top of page

Sob a Lua Crescente

26 de set.
21 min de leitura

A lua e as estrelas tomaram conta do céu cedo naquela noite. Apesar do comum frio do final de setembro, aquele dia foi agraciado por um calor inesperado pelos habitantes do Rio de Janeiro, e em uma casa escondida em Cosme Velho, as coisas pareciam estar mais quentes do que o normal


O coração de Verônica não batia como batia naquela noite fazia décadas. Sair com outras pessoas sempre foi algo fácil antes de sua não-vida, mas com tantos anos de dates vampirescos fracassados e amantes que sumiram após a segunda noite, a ansiedade corria por todo o seu vitae. Olhando para o espelho e enrolada em uma toalha, a Gangrel se esforçava para se acalmar. Já teria vomitado se tivesse algo no seu estômago, já teria chorado se tivesse água em seu corpo, e agora, tremia como nunca havia tremido desde que havia morrido.


“Para com essa porra, você SABE o que fazer!” falava para si mesma, “Ele pode ser riquinho, meio tímido, sobrinho de alguém poderoso e um gatinho, mas é só mais um date, você já passou por isso!”


Ter falado isso só a deixou ainda mais nervosa, precisou refazer o seu delineado três vezes por causa de sua mão tremida. Passou pelos seus melhores vestidos, casacos e blazers, mas sua jaqueta e o cheiro dela foram tão elogiados pelas mensagens de seu date que ela resolveu repetir o look daquela noite no Pentágono, mas é claro, um tanto mais arrumada do que o normal. Quando saía pelo portão de sua casa, em meio às plantas de seu quintal e o silêncio daquela rua iluminada em amarelo, seu corpo travou. Pensou em fugir, pensou em arrumar a desculpa de que sua primigênie havia lhe dado uma tarefa de última hora, pensou em sumir e nunca mais aparecer na cidade, pensou em simplesmente não existir. Mas algo dentro dela, talvez o seu último pingo de coragem ou o seu instinto bestial, a fez abrir aquele portão e subir em sua Harley-Davidson. Agora, não havia mais volta, deveria encarar aquela noite sem nenhuma desculpa esfarrapada.


O caminho para o Leme naquela noite parecia bem mais longo do que o normal. Cada curva deixava sua cabeça tonta, cada avenida trazia uma nova insegurança na sua cabeça: E se ele me achar muito bruta? E se eu assustar ele? E se ele ficar muito desconfortável comigo? Verônica nunca questionou uma ordem de caçar alguém, nunca havia hesitado em arrancar a traqueia de um inimigo ou em partir o tronco de um agente do BOES em dois, mas o mínimo pensamento de que poderia deixar uma pessoa tão linda e gentil incomodada a fazia quase perder o controle.


Após cerca de meia hora, chegou na frente daquele prédio chique no Leme, guardado por guardas discretos e frequentado por pessoas que faziam os Marino parecerem uma família de classe média. Antes que pudesse pegar o celular para mandar uma mensagem para seu amado, viu um jovem de cabelo curto e negro, pele oliva, traços andinos e com olhos escuros como o oceano e que fitavam o chão. Vestia uma camisa branca da Dudalina aberta até o começo do peito, um colar de pérolas e uma calça de sarja preta. Quando levantou o seu olhar para Verônica, encontrou a Gangrel em transe, maravilhada pelo o que via. O jovem andava de maneira suave, como se seguisse uma coreografia até a moto de Verônica, prestando atenção em cada detalhe da vampira caiçara.


- Seus olhos são tão lindos, Javier.- diz Verônica ao Ventrue - Ter a chance de olhar para eles assim já fez a noite valer a pena.


Javier subitamente olhou para o lado, afetado por uma timidez súbita causada pelo elogio de Verônica. Aos poucos, foi recuperando o olhar e começou a virar o rosto para a Gangrel. 


- O-obrigado, Verônica.- diz Javier tentando não gaguejar- Você também está linda hoje, e o seu cheiro hoje está hipnotizante. 


- Ah é? Que tal subir aqui na garupa e sentir ele mais de perto? 


- Bom, n-não precisa nem pedir. Mas para onde vamos? Pentágono de novo? Samba igual aquela Nosferatu disse? 


- Você vai ver. É uma surpresa, e eu tenho certeza que você vai amar. 


