SIRENE
Atualizado: 14 de set.
Um Ventrue Inglês na Zona Sul do Rio espreita sua presa…
Uma noite de Maio de 2026, no Rio das Trevas. O Baixo Gávea estava lotado quando Sir Erik Roschild-Hardestadt desceu pela Rua Marquês de São Vicente e entrou na Praça Santos Dumont. A noite estava realmente muito quente, abafada sob um céu completamente nublado, que devolvia para a cidade o calor acumulado durante o dia… E escondia todos os astros atrás de suas nuvens avermelhadas. As mesas dos bares avançavam pelas calçadas ao redor da Praça que levava o nome de um importante Tremere da cidade. Muitas pessoas conversavam, paqueravam, bebiam, viam a si mesmas em suas selfies e aos outros… As motos cortavam a conversa de tempos em tempos, os Sedans de aplicativo traziam ainda mais gente e o cheiro da rua parecia curtido com cerveja, perfume caro, tabaco de rolo, maconha, fritura, gasolina, suor e feromônios. E Sangue, mas este só alguns poucos conseguiriam sentir. E Erik era um deles. Muitos jovens adultos se espremiam entre uns poucos adolescentes, reunidos em cantos para beber e fumar como adultos e muitos adultos que ainda gostariam de parecer jovens. Estudantes, surfistas, skatistas, lutadores de Jiu-jitsu , jornalistas, cineastas, críticos, atores, produtores, publicitários, herdeiros, treinadores, executivos, neo-hippies, neo-góticos, neo-grunges, neo-conservadores e muitos desempregados. Erik caminhava devagar entre todos eles, tangenciando a praça pela calçada dos prédio até chegar ao bares, “vestido para matar” por demais para o lugar e, ao mesmo tempo, perfeitamente à vontade nele. O “Rubor de Vida” lhe permitia se misturar facilmente, desde que descera de sua mansão a pé, do alto da Gávea, contemplando o bucólico bairro de origem operária. “Gávea Vermelha” quando houve uma revolta aqui, antes da gentrificação há menos de 100 anos atrás. Ele estudara fielmente a história mortal da cidade, bem como o pouco que conseguira sobre sua história Cainita, desde que soube que um novo Hardestadt tomara o lugar de seu Mawla em sua Pura Linhagem de Sangue do Clã dos Reis. Seu Vitae trabalhava sob a pele, devolvendo-lhe temperatura, alguma cor ao rosto e aqueles pequenos sinais fisiológicos que tornavam um cadáver de mais de 80 anos convincente quando observado de perto. Era um gasto pequeno para um Ventrue que pretendia caçar como uma Siren. Engraçado como os Brasileiros traduziram o método de caça de Sereia: “Sereia” evocava a mulher-peixe do imaginário português, criatura marinha de beleza sedutora que também encanta navegantes e os arrasta para a perdição; “Sirena” ou “Sirene”, lhe parecia mais próxima das antigas Sirenes gregas, predadoras monstruosas que atraíam homens sobretudo pela voz, pelo fascínio e pelo desejo irresistível que despertavam antes de conduzi-los à morte. A confusão entre ambas viera muito depois, quando a tradição europeia fundiu a Sirene antiga à figura da mulher-peixe, e por isso “Sirenae” parecia a Erik uma palavra muito mais precisa para o que fazia naquela noite. Como a sirene de um desses carros que anuncia perigo e morte com seu canto incessante. Seu corpo lembrava o que deveria fazer. Era um detalhe, mas “the devil lives in details” (o diabo mora nos detalhes). Sua Fome lembrava por quê estava ali e o tirava de seus devaneios e filosofias: Os primeiros olhares chegaram quase imediatamente: uma mulher numa mesa acompanhou sua passagem pelo reflexo da vitrine; um rapaz assustado demais por achar um outro homem atraente ficava em choque, quase deixando seu copo de plástico cair no chão; outra interrompeu o que dizia à amiga e o olhava diretamente e visivelmente interessada,com um sorriso de canto nos olhos com a segurança de quem imaginava ter tomado a iniciativa. Um garçom o admirava, pensando quanto tempo ainda faltava para sair de seu expediente, uma atriz famosa cercada de suas amigas menos famosas comentava com elas, mas logo fingiu estar interessada em outra coisa… Erik poderia facilmente ter encerrado sua caçada em poucos minutos. Continuava andando pelo espaço boêmio até encontrar uma pessoa capaz de fazer desaparecer todas as outras.
