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Crônica O Rio que Corre

Por João do Rio, espectro e cronista


O Rio de Janeiro nunca dorme.


Mas há noites em que ele desperta mais do que o costume, como se lembrasse que é feito de carne, pecado e mistério.


Eu, João, cronista e agora fantasma, atravesso a mortalha quando a cidade me chama. E, naquela noite, o chamado veio do Parque Lage, onde o rumor do vento trazia o cheiro de gasolina, perfume e sangue.


Talita caminhava entre as sombras com elegância das mulheres que sabem exatamente quem são e o poder que têm. O celular vibrava com mensagens ameaçadoras. A autora? Uma tal de Monica. Um nome sem rosto, até então.


— Mais uma mensagem, dona Talita — disse Cláudio, o fiel assistente, com o telefone nas mãos. — Devo continuar ignorando?


Ela sorriu, fria, quase divertida.


— Quem é Monica? Eu não conheço. Você não conhece. Não é ninguém importante.

Ah, mas o Rio tem talento para transformar o ninguém em tragédia.


Monica vinha seguindo Talita havia semanas, espreitando encontros, passos e gestos. E Sansão, o vampiro que fazia corações mortos baterem só para sofrer. Aquela noite seria o desfecho.


O ronco da moto rompeu o silêncio do parque. Ela surgiu diante de nós, olhos fixos em Sansão, e o que vi naquele instante me gelou até os ossos que já não tenho: medo.


Medo nos olhos de um vampiro.


Todo o deboche, toda a arrogância evaporaram. Ele recuou, humano por um instante.


Só um instante.


— Então é você... — murmurou Sansão.


— Sou eu — respondeu Monica, firme, a voz carregada de obsessão. — E estou aqui por você.


O olhar dela deslizou até Talita.


— Se você acha que pode tirar o Sansão de mim, está enganada. Faremos isso do meu jeito: uma corrida. Se perder, Talita, sai do Rio. Volta para o buraco de onde veio. — Sorriu, o sorriso das mulheres que acreditam no destino. — E ele será meu.


Talita ergueu o queixo, serena.


— Então seja como você quer. Mas, se eu vencer, Monica, você sai da vida dele. Para sempre.


O pacto foi selado sob a supervisão de uma harpia. Cada palavra registrada, cada promessa gravada.


Nenhuma mentira sobreviveria àquela noite.


A rota: Usina, Alto da Boa Vista, descida até a Barra da Tijuca.


Monica sobre a moto. Cláudio no carro de Talita. Arthur de copiloto.


E o Rio inteiro, desperto, assistindo, cúmplice como só a cidade sabe ser.


O motor rugiu.


A corrida começou.


O carro obedecia às mãos de Cláudio como se fosse parte dele.


Arthur gritava instruções:


— Curva à direita! Segura a linha!


Monica avançava na moto, inclinando-se como quem desafia a própria morte. O ronco da máquina se misturava ao vento. Havia óleo espalhado, fios pendurados, cones tombados — armadilhas improvisadas para transformar a corrida num espetáculo de sobrevivência.


Ela ria.


E cada riso era uma provocação.


— Cláudio, freie! Ela vai nos bloquear! — gritou Arthur.


— Estou no limite! — respondeu ele, desviando por milésimos.


O Alto da Boa Vista os engoliu. O carro roçava os paralelepípedos antigos; as luzes da mata oscilavam como olhos atentos.


Monica seguia, ágil, cruel, uma sombra sobre rodas.


— Ela está tentando nos empurrar! — Arthur berrou.


— Segura firme! — disse Cláudio, o olhar ardendo.


Na descida para a Barra, o mundo virou velocidade. O vento cortava a pele; o asfalto vibrava sob o peso do destino. Monica tentava desestabilizá-los. Mas Cláudio era preciso, Arthur um navegador nato e Talita — ah, Talita — mantinha o olhar fixo em Sansão, o prêmio e o veneno.


As ruas se tornaram uma arquibancada viva. O povo do Rio, mesmo sem saber, sentia que algo acontecia naquela madrugada.


Dois destinos cruzados. Uma cidade em suspense.


Alguns admiravam Talita Dunsirn; outros temiam Monica. Mas todos sabiam que, no centro daquilo, estava Sansão — a Caixa de Pandora do Rio de Janeiro.


A moto e o carro disputavam cada centímetro.


Pneus gritavam. Freios choravam.


Num último golpe, Monica encostou na lateral do carro.


Cláudio reagiu por instinto.


E foi o suficiente.


A reta final da Barra abriu-se como um corredor de fogo.


Cláudio acelerou. Arthur manteve o foco. Talita não piscou.


A moto tentou acompanhar, mas a sincronia da equipe venceu o caos.


Cláudio cruzou a linha primeiro.


Talita venceu.


Sansão correu até ela, o alívio estampado no rosto.


Mas Monica, ferida no orgulho, não recuou. Num impulso desesperado, lançou-se contra ele.


O caos só foi interrompido pela voz de Paulo, o psicólogo atento, que observava tudo das sombras.


— Parem! — gritou. — Ela atentou contra a vida de um Membro e quebrou a palavra! A Camarilla não tolera isso!


O silêncio caiu como sentença.


Monica parou.


Estava exposta.


A palavra quebrada. O nome arruinado.


Para um vampiro, não há vergonha maior.


Foi levada dali, humilhada, e o Rio voltou à monotonia.


Talita, vitoriosa, segurou Sansão pela coleira. Não havia mais deboche nem medo.


Apenas a certeza.


Ele era dela.


— Eu nunca deixarei que ela se aproxime de você — sussurrou. — Eu sempre irei te proteger.


Sansão apenas assentiu, um sorriso discreto desenhando-lhe os lábios .


E eu, João, cronista das almas e dos vícios da cidade, fiquei ali, observando o sangue metafórico que escorria pelo asfalto.


O Rio de Janeiro, mais uma vez, tinha provado que o amor e a perdição correm lado a lado.


E que, mesmo na morte, ainda há quem atrave

sse o véu só para ver o Rio que corre.

 
 
 

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