Javier subiu na garupa da moto e segurou na cintura de Verônica, agora, um pouco mais próximo da virilha do que da última vez. Verônica partiu com a moto para o norte, subindo para a Princesa Isabel, o Túnel Santa Bárbara e, quando viu os arcos da Lapa, Javier entendeu onde estava. Tomou um leve susto, depois de ouvir tanto o seu tio falar do quão perigoso e “depravado” era aquele bairro. Quando Verônica estacionou a moto e entregou uma nota de 50 para um homem que estava de vigia na rua, Javier se virou para a Gangrel:


- Verônica, aqui é seguro? Me falaram que você não consegue andar aqui sem ser assaltado, que é cheio de drogado, que é um lugar sujo.


Se fosse qualquer outra pessoa no lugar de Javier, Verônica teria subido novamente na moto e largado ela ali. Mas ela sabia que o Ventrue nunca tinha visto a cidade com seus próprios olhos, só pela língua de cobra de seu tio. Sabia que aquele rapaz precisava ver um pouco do mundo como ele era, não só porque precisava viver aquilo, mas porque sabia que iria gostar. 


- Relaxa, meu xuxu. Eu nunca levaria você para um lugar perigoso… bom, exceto o Pentágono. Mas estamos bem aqui, não vou deixar nada acontecer com você, meu lindo. Você precisa ver a cidade com os seus próprios olhos, e é por isso que te trouxe aqui. 


A mão direita de Verônica se estende para Javier, e ela diz: 


- Se importa de me acompanhar nesta noite? 


A mão trêmula de Javier se enroscou na mão de Verônica. Embora tivessem décadas a mais de idade do que aparentavam, se portavam como dois adolescentes que saíam pela primeira vez, um nervosismo no ar e tentando não olhar um para os olhos do outro. Porém, o calor do rubor de sangue de cada um aquecia a mão do outro, e pela primeira vez, sentiam como se o Vitae de cada um abraçasse o do outro. 


Verônica guiou Javier para um imóvel na Rua Riachuelo, próximo ao posto de gasolina. O relógio batia 21:00 e a noite de sábado parecia estar só começando, com uma fila se formando na frente do prédio de dois andares. 


- É uma balada?- perguntou o Ventrue- Ou é algo mais calmo? 


- Calmo, eu tenho certeza que não é, mas acho que você vai gostar. 


- É que eu não gosto muito de dançar assim em público, sabe? Ainda estou usando aquela máscara no Pentágono, e não sei se consigo fazer isso aqui.


A Gangrel se virou para Javier, segurou ambas as suas mão, se aproximando de seu corpo e, olhando no fundo dos seus olhos, disse: 


- Vai ficar tudo bem, tá? Eu também quero que você se divirta. Se você não gostar ou não se sentir confortável, fala comigo que a gente vai embora, okay? A noite tá só começando, e eu amaria passar ela com a sua companhia, meu bem. 


Pela primeira vez desde que se conheceram, Javier e Verônica olhavam um para a alma do outro, como se pudessem sentir o coração um do outro palpitar. Os olhos de Javier, pela primeira vez em décadas, fitavam de verdade os olhos de outra pessoa, encaravam aqueles olhos carmesim de Verônica como alguém que estava hipnotizado. Verônica, por sua parte, sentia sua ansiedade ser substituída por uma alegria repentina, uma tranquilidade que a fazia se sentir nas nuvens, que subia do seu coração para a sua garganta, e que a fazia, por pura memória muscular, respirar fundo ao encarar Javier. 


Quando ambos se aproximavam um pouco mais um do outro, a fila andou. Verônica puxou Javier pela mão e eles seguiram para dentro do prédio. A entrada possuía um hall iluminado por uma luz baixa avermelhada, e seguia para um corredor iluminado por luzes neon carmesim. Quanto mais desciam o corredor, melhor ouviam o som de música e gritos alegres de seu final e, quando chegaram lá, Javier entendeu o que a Gangrel quis dizer com “acho que você vai gostar”: 


Em um amplo salão retangular e iluminado por luzes de diferentes cores, que dançavam com a música pop e eletrônica daquela noite. Crescia uma longa passarela em seu meio, onde uma drag queen vestida como a rainha das trevas Elvira desfilava e realizava o seu show. Não era necessário Presença ou Dominação para maravilhar a todos os presentes, inclusive o casal recém-chegado. Verônica presenciava o Ballroom de Carmem pela segunda vez na vida, tendo nele lutado pela sua própria vida e feito parte de sua defesa contra a Segunda Inquisição. Javier, que não fazia ideia de que naquele lugar havia sido derramado tanto sangue, estava tão maravilhado quanto alguém que havia encontrado o paraíso. Seus olhos brilhavam e só não lacrimejavam pois não conseguia, mas sua alma sentia a alegria de finalmente estar onde sempre quis estar. 