Foi quando avistou ela. Sim, ela. A única que realmente fazia sentido para ele. Ela estava sentada quase de lado numa cadeira de metal, uma perna longa cruzada sobre a outra, bebendo alguma coisa azul clara com gelo e olhando em volta como se esperasse que a própria rua oferecesse entretenimento. Sozinha. Decidida. Poderosa. Era alta o suficiente para que isso fosse evidente mesmo sentada. Os cabelos ruivos intensos estavam presos num rabo de cavalo alto que deixava descobertos o pálido pescoço comprido e a linha poderosa dos ombros. O corpo era exuberante, sinuoso e atlético ao mesmo tempo, com pernas treinadas, quadris largos e uma força visível sob a pele. Vestia um conjunto escuro de academia que Erik reconheceu como bastante caro antes de identificar a marca: jaqueta curta aberta sobre o top, tênis impecáveis, relógio digital esportivo sofisticado de correia dourada e uma bolsa pequena colocada junto aos pés que custava mais caro que todo o resto. Um brilho discreto permanecia perto das têmporas, e o perfume tinha aquela qualidade rara de fragrâncias que realmente terminaram o salário anual do vendedor do mesmo, e seu Sangue… Bem, seu Sangue contava uma história ainda mais interessante. E era certamente da ressonância favorita de Erik: Sanguínea. O Cainita britânico aproximava-se devagar dela e deixava espaço para o seu cheiro de “Clive Christian C Woody Leather with Oudh Intense” chegasse junto. Interessantemente ela parecia ter percebido o cheiro amadeirado caríssimo antes mesmo de vê-lo. Erik parou, deixando que a fragrância atraísse o olhar. Ela, procurando o perfume no ar, se virou. Quando os olhos se encontraram, a mulher o encarou com uma tranquilidade quase insolente. Algo raro, Erik pensara.
“Se você continuar me examinando desse jeito, vou começar a cobrar. Pelo seu paletó, imagino que possa pagar. Agora preciso adivinhar se está olhando porque gostou do que viu, porque analisa tudo compulsivamente como um psicopata ou porque essa é alguma tradição gringa dessas insuportáveis...”
Erik sorriu. A voz havia sido ainda melhor que o corpo, grave, segura, um pouco rouca e carregada de ironia.
“Posso lhe poupar algumas dessas hipóteses. Gostei bastante do que vi, só isso. Quanto às demais, ainda gostaria de preservar algum mistério. Posso me sentar ou a cadeira também entrou na sua tabela de preços?”
Ela não esperava pela atitude, mas muito menos pela voz de Erik. Mas ela se recuperou em segundos, como se não tivesse sido atravessada pelo homem a sua frente.
“Pode puxar outra. Essa fica reservada para minha bolsa quando aparece um homem confiante demais. Eu gosto de saber quanto ele suporta uma pequena frustração antes de decidir se continuo conversando.”
Erik trouxe uma cadeira da mesa vizinha e sentou-se diante dela.
“Então já estamos jogando. Nesse caso, proponho outra coisa. Você tentou descobrir como eu jogo. Agora tente descobrir meu nome.”
Ela estreitou os olhos e o observou com um pouco mais de cuidado. O corte do terno, o cabelo, o sotaque, a postura, o modo como ele mantinha as mãos, a idade impossível de precisar. Ela abriu o celular, procurou ele no Bumble… Passou vários para a esquerda mas não achou. Tentou o Tinder. Mesma coisa. Voltou. Erik estava imóvel, com um pequeno sorriso.
“Tá bom, sem roubar… Deixa-me ver… Espero de verdade que não seja um Enzo. Não, teria que ser brasileiro… Hm… Eu poderia chutar Charles. Alguma coisa meio inglesa, muito antiga, tradicional, mas meio espalhafatosa e bastante convencida. Charles ou Edward. Talvez Alexander, se seus pais tivessem pretensões na sua criação de nobre britânico...”
“Você acabou de insultar três gerações inteiras de homens que nunca conheceu.”
“Então errei.”
“Com segurança admirável.”
“Richard?”
Ele riu.
“Está chegando perigosamente perto de piorar sua situação.”
Ela inclinou o corpo sobre a mesa, divertida.
“Então me dá uma pista.”
“O nome, como os últimos invasores da minha terra, é Escandinavo.”
“Já sei. Erik.”
Dessa vez ele demorou um instante. Ela abriu um sorriso triunfal.
“Ah. Acertei. Gostei dessa reação. Você estava esperando que eu precisasse de pelo menos mais cinco.”
“Estava.”
