demais na última resposta.
Os dedos dela apertaram seu queixo.
— Responde direito.
— Não.
Isabella o soltou.
— Bien.
O jovem baixou os olhos para o sangue nos braços dela.
— E você?
Ela acompanhou o olhar e observou os próprios cortes.
— Eu já estava feia antes.
Hazyel pareceu não saber se podia rir.
Isabella percebeu.
— Pode rir, niño. Ainda não proibi.
Um sorriso nervoso apareceu.
— Achei que você fosse me matar.
— Considerei.
Ele ficou olhando para ela por alguns segundos.
— Isso era uma piada?
— Vamos fingir que sim.
Começaram a subir.
Hazyel ainda olhou uma vez para trás, na direção da passagem fechada.
— Eu realmente não sabia que havia algo daquele tamanho lá dentro.
Isabella parou e virou-se para ele.
— Você ainda não viu o tamanho.
O sorriso desapareceu do rosto do jovem.
Ela voltou a caminhar, ainda limpando o sangue dos dedos na lateral do casaco, sem grande sucesso.
— Vocês quatro precisam entender que essa Torre não é só uma fortaleza.
Hazyel franziu o cenho.
— Não é?
— Até é. Em parte. — Isabella lançou um olhar breve para ele antes de continuar pelo corredor. — E como símbolo do nosso Clã, a ideia de Emílio foi certeira. Um monólito Lasombra no meio do Rio, visível o bastante para ser lembrado e discreto o suficiente para ninguém perguntar o que realmente existe aqui dentro.
Ele acompanhou seus passos por alguns metros antes de perguntar:
— Mas não foi pra isso que você fez esses andares.
Isabella demorou um pouco para responder.
— Não.
A palavra saiu mais pesada do que todo o resto.
— As coisas mudaram depois da morte final de Emílio. Ou, mais exatamente, depois que eu o trouxe de volta.
Hazyel virou o rosto para ela.
— Mudaram como?
Isabella diminuiu o passo. Atrás deles, alguma coisa arranhou a superfície negra da passagem, devagar, percorrendo o outro lado como uma unha procurando uma fissura.
Os dois olharam para trás.
— Você acha que não devia ter trazido ele de volta? — perguntou Hazyel.
Ela balançou a cabeça.
— Não é isso.
O arranhão continuou por alguns segundos.
— Eu faria de novo.
A resposta veio sem hesitação.
Só então voltou a olhar para ele.
— O problema é que foi fácil demais.
Hazyel permaneceu em silêncio.
Isabella limpou o polegar ensanguentado contra o indicador.
— Trazer alguém de volta de uma morte final não deveria ser fácil, Hazyel. Não importa o quanto você conheça o Oblívio, quantos séculos tenha passado estudando suas manifestações ou até onde esteja disposto a ir. Existe uma diferença entre tocar o outro lado e encontrar nele uma porta já aberta.
O rosto do mais jovem perdeu parte da curiosidade.
— E foi isso que aconteceu com Emílio?
— Foi pior.
O arranhão cessou.
Isabella continuou:
— Eu procurei uma fresta e encontrei uma passagem. Chamei, e alguma coisa respondeu rápido demais. Emílio voltou, mas o fato de eu ter conseguido trazê-lo com a facilidade que consegui me diz muito mais sobre o estado desta cidade do que sobre qualquer habilidade minha.
Hazyel voltou os olhos para a porta.
— Então o Oblívio está mais próximo daqui.
— Próximo é uma palavra gentil.
Ela retomou a caminhada.
— A Lagoa, os pontos de manifestação, esta Torre, o que aconteceu com Emílio... tudo aponta para a mesma coisa. O limite está ficando fino demais em alguns lugares do Rio. Talvez já estivesse quando chegamos. Talvez tenhamos piorado. Ainda não sei.
Hazyel caminhou ao lado dela, agora bem mais atento.
— E esses andares servem para conter isso?
Isabella assentiu.
— Para observar, canalizar, limitar quando possível. E para me dar um lugar onde eu possa tocar o problema antes que ele resolva tocar o resto da cidade.
Ele levou alguns segundos para responder.
— Então a Torre não protege a gente.
Isabella olhou para ele.
— Protege também. Mas esse nunca foi o ponto principal.
Mais atrás, alguma coisa bateu uma única vez contra a passagem.
Ela não virou.
— Nós somos a fechadura, Hazyel.
Dessa vez sua voz saiu mais baixa.