A temática do show, “Horror do Século XX” naturalmente agregou diversos vampiros e

mortais nostálgicos para o salão. Ícones como Freddy Krueger, Ghostface, Vampira, Frankenstein, Monstro do Pântano, Mortícia Adams e até Dracula eram reinterpretados e trazidos à vida de um jeito que apenas os olhos das melhores drags do Rio de Janeiro poderiam fazer. A cada nova performance, uma nova salva de palmas e gritos eram emitidos pela plateia. Na boca da cena da pista de desfile também havia uma pista de dança, onde dezenas dançavam no ritmo das músicas escolhidas pelas rainhas da pista. 


Numa pausa entre a saída de uma drag e a entrada de outra, Javier sentiu alguém abraçá-lo por trás, encostando os seios em suas costas, o queixo em seu ombro e o segurando pela barriga. Levou um leve susto por causa da distração que o ballroom lhe proporcionou, mas se acalmou ao sentir o doce perfume de Verônica. Após alguns segundos, a Gangrel disse, ao pé de seu ouvido: 


- Viu, meu xuxu? Eu disse que você iria amar, só não achei que amaria tanto hihi. 


- Esse lugar é maravilhoso, é literalmente tudo o que sonhei ter. Como, mesmo andando com a Coral, eu nunca soube daqui? 


- É meio escondidinho mesmo, tem que ter uma certa sagacidade pra vir pra cá. Mas quando você vai uma vez, quer sempre voltar. 


- Já veio aqui quantas vezes? 


- Duas só contando com esta, e bom, a outra foi meio selvagem… mas agora, tá bem mais agradável, principalmente pela companhia de um certo gatinho que eu conheci a pouco tempo… 


- E eu só estou amando tanto essa noite por causa de uma gatinha Gangrel que apareceu na minha vida… 


Em uma demonstração de carinho que não era comum para o tímido Javier, o Ventrue beijou a bochecha de Verônica algumas vezes, deixando a Gangrel com um sorriso enorme no rosto e com as bochechas vermelhas como cerejas. Verônica Marino, uma assassina conhecida e temida por uma parte considerável dos kamarillers mais novos do Rio de Janeiro, agora se mostrava uma pessoa mansa, doce e amável perto de Javier, que suspendia sua timidez típica por uma súbita extroversão e conforto, possibilitados pelo lugar e pela sua companhia. Javier se afastou levemente de Verônica e, ao estender a mão para ela, disse:


- Você já me viu dançar bastante no Pentágono, mas eu nunca tive o prazer de te ver fazer o mesmo.- pegou na mão de Verônica, aproximou seu rosto do da Gangrel e continuou- Que tal você me mostrar o que sabe fazer?


O sorriso de Verônica já mostrava as suas presas, e a Gangrel ficou na ponta dos pés ao ouvir esse pedido. Mal conseguiu responder o convite com suas próprias palavras, apenas balançou a cabeça em afirmação e acompanhou Javier até a pista de dança. Mesmo para um observador desinformado de quem eram aqueles membros, era claro que a química entre os dois tomava conta do lugar. Verônica e Javier dançavam enquanto se admiravam, e mal prestavam mais atenção no show de Ballroom. Braços entrelaçaram entre si, desciam até o chão e subiam juntos, se agarravam e seus corpos se juntavam entre si como os corpos de dois amantes. 