“Julianna, prazer.”
“Prazer? Assim espero. Esse nome eu jamais teria adivinhado.”
“Mentiroso. Você ia dizer alguma coisa como Victoria, Gabriela ou Helena porque acha que meu nome precisa combinar comigo.”
“Confesso que Helena passou pela minha cabeça.”
“Mas é claro que passou.”
Foi ali que a caçada começou a adquirir um prazer único. A Fome continuava presente, especialmente cada vez que Julianna virava o rosto e expunha o pescoço, quase sem querer. Erik acompanhava a pulsação sob a pele alva com facilidade, rápida e extraordinariamente forte. Era como se visse um ser mitológico, como ele, respirar. Seu corpo exalava saúde em excesso, uma vitalidade que se anunciava no forte calor, no delicioso cheiro e na maneira perfeita como ela ocupava espaço. Conversaram por quase quarenta minutos. Julianna trabalhava pouco para ser agradável. Interrompia quando tinha vontade, discordava sem pedir desculpas, ria dele quando julgava merecido e parecia se divertir. Ela procurava a fronteira da arrogância daquele inglês e o fazia com perfeição, sem nunca deixar de ser bastante atraente. Contou que corria, escalava, treinava força, gostava de viajar muito e conhecia trilhas que começavam onde a maioria dos cariocas encerrava seus passeios. Era fã especialmente de cachoeiras virgens, desconhecidas, onde gostava de tirar toda sua roupa e sentir a força do vento e da água arrebatando sua pele. Quando Erik comentou que o conjunto de academia parecia elaborado demais para alguém que simplesmente saíra de um treino, Julianna baixou lentamente os olhos para o próprio corpo e tornou a levantá-los com evidente provocação.
“É mesmo? Não percebi. Mas essa agora foi uma maneira muito inglesa de perguntar se me vesti assim para chamar atenção. Eu me visto desse jeito porque gosto de me olhar no espelho, e pronto. Eu não preciso chamar a atenção de ninguém. Minha HBO Max, um livro, meu sugador de clitoris, um bom chá de erva cidreira, um delicioso incenso e principalmente uma caixa de Lindt são toda a companhia que eu preciso. O restante da cidade recebe o benefício da minha beleza e do meu bom gosto gratuitamente. Aliás, parabéns, você parece ter recebido mais benefício que a média.”
“Tenho profunda gratidão pelo seu espírito público-social. E nunca iria competir com uma caixa de Lindt. Estaria fadado ao fracasso.”
“Hm, nem comentou sobre o sugador… Parabéns de novo.. Mas, você é mesmo insuportável, não é, “Pequeno Príncipe”? Você tem uma resposta preparada para tudo?”
“Quase tudo.”
“Tá ai. Agora você me interessou. Quero descobrir o que entra neste quase.”
O convite para caminhar e subir no seu prédio surgiu imediatamente depois e partiu dela com a mesma ausência de cerimônia que caracterizava toda a conversa, para tomar um café e “provar o Lindt dela”. Julianna terminara a bebida com graça, recolheu a pequena bolsa casualmente e informou que morava perto. Erik a acompanhou pela na entrada da rua quente da Gávea sob o céu opaco, sem lua e sem estrelas visíveis e nem qualquer corrente de ar capaz de aliviar o abafamento. Ela andava depressa, com passos certos e longos, parecia ainda carregar energia suficiente para atravessar a madrugada inteira e andar até o centro da cidade. Julianna era uma presa muito especial. Ela confrontava, provocava e oferecia resistência suficiente para transformar o simples ato de conquistá-la em algo mais que mero entretenimento, quase uma obra de arte. Erik já antecipava o instante em que sentiria aquele sangue tão vivo em sua boca. A imagem produzia nele uma resposta tão profundamente sensual que os olhares recebidos na praça ao ver os dois saírem juntos.