— E eu sou a idiota que ficou com a chave.
Ele não respondeu.
Os dois continuaram subindo em silêncio.
Quando retornou à cobertura, Isabella caminhou diretamente até as janelas. O Rio continuava ali, inteiro demais para uma cidade que estivera tão perto de desaparecer sem sequer perceber. Carros cruzavam avenidas, aviões piscavam no céu, pessoas bebiam em bares, discutiam dentro de apartamentos, faziam amor, rezavam, dormiam, choravam e desperdiçavam noites inteiras com problemas que lhes pareciam enormes. Em algum hospital uma criança acabava de nascer; em outro lugar, alguém segurava uma mão enquanto um coração parava.
Nenhum deles sabia o que existia sob a Torre. Nenhum saberia o quanto estivera perto de desaparecer e Isabella preferia assim.
Encostou os dedos no vidro e ficou observando o reflexo da cidade misturado ao próprio rosto. Por alguns instantes, nada aconteceu. Então percebeu que havia outra figura atrás dela.
Carmen.
Isabella não se virou.
Continuou olhando apenas pelo reflexo.
O sorriso estava certo. Os olhos também.
A aparição inclinou a cabeça do mesmo jeito que Carmen fazia quando sabia que estava prestes a vencer uma discussão. Depois sorriu um pouco mais.
Isabella viu o dente.
Torto.
Seu corpo inteiro enrijeceu.
— No...
A imagem desapareceu.
Ela continuou diante do vidro, os olhos presos ao ponto em que o reflexo havia estado.
— No, no, no...
Virou-se e o escritório estava vazio.
Nada atrás dela, nada junto à porta, nada além dos móveis no mesmo lugar de sempre e do silêncio da cobertura. Quando tornou a olhar para o vidro, havia apenas sua própria imagem e as luzes da cidade.
A mão permaneceu apoiada na janela.
Lá embaixo, a Lagoa Rodrigo de Freitas ondulou apesar da ausência de vento. Uma mancha atravessou a superfície e desapareceu sob os reflexos luminosos.
Ela compreendeu que não vencera naquela noite. Nunca vencia.
Talvez esse tivesse sido um dos erros mais confortáveis que cometera durante séculos: chamar aquilo de guerra. Guerras podiam terminar. Tinham campanhas, derrotas, vitórias, tratados, inimigos que morriam ou mudavam de lado. O Oblívio não precisava de nada disso. Não tinha qualquer necessidade de derrotá-la naquela noite, no mês seguinte ou dentro de cem anos. Não envelhecia, não precisava dormir, não enterrava filhos nem acordava pensando numa mulher morta havia séculos.
Podia experimentar uma voz hoje.
Um rosto amanhã.
Uma memória daqui a cinquenta anos.
Podia aprender os olhos de Carmen, depois seu sorriso, depois o dente.
Isabella precisava reconhecer a mentira todas as vezes.
Ele precisava acertar apenas uma.
A superfície da Lagoa tornou a se mover.
— Desgraçado — murmurou ela.
Uma parte sua queria descer novamente, ferir aquilo, desafiar, arrancar alguma espécie de resposta de uma entidade que provavelmente nem compreendia o conceito de provocação. Outra parte sabia que esse impulso era apenas vaidade, e vaidade era exatamente o tipo de coisa que o Oblívio tinha tempo suficiente para explorar.
Por isso permaneceu diante da cidade.
Estava cansada.
Muito.
Admitir aquilo não fez a Torre desabar.
Não a tornou menos perigosa, menos capaz ou menos responsável pelo que existia sob seus pés. Apenas tornou evidente uma verdade que tentara adiar por séculos.
Então veio outro arranhão, muitos andares abaixo.
Isabella fechou os olhos.
— Mañana.
O ruído continuou.
Ela abriu os olhos e fitou as luzes do Rio.
— Dije mañana.
Dessa vez o arranhão cessou.
Isabella permaneceu diante da janela, recuperando aos poucos a postura habitual, embora ainda houvesse sangue seco em seu rosto e suas mãos continuassem tremendo. O Rio podia continuar ignorando a Torre de Ébano. Podia continuar amando, brigando, nascendo, morrendo e desperdiçando seu precioso tempo sem saber o que respirava sob seus pés.
Ela sustentaria a porta.
Amanhã faria o mesmo.
E, quando o Oblívio voltasse a falar com a voz de Carmen, Isabella esperava ainda ser capaz de encontrar alguma coisa errada.



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