Quando a música ficou mais calma, se abraçaram de frente um para o outro. Verônica enrolou os braços ao redor do pescoço de Javier, acariciando sua nuca, e o Ventrue segurou a cintura de Verônica e a aproximou da sua própria. Enquanto dançavam com os seus rostos a milímetros de se encostarem, Javier diz: 


- Eu tava com muito medo de não conseguir vir, sabia? Eu não costumo sair assim, principalmente com outra pessoa… 


- Nossa.- respondeu Verônica- Eu… meio que travei na hora de sair de casa. Eu até costumo sair assim mas, sendo sincera, eu tava com tanto medo de te deixar desconfortável ou arrependido… 


Javier riu com a resposta de Verônica, e retrucou: 


- Me arrepender? Eu só me arrependo de não termos saído juntos mais cedo. E bom, me arrependo também de uma coisinha… 


Verônica se assustou com aquilo, e perguntou com a voz trêmula:


-O que? Eu fiz algo de errado? Eu te deixei descontente? Desculpa, por favor, me… O Ventrue a cortou antes que pudesse continuar seu lamento. 


- Não, não, calma. Eu tô amando a noite de hoje, eu tô amando a sua companhia. Mas, sendo sincero, eu acho que amaria mais se eu pudesse chegar um pouco mais perto de ti… bom, se você não se incomodar, claro… 


Antes mesmo que pudesse pensar, Verônica entrelaçou seus dedos no cabelo de Javier e o puxou para um beijo. Começando tímido e devagar, ele rapidamente evoluiu para algo mais firme, mais rápido e mais voraz, com mãos que dançavam entre ambos os corpos e unhas que arranhavam um ao outro. Mordidas leves, sorrisos momentâneos e carinhos mútuos faziam parte daquela demonstração de carinho tão genuína e tão eufórica. Naquele momento, as inseguranças dos dois, desde a timidez de Javier até os traumas de Verônica, eram aprisionados, contidos por um sentimento de que muitos defendem ser impossível dois vampiros sentirem: o amor, a plena e pura alegria de estar na presença de uma pessoa querida, a tranquilidade e a felicidade de, em uma não-vida tão perigosa, encontrar raros momentos de conforto com o outro. Naquela noite, não existia a Besta, não existia a Anarquia, não existiam os Matusaléns, não existia a Segunda Inquisição, não existia o Sabá, existiam apenas Verônica e Javier. 


A noite seguiu, a premiação final veio e a drag Madame Bathory levou para casa o prêmio com sua montagem de Alien. Por horas, Verônica e Javier acompanharam o show e dançaram como se já fossem namorados, como se um desejo de paixão escondido entre os dois tivesse finalmente encontrado um jeito de sair. Se agarravam, se beijavam, faziam cafuné um no outro, seria difícil para um desconhecido dizer que este era o seu primeiro date. Mesmo com os comuns desentendimentos e a maneira desajeitada de agir com o outro que sempre acode os primeiros encontros, haviam encontrado ali uma conexão incomum, não pelo seu tipo, mas pela sua rapidez. 


Depois de algumas horas, por volta das 1 da manhã, o show se encerrou e os mortais começaram a sair, levando consigo os seus sanguessugas. Já do lado de fora, Javier e Verônica decidiam o que iriam fazer:


- A gente pode ir lá pro meu apartamento.- disse o Ventrue- Pelo menos vai ser um lugar mais tranquilo.


- A noite tá boa demais pra topar com o Lemer, com todo respeito.- respondeu a Gangrel, tirando uma risada de Javier.


- Justo, mas eu não sei se aguento mais uma festa. É muita luz e som pra minha cabeça aguentar, então se for um lugar calmo, eu topo. 


- Olha… eu conheço um lugar bom. É no Alto da Boa Vista, é território da Daniella e filhos, mas o lugar em si não é muito frequentado por eles, e estando comigo, você tá seguro. 


- É bonito? 


- Nunca será tanto quanto ti, mas acho que dá pro gasto.- o elogio de Verônica a rendeu a ela mais um beijo de seu amado, que já mostrava uma extroversão que seria impossível de ver até aquela noite. 


- Bom, vamos então. Tô curioso pra essa nova surpresa. 