O apartamento ficava num edifício discreto na continuação da rua, agora um pouco mais tranquila, perto o bastante do Baixo para que ainda se percebesse a vida noturna sempre que o portão da garagem se abria. Alguns casais se atracavam, outros usavam substâncias ainda mais poderosas, escondidos entre carros e muros. O porteiro Jeovano conhecia Julianna. Ela o cumprimentou pelo nome, atravessou o hall sem nenhum problema de chegar com um homem desconhecido e entrou no elevador esperando Erik ao seu lado. Na subida, os corpos chegaram bem perto. Mas era necessário o local ideal para o primeiro beijo, o primeiro toque e o primeiro prazer prometido mais cedo. Dentro do apartamento, havia muito espaço, madeira de lei, vidro laminado e refletido, mármore e uma organização quase impecável. Fotografias de montanhas, matas e lugares selvagens ocupavam as paredes. Uma mochila gigante de trilha muito bem tratada carregava ainda assim um pouco de poeira ressecada perto de um móvel baixo. Havia livros de todos os tipos, arte, biografias, negócios, drama brasileiro e estrangeiro, muitos equipamentos esportivos e algumas fotografias em que Julianna aparecia coberta de lama, sorrindo ao lado de pessoas bastante próximas dela. Pela janela, a noite carioca era apenas uma extensão negra de nuvens baixas sobre prédios, árvores e pedra. Julianna deixou a bolsa sobre o sofá, tirou o relógio e percebeu os olhos dele novamente percorrendo o ambiente.
“Você ainda está me estudando, ótimo. Desde a praça seus olhos fazem isso, constantemente. As pessoas, os bares, minha bolsa, minhas mãos, meu pescoço, minha boca, meus olhos, meu decote... Alguma profissão muito chata ou alguma criação muito cara te fizeram medir tudo o tempo todo.”
“Ambas as hipóteses continuam ofensivas. Eu simplesmente presto atenção em tudo.”
“Eu também.”
Ela aproximou-se até o tecido de sua roupa tocar o paletó dele. A diferença de altura era pequena. Julianna ergueu pouco o rosto para encará-lo, e Erik sentiu novamente o calor extraordinário que vinha dela.
“E prestando toda essa atenção, Sir Erik, o que você acha que vai acontecer agora?”
O título foi pequeno o bastante para passar por brincadeira. Erik guardou a informação.
“Acho que você pretende descobrir se sou tão irritante de perto quanto fui durante a última hora.”
“Ah, mas já descobri. Minha curiosidade agora é muito mais física...”
Julianna o beijou antes que ele respondesse. Sua boca era quente, ainda com um resíduo cítrico da bebida, e ela usava a mão na nuca de Erik para aproximá-lo com uma segurança que parecia natural. Abriu o paletó e deslizou as mãos por baixo do tecido da camisa, demorando os dedos sobre o peito dele como se examinasse cada detalhe. Erik sentia a diferença entre o calor real do corpo dela e a temperatura que o Rubor de Vida fabricava no seu. Quando Julianna abriu sua camisa botão por botão, manteve os olhos nele. O desejo dos vivos continuava sendo uma experiência extraordinariamente indiscreta: pupilas, respiração, pele, pulsação e pequenos movimentos entregavam o que a mente podia tentar esconder. E a Ressonância Sanguínea era certamente a mais poderosa que poderia encontrar esta noite…
“Você continua frio demais para uma noite dessas, inglezinho… Está fazendo uns trinta e tantos graus aqui dentro e caminhamos da praça até minha casa. Quero ouvir uma explicação elegante.”
“Existem britânicos capazes de atravessar o verão do Rio de terno Alexander McQueen. Depois disso, qualquer anomalia fisiológica parece até razoável...”
“Anomalia fisiológica. Outra expressão curiosa, você domina muito bem o português e sem sotaque nenhum… Quase…”
“Você presta atenção demais…”
“Eu avisei…”
' O forte beijo seguinte durou muito mais. Julianna soltou a gravata dele e a utilizou por alguns segundos para conduzi-lo pelo corredor, rindo quando Erik aceitou o gesto. As preliminares se estenderam porque ambos pareciam interessados em descobrir quanto controle o outro permitiria. Havia mãos, beijos demorados, força dosada, dentes encostando na pele, provocações murmuradas muito perto do ouvido. Ela era especialmente quente dentro de si. Julianna gostava de controlar o ritmo e também a distância. Erik gostava de descobrir onde aquela segurança cederia, eventualmente. Quando finalmente foram para a cama, ele demorou-se nela com a boca, explorando sua entrada, seus nervos e partes especiais de prazer. A irreverência verbal de Julianna desapareceu durante uma hora inteira. O prazer veio em ondas visíveis por alguns minutos todo o corpo, contrações, respiração quebrada, dedos agarrando os lençóis e aquele calor crescente que Erik sentia contra o rosto. No primeiro auge, ele encontrou também o sangue. Seus dentes abriram discretamente a pele numa região em que o gesto poderia desaparecer dentro das outras sensações, e o primeiro gole transformou a experiência inteira.
