Crônica O Rio que Corre
- Michelle Vasconcellos

- 23 de jul.
- 4 min de leitura
Por João do Rio, espectro e cronista

O Rio de Janeiro nunca dorme.
Mas há noites em que ele desperta mais do que o costume, como se lembrasse que é feito de carne, pecado e mistério.
Eu, João, cronista e agora fantasma, atravesso a mortalha quando a cidade me chama. E, naquela noite, o chamado veio do Parque Lage, onde o rumor do vento trazia o cheiro de gasolina, perfume e sangue.
Talita caminhava entre as sombras com elegância das mulheres que sabem exatamente quem são e o poder que têm. O celular vibrava com mensagens ameaçadoras. A autora? Uma tal de Monica. Um nome sem rosto, até então.
— Mais uma mensagem, dona Talita — disse Cláudio, o fiel assistente, com o telefone nas mãos. — Devo continuar ignorando?
Ela sorriu, fria, quase divertida.
— Quem é Monica? Eu não conheço. Você não conhece. Não é ninguém importante.
Ah, mas o Rio tem talento para transformar o ninguém em tragédia.
Monica vinha seguindo Talita havia semanas, espreitando encontros, passos e gestos. E Sansão, o vampiro que fazia corações mortos baterem só para sofrer. Aquela noite seria o desfecho.
O ronco da moto rompeu o silêncio do parque. Ela surgiu diante de nós, olhos fixos em Sansão, e o que vi naquele instante me gelou até os ossos que já não tenho: medo.
Medo nos olhos de um vampiro.
Todo o deboche, toda a arrogância evaporaram. Ele recuou, humano por um instante.
Só um instante.
— Então é você... — murmurou Sansão.
— Sou eu — respondeu Monica, firme, a voz carregada de obsessão. — E estou aqui por você.
O olhar dela deslizou até Talita.
— Se você acha que pode tirar o Sansão de mim, está enganada. Faremos isso do meu jeito: uma corrida. Se perder, Talita, sai do Rio. Volta para o buraco de onde veio. — Sorriu, o sorriso das mulheres que acreditam no destino. — E ele será meu.
Talita ergueu o queixo, serena.
— Então seja como você quer. Mas, se eu vencer, Monica, você sai da vida dele. Para sempre.
O pacto foi selado sob a supervisão de uma harpia. Cada palavra registrada, cada promessa gravada.
Nenhuma mentira sobreviveria àquela noite.
A rota: Usina, Alto da Boa Vista, descida até a Barra da Tijuca.
Monica sobre a moto. Cláudio no carro de Talita. Arthur de copiloto.
E o Rio inteiro, desperto, assistindo, cúmplice como só a cidade sabe ser.
O motor rugiu.
A corrida começou.
O carro obedecia às mãos de Cláudio como se fosse parte dele.
Arthur gritava instruções:
— Curva à direita! Segura a linha!
Monica avançava na moto, inclinando-se como quem desafia a própria morte. O ronco da máquina se misturava ao vento. Havia óleo espalhado, fios pendurados, cones tombados — armadilhas improvisadas para transformar a corrida num espetáculo de sobrevivência.
Ela ria.
E cada riso era uma provocação.
— Cláudio, freie! Ela vai nos bloquear! — gritou Arthur.
— Estou no limite! — respondeu ele, desviando por milésimos.
O Alto da Boa Vista os engoliu. O carro roçava os paralelepípedos antigos; as luzes da mata oscilavam como olhos atentos.
Monica seguia, ágil, cruel, uma sombra sobre rodas.
— Ela está tentando nos empurrar! — Arthur berrou.
— Segura firme! — disse Cláudio, o olhar ardendo.
Na descida para a Barra, o mundo virou velocidade. O vento cortava a pele; o asfalto vibrava sob o peso do destino. Monica tentava desestabilizá-los. Mas Cláudio era preciso, Arthur um navegador nato e Talita — ah, Talita — mantinha o olhar fixo em Sansão, o prêmio e o veneno.
As ruas se tornaram uma arquibancada viva. O povo do Rio, mesmo sem saber, sentia que algo acontecia naquela madrugada.
Dois destinos cruzados. Uma cidade em suspense.
Alguns admiravam Talita Dunsirn; outros temiam Monica. Mas todos sabiam que, no centro daquilo, estava Sansão — a Caixa de Pandora do Rio de Janeiro.
A moto e o carro disputavam cada centímetro.
Pneus gritavam. Freios choravam.
Num último golpe, Monica encostou na lateral do carro.
Cláudio reagiu por instinto.
E foi o suficiente.
A reta final da Barra abriu-se como um corredor de fogo.
Cláudio acelerou. Arthur manteve o foco. Talita não piscou.
A moto tentou acompanhar, mas a sincronia da equipe venceu o caos.
Cláudio cruzou a linha primeiro.
Talita venceu.
Sansão correu até ela, o alívio estampado no rosto.
Mas Monica, ferida no orgulho, não recuou. Num impulso desesperado, lançou-se contra ele.
O caos só foi interrompido pela voz de Paulo, o psicólogo atento, que observava tudo das sombras.
— Parem! — gritou. — Ela atentou contra a vida de um Membro e quebrou a palavra! A Camarilla não tolera isso!
O silêncio caiu como sentença.
Monica parou.
Estava exposta.
A palavra quebrada. O nome arruinado.
Para um vampiro, não há vergonha maior.
Foi levada dali, humilhada, e o Rio voltou à monotonia.
Talita, vitoriosa, segurou Sansão pela coleira. Não havia mais deboche nem medo.
Apenas a certeza.
Ele era dela.
— Eu nunca deixarei que ela se aproxime de você — sussurrou. — Eu sempre irei te proteger.
Sansão apenas assentiu, um sorriso discreto desenhando-lhe os lábios .
E eu, João, cronista das almas e dos vícios da cidade, fiquei ali, observando o sangue metafórico que escorria pelo asfalto.
O Rio de Janeiro, mais uma vez, tinha provado que o amor e a perdição correm lado a lado.
E que, mesmo na morte, ainda há quem atrave
sse o véu só para ver o Rio que corre.



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