- Você não vai se arrepender de esperar… 


Ambos subiram novamente na moto de Verônica, partindo para a Floresta da Tijuca. Normalmente, Javier não se sentiria seguro para frequentar esta parte da cidade, especialmente com o territorialismo típico dos Gangrel. Mas eles confiavam em Verônica, ou pelo menos, confiavam o suficiente para deixar ela escoltar aquele membro por partes não tão críticas do território. Desceram até Cosme Velho, subiram para o Alto por um caminho não-convencional para fugir de territórios hostis. Quando chegaram em uma espécie de mirante, Javier se tocou onde estava: A Mesa do Imperador. Já havia ouvido falar sobre o lugar, e visto meia dúzia de fotos. Mas olhar para aquela vista ao vivo, isso era algo que nunca poderia imaginar. Quando desceu da moto, viu um mar de luzes na cidade que contrastavam com um mar de estrelas no céu, que pareciam pérolas em um mar profundo. A lua, em formato crescente, era como um pingente para coroar aquele céu.


Javier sentou na Mesa enquanto admirava aquela paisagem idílica, e Verônica deitou a cabeça no seu colo, enquanto sua mão esquerda começou a acariciar a mão direita de Javier,  recebendo simultâneamente cafunés do Ventrue. Verônica não tinha vivido algo assim desde sua vida passada, e agora, mal podia acreditar no momento que estava vivendo. 


Após alguns minutos admirando a beleza um do outro, Verônica quebrou o silêncio: - O que te fez mudar assim do nada nessa noite? 


- Como? 


- Você tava tão quietinho umas noites atrás, e agora tá tão radiante. Isso não é uma crítica, tá? É maravilhoso te ver assim, mas fiquei um pouquinho curiosa. 


Javier pensou um pouco antes de dar uma resposta concreta, mas, tirando um desabafo do fundo do peito, ele respondeu: 


- Existe esse pensamento de que os Ventrue sonham em ser reis, em dominar e ampliar a sua influência. E isso pode ser verdade para 99% de nós, mas, sendo sincero, não sou assim. Toda essa pressão de seguir com o legado do meu tio, em ser “macho” e exaltar essa dominância, eu sinceramente sempre odiei. 


- O Lemer te enche o saco com isso? 


- A merda do tempo inteiro. Quando eu sugeri faltar um jantar da corte, ele me deixou por três noites sem me alimentar, só para eu não sequer pensar em faltar ao jantar. Quando faltei a uma aula de Política, ele me fez ler O Príncipe de Maquiavel e fazer uma resenha sobre ele em uma só noite, sob ameaças de ser posto em torpor por uma década inteira. Ah, e quando eu entrei em frenesi e furei um quadro dele… bom, ele me fez arrepender disso, e muito… 


Verônica abraçou o torso de Javier enquanto ainda estava deitada, acariciando o seu rosto e colocando o seu próprio encostado na barriga do Ventrue. A ideia de ver uma pessoa que ama sendo destratada assim a encheu de fúria, mas sabia que perder o controle naquela situação só pioraria tudo. Assim, escolheu realizar um carinho e dizer palavras de conforto: 


- Eu sinto muito, meu xuxu.- dizia a voz de Verônica levemente abafada pela barriga de Javier.- Esse velho arrombado só faz isso por ter inveja de ti, por saber que não pode te controlar e por saber que você é uma estrela muito mais radiante do que ele jamais será. 


- Não me importo muito com o que ele acha, o que me importo é de achar conforto nos raros momentos que tenho de paz sob a asa dele, especialmente com uma pessoa tão linda e amável ao meu lado… 


Verônica sorriu e escondeu o seu rosto de vergonha, era curioso como estes elogios eram mais efetivos em derrubá-la do que um punhado de balas. Javier achava isso algo genuinamente fofo, em ver alguém que sentia uma alegria extrema com seus elogios. Porém, sua curiosidade tomou conta, e resolveu fazer uma pergunta para a Gangrel: 


- Você disse que tinha medo de me incomodar, de me decepcionar, mas você não poderia ter sido mais perfeita essa noite. O que te causou tanto medo? Foi algo que eu fiz? 


- Não, não, de forma alguma. Você foi a pessoa mais doce do mundo comigo desde que eu te conheci, o problema… é comigo mesma. 


- Se você não se sentir confortável, não precisa falar, tá bom? 


- Não tem problema algum, e bom, acho que você também merece saber algo sobre mim. 