O sangue de Julianna era extraordinário. Quente, denso, agressivamente vivo, forte, qause sobrenatural, carregando uma força que Erik jamais encontrara numa presa humana comum. A Fome respondeu com violência. Por alguns instantes todo o restante perdeu importância: o perfume, o quarto,a pele, a conversa, a cidade, a ambição... Havia apenas aquele gosto e a pressão de um coração poderoso empurrando mais sangue para onde ele bebia e a dava mais prazer e mais orgamos. Ela cada vez mais se contorcia, se tocava, gemia a ponto de quase urrar, e empurrava o rosto dele contra si. Erik controlou a quantidade sangue com maestria. Julianna estava mergulhada demais no próprio prazer para compreender exatamente o que ocorreria naquela caçada vampírica; percebeu os dentes, a pressão, uma vertigem deliciosa e atribuiu tudo à experiência que já atravessava. Quando achava que não iria aguentar mais, e mais uma vez outra nova onda de prazer e mais uma vez um novo orgasmo intenso. Quando Erik voltou a beijá-la, ela tinha os olhos semicerrados e um sorriso exausto e satisfeito.
“Agora eu descobri uma coisa que entra no seu quase... Você é bem melhor quando finalmente decide parar de conversar…”
“Você parece aprovar...”
“Estou considerando exigir uma demonstração mais longa antes de emitir um parecer definitivo. Só que agora eu quero uma demonstração diferente. Entra agora dentro de mim! Vem!”
A madrugada avançou. A cama tornou-se território de uma disputa que os dois prolongavam deliberadamente, e Julianna revelou uma resistência quase absurda. Em algum momento ela empurrou Erik contra os travesseiros, sentou-se sobre ele e decidiu permanecer ali em um movimento contínuo quase em transe. O domínio físico lhe agradava visivelmente. Ela encontrou seu próprio ritmo fixo e o sustentou por um tempo que teria exaurido praticamente qualquer pessoa que Erik conhecesse. Ela se deleitava, especialmente com a circunferência que ele ocupa dentro dela, preenchendo-a por inteiro. Ela se diverte sentido ele bater na parede da entrada de seu útero. E isso lhe deixava ainda mais úmida, feliz, entregue e desejosa. Seu corpo pálido brilhava de suor. Seu cabelo estava bem escorrido de tão húmido. Horas pareciam dissolver-se naquele quarto abafado, apesar do ar-condicionado no máximo, o cabelo ruivo já estava completamente solto, grudando em partes do rosto e das costas, e a pele alva tinha adquirido um brilho quase prateado sob a iluminação baixa, com Julianna alternando a intensidade e momentos em que simplesmente fechava os olhos e se abandonava ao próprio prazer. Era uma fêmea-fera incansável. Erik assistia debaixo dela, sentindo um prazer favorecido pela ressonância aguda do sangue dela. Os novos orgasmos múltiplos dela voltavam em sucessão, alguns rápidos, outros longos o bastante para fazê-la parar e recuperar a respiração antes de continuar. Ela ria, horas como uma criança, horas como a mulher poderosa que era, e algumas vezes entre um clímax e outro, espantada consigo mesma, e retomava o movimento com a obstinação hipnótica de alguém que transformara prazer em competição. Três horas e meia depois, ela descansava sobre a cama, de costas, em cima do corpo dele. Ele mantinha seus beijos e algumas mordidas suaves, para continuar provando seu Sangue poderoso. Ela nem sentia mais nada. Sua fala era leve e quase com algum esforço.
“Você ainda está me olhando como se estivesse estudando me estudando... Espero que pelo menos esteja aprendendo alguma coisa...”
“Estou revendo várias de minhas expectativas e estimativas...”
“Sobre mim?”
“Principalmente sobre sua resistência...”
“Eu avisei que treinava.”
“Julianna, isso está começando a parecer mais que academia.”
Ela soltou uma gargalhada, inclinou-se sobre ele e mordeu seu ombro.
“Continue tentando adivinhar. Você parece gostar desse jogo...”
“Mais do que deveria…”
“Me come, vai!”
“Sim..”