Verônica ajeitou a cabeça no colo do Ventrue, com seu rosto virado para ele e seu olhar virado para o céu estrelado. Após pensar um pouco, resolveu finalmente desabafar: 


- Você foi criado para ser um rei, eu, por outro lado, fui criada para ser uma algoz. Quando a minha família me adotou após a minha morte, eles viram a minha raiva, a fúria que eu carregava da minha vida passada, e resolveram aproveitar isso. Fui treinada em artes marciais, em armas de fogo, com armas brancas, técnicas de caça, aprimoramento da força física e em rastrear qualquer vampiro ou mortal como se fosse a minha presa. O treinamento deu certo, eu comecei a ser temida por onde fosse, uma fama que nunca desejei, e que me trouxe mais problemas do que benefícios… 


- Como assim? 


- Ninguém quer andar com uma algoz sem ser para matar alguém. Sempre que tentava me enturmar com uma coterrie, eu era barrada pelo “receio” de que eu poderia sair do controle. Quando eu chegava em um lugar, o clima pesava automáticamente. Quando eu chamava alguém para sair, era comum a pessoa entender isso como uma ameaça. Eu virei um bicho-papão, desprovido de bondade e que não merecia amor algum. No Rio, as coisas são mais tranquilas, mas essa infâmia ainda me segue. Eu tinha medo de você se assustar comigo, de que eu fizesse algo que te apavora-se e que você só me larga-se, como aconteceu nas outras vezes… 


Javier inicialmente ficou em silêncio, preferindo uma abordagem física do que dizer palavras imediatas. Ajeitou a cabeça de Verônica e, ao ajeitar seu corpo, deitou ao seu lado, abraçando-a e olhando no fundo dos seus olhos, enquanto acariciava suas bochechas e tinha as suas próprias acariciadas pela Gangrel.


- Bom, independente do que falam, essa não é a Verônica que eu conheço. A Verônica que eu conheço é uma mulher doce, cuidadosa e amorosa, que se importa tanto com aqueles que ela ama que poderia lutar o quanto precisasse para protegê-los. Que sabe como expressar o amor e que fica toda envergonhada quando o recebe de volta, que faz questão de deixar quem ela ama bem e confortável. A Verônica que eu conheço pode até saber trocar alguns socos e tiros quando precisar, mas na verdade, é a pessoa mais doce que eu já conheci na vida, e que se eu pudesse, faria esta noite durar para sempre para poder ficar ao lado dela. 


Os olhos de Verônica começaram a lacrimejar vitae ainda na metade da frase, e ao final dela, ele escorria pelo seu rosto. Segurou forte o corpo de Javier, que se prendia ao seu como um imã, entrelaçando suas pernas e braços, como se quisessem nunca mais sair de perto um do outro. Talvez Verônica nunca tivesse ouvido um elogio tão lindo e genuíno em sua vida, quem dirá em sua não-vida. Talvez Javier nunca tivesse se aberto tanto para alguém assim. Entre tantas dúvidas, os jovens vampiros só possuíam uma certeza: que queriam um ao outro. 


Não esperaram mais uma palavra sequer ser dita, seus lábios se chocaram com a mesma rapidez que o bote de uma onça, suas línguas dançavam com a mesma sincronia que seus corpos haviam dançado mais cedo. Suas mãos arranhavam e exploravam o corpo de cada um, inicialmente, de uma maneira mais tímida que o normal, até eventualmente alguém ir um pouco além. Não sabem quem havia quebrado essa barreira primeiro, só souberam aproveitar esta oportunidade. A boca de Javier desceu para o pescoço de Verônica após morder o lábio da Gangrel, e passou a morder o seu pescoço. Sua clássica jaqueta branca já estava no chão, vestindo apenas uma regata preta de gola alta acima da cintura. O Ventrue não tardou ao descer um pouco mais seu rosto, ocupando ambas as suas mãos com os seios de Verônica por cima da regata, e colocando seu rosto entre eles. 


Verônica fechava os olhos em prazer e prendia Javier entre as suas pernas. Quando olhou para o rosto de seu amado, que só tinha os olhos não colados em seus peitos, viu os olhos de alguém que implorava por uma afirmação, que implorava por um “sim” a tanto tempo sonhado. Para a sua felicidade, Verônica não disse uma palavra sequer, apenas mordeu o lábio e assentiu com a cabeça. 


Javier então ergueu a regata da Gangrel, expondo seus seios à luz do luar e ao seu olhar. As mãos e a boca do Ventrue avançaram sob o seu busto em meio a beijos, mordidas e olhares de desejo. Verônica se contorcia, gemia e agarrava a nuca de Javier, não o deixando se mover para longe de seu peito. Retirou totalmente a regata e a jogou no chão, o vitae em seu corpo corria por todos os seus vasos sanguíneos na velocidade do som. 


Javier subiu sob o corpo de Verônica, beijando o seu rosto enquanto ela tirava sua camisa, o colocando na mesma condição de semi-nudez que ela. A mão de Javier, porém, tinha outros planos. Enquanto as de Verônica arranhavam as costas do Ventrue, a mão direita de Javier passeava pela forma da Gangrel. Passava pelas suas costas, seus seios, sua bunda, barriga, até chegar nas coxas da Verônica. De maneira quase que instintiva, a Gangrel abriu suas pernas, como se estivesse convidando Javier a chegar mais perto, algo que ele não tardou em fazer. 


Após alguns minutos, Verônica retirou a mão de Javier da sua virilha e a colocou logo abaixo de seu umbigo. Os dedos do Ventrue rapidamente invadiram a intimidade de Verônica pela parte de cima de sua calça, encontrando pelos que iam até logo acima da virilha. Fazia anos que Verônica não sentia algo tão prazeroso em um primeiro encontro, e, mesmo com Javier não sendo o mais experiente neste quesito, conseguia deixar Verônica em um estado de transe. Aos poucos, Javier tomou a iniciativa de despir totalmente a Gangrel e a si mesmo, e deixou sua mão descansando enquanto a sua boca assumia a tarefa de dar prazer para a sua amada.


Depois de longos minutos com Javier entre as suas coxas, Verônica aproveitou quando este tirou os lábios de sua intimidade e o puxou para um beijo, o mais doce que já havia recebido. Javier tremia, talvez pelo nervosismo de nunca ter chegado até essa parte tão rápido com alguém ou pelo tesão de ter feito isso com Verônica. A Gangrel, que até então havia deixado Javier no comando das coisas, resolveu assumir para si a condução daquele encontro. Conforme se beijavam, Verônica jogou Javier de costas na mesa onde se deitavam, e subiu em cima do Ventrue. Suas mordidas e seus braços fortes prendiam Javier em uma posição de submissão, não que ele oferecesse muita resistência aos domínios de sua amante. 


Quando menos notou, Verônica enchia seu peitoral de beijos e chupões, saboreando o Ventrue como se fosse um prato em um restaurante de luxo. Em determinado momento, sentiu as prazerosas presas dela penetrarem logo acima de seu coração, e quando olhou em seus olhos, viu dois oceanos cor vermelho-sangue o encarando de volta, cheios de desejo e fome por Javier. Arranhou seu peitoral e seu tanquinho com suas unhas afiadas, e foi mordendo o seu corpo até poder morder a sua virilha e retribuir o prazer que o Ventrue anteriormente havia lhe dado. 


Quanto notou que Javier estava perto de seu ápice, Verônica moveu a sua boca para a de Javier e, após um breve beijo, montou acima de sua virilha, o deixando adentrar em seu corpo. Ambos suspiraram em prazer, e em um movimento repetitivo, Verônica cavalgava em Javier. Seus dedos foram parar na boca do Ventrue, que os mordia e bebia o seu vitae como se fosse o mais saboroso de todos os líquidos. Trocavam elogios, xingamentos, pedidos, e cada palavra parecia aumentar o prazer do casal. Em meio a gemidos, Javier perguntou: 


- Caralho, como que você faz isso tão gostoso? 


- Anos de prática, xuxu. E eu pretendo te deixar tão experiente quanto eu. - Ah é? Primeiro date e já quer virar a minha professora?


- Eu prefiro o termo “dona”. Eu não vou te ensinar, eu vou te adestrar. 


Javier sorriu naquele momento como não havia sorrido durante toda a noite. A Gangrel pegou seu cabelo pela nuca e aproximou seu rosto do de Javier, e intensificou os movimentos conforme ambos intensificaram os gemidos. Em um momento, ambos fecharam os seus olhos, morderam o ombro um do outro e, após o prazer que cada mordida trouxe, finalmente chegaram ao ápice juntos, alongando os seus corpos por alguns segundos e, após o prazer atingir cada centímetro dos dois vampiros, Verônica caiu extasiada em cima de Javier, que também estava com sua mente enevoada de tanto prazer. 


A Mesa do Imperador agora estava tão banhada em sangue que parecia ter presenciado um assassinato. Sangue escorria pelas bocas do casal, pelos arranhões e buracos de mordidas que ambos ostentavam em si. Olhavam para a cidade no horizonte, para a vastidão da noite iluminada pelas estrelas e pela lua, enquanto tentavam recuperar a consciência. Após alguns minutos, Javier perguntou para Verônica: 


- Você já veio aqui com alguém? 


- Como? 


- Esse lugar é perfeito, um dos mais lindos que já vi na vida. Você parecia tão certa de vir pra cá, e bom, como disse que tinha tantos anos de experiência, eu pensei que… 


Verônica cortou a explicação de Javier com uma risada, e respondeu: 


- Não, eu nunca tinha vindo aqui acompanhada. Eu às vezes venho pra cá pra pensar, descansar a cabeça ou ler algo, mas sempre sozinha. Conhecendo seu olhar para coisas lindas, eu achei que você fosse gostar daqui. E bom… acho que eu tava certa. 


- E mesmo me trazendo pra cá, não foi a coisa mais linda que vi essa noite…- o casal sorriu um para o outro, e ambos deram um beijo carinhoso. 


- Você é maravilhoso, sabia? Radiante em tudo que faz. Já falei isso um milhão de vezes, mas é verdade. Achei que nunca iria conhecer uma pessoa tão doce e gentil quanto você, bom, principalmente depois de tudo… 


- Se sou doce assim, é porque me sinto confortável de ser assim com você. Eu geralmente não sou assim, sabe? Você já deve ter notado. Mas, com uma mulher tão carinhosa e amável como ti por perto, eu só sei retribuir o que sinto. 


Verônica sorriu com os olhos fechados e esfregou seu nariz carinhosamente no rosto de Javier. Por um tempo, ficaram lá, agarrados, aproveitando a presença e o calor do outro com um conforto e uma tranquilidade rara para a vida vampírica. Verônica, porém, eventualmente se tocou do horário e olhou o seu relógio, e disse: 


- Meu amor, são quase 4 da manhã, e eu tenho que te limpar antes de te devolver. - Vai me fazer sair daqui agora? Logo quando tava tudo tão bom?


- Se você quiser ter um segundo date que não seja com o sol, é melhor se apressar.


- Tá, e onde a gente vai se limpar? No seu refúgio?


- Só depois que você me pagar um jantar- disse Verônica enquanto ria- Tem uma cachoeira aqui perto, vamos lá rapidinho e depois eu te deixo em casa. 


- E a mesa? Vamos deixar ela assim? 


- Problema pro Adão resolver. 


Ambos se levantaram e foram caminhando até a cachoeira, onde demoraram um tanto mais do que o necessário para se limpar. Voltando para a moto, Verônica correu como nunca havia corrido e, tendo mais sorte do que juízo, chegou ao prédio de Javier com tempo de sobra para voltar para casa. O Ventrue desceu da Harley-Davidson e, antes que pudesse se despedir, sentiu Verônica pegando em seu pescoço como se ela fosse enforcá-lo. Sem entender o que havia acontecido, perguntou. 


- Eu fiz alguma coisa?


- Só tô medindo o seu pescoço. Afinal, como vou te adestrar sem uma coleira pra te segurar? 


Javier ficou boquiaberto, sem saber o que responder de primeira. Porém, recuperou a postura e disse: 


- E quando você pretende começar as nossas sessões? 


- Tá livre segunda que vem? 


- Para você, a qualquer dia e hora. 


- Então eu espero que vá preparado, porque você não vai sair da sua “sala de aula” até que eu esteja bem satisfeita contigo.

 

- Claro, como a minha dona desejar. 


Deram um beijo e um abraço final, até sua despedirem uma última vez e partirem em direções diferentes. Aquela noite, que ficou por um fio de não acontecer, deu a Verônica mais do que abraços, beijos e mordidas: deu a ela a esperança de que, mesmo que temida, ainda pode ser amada. Já para Javier, que vivia em um ninho de cobras que o sufocavam, conseguiu vivenciar um momento onde alguém que ele amava se importava com ele de fato, não um “ele hipotético”, mas com o verdadeiro Javier, uma pessoa doce e sensível, que abdicou da coroa de rei para ter os olhos de uma diva.














 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page