Julianna já estava exausta e ainda assim reagiu quando Erik a virou, puxando-a para perto e a penetrando pela frente. Ele tomou o controle e ela, refastelada, parecia gostar mais ainda de ser possuída. Depois de experimentá-la penetrar assim, seguiram-se estocadas mais vigorosas, enquanto ele ainda se alimentava daquele pescoço que cobiçara desde o começo da noite. E continuando o encontro por trás, de quatro, agora com uma intensidade que arrancou dela os últimos vestígios de ironia. Por fim, quando ela achou que ele iria parar, colocou um travesseiro por baixo de sua pelve e deitou por cima dela. Julianna finalmente se entregou por completo, e Erik parecia ainda mais forte, mais vigoroso e com mais tesão que antes. Tudo em Erik era prazeroso para ela. A noite já começava a dar sinais que iria ser dissolvida pelo novo dia. O quarto estava em desordem, lençóis amassados, roupas espalhadas, o cheiro de sexo muito mais poderoso que os incensos suaves e seus perfumes caros; o copo derrubado perto da cama era Julianna completamente transformado pelo que vivera. Ela permaneceu deitada de bruços, ressoando em sua respiração profunda, quase dormindo, metade do rosto enterrada no travesseiro e rindo sozinha como se alguma piada particular tivesse finalmente encontrado graça. Sua fala era insone, quase inebriada, com muita dificuldade mas cortada por sua risada. Ela se esforçava para formular a última frase sem precisar respirar ou rir.
“Tenho quase certeza… De que amanhã… Vou descobrir músculos… Cuja existência eu desconhecia... Quero registrar que isso conta como ponto positivo na sua avaliação final!”
Erik estava sentado ao lado dela, passando os dedos lentamente pela curva de suas costas e beijando-a, ainda tomando seu sangue, bem devagar. Ele falava entre cada mordiscada, mesmo com ela que já havia desmontado sua compostura horas antes. …
“Fico satisfeito em saber que meu desempenho finalmente começou a compensar aquela péssima primeira impressão.”
“Eu ainda estou pensando na sua nota...”
“Posso tentar influenciar a banca examinadora, quem sabe...”
“Você certamente parece ser o tipo de homem que suborna instituições! Especialmente depois de exibir seus talentos e calibre…”
Erik voltou a beijá-la ainda mais, roubando-lhe mais sangue, era impressionante o quanto ela conseguiu ainda produzir, como se um fator de cura constante a protegesse, mas que agora começava a finalmente falhar. Julianna soltou um pequeno gemido de surpresa quando percebeu que ainda sentia prazer e riu, cansada, enquanto ele continuava lentamente as carícias e os beijos. Ela parecia agora não acreditar. Ela permaneceu entregue ao colchão, falando entre respirações e risos cada vez mais curtos, até que o prazer voltou a atravessá-la em ondas sucessivas. Erik aproveitou justamente esse estado para beber novamente ainda mais. Mais. O sangue continuava extraordinário, mesmo com ela totalmente enfraquecida. Cada gole parecia carregar uma vitalidade quase hostil, e ele precisou exercer disciplina para interromper antes que a Fome exigisse tudo de uma vez.
“Você é completamente absurdo, lordezinho. Eu já perdi a conta de quantas vezes… Pela Deusa, espere um pouco. Pelo menos me deixa recuperar a capacidade de formular frases antes de começar outra coisa…”
“Curioso. Na praça você parecia acreditar que sua capacidade verbal era inesgotável.”
“Na praça eu ainda tinha quase todo o meu sangue.”
Erik ergueu os olhos. Julianna também percebeu o que acabara de dizer. O silêncio durou um pouco mais do que deveria. Ela virou-se lentamente, apoiando-se nos cotovelos. Parecia exausta de uma forma nova. O rosto estava mais pálido. O coração ainda batia forte, porém havia perdido parte daquela potência inicial. Algo em sua presença também parecia diminuir, uma tensão animal que Erik sentira durante toda a noite e que agora recuava para algum lugar muito distante.
“Quer água?”, perguntou ela finalmente, tentando desconversar. “Tenho água de coco, isotônico, vinho, cerveja e gim também. Você talvez queira continuar sustentando essa sua performance de cadáver perfeitamente hidratado...”
“Água será desperdiçada comigo.”
“Eu imaginei. Eu preciso do meu gim.”
Ela levantou-se devagar, enrolou parcialmente um lençol no corpo e atravessou o corredor. Pela primeira vez seus passos pareciam pesados demais. Erik ouviu a geladeira, uma garrafa, um copo. Ela voltou bebendo bastante e permaneceu perto da janela, olhando a noite que ainda não cedia, ainda espessa lá fora. Nenhuma lua aparecia atrás das nuvens. Julianna pousou a testa no vidro frio do ar condicionado e sorriu para o próprio reflexo. Erik observou-a com muita atenção.
“Que pena esse céu. Uma noite dessas merecia uma lua bonita.”
“Você costuma apreciar a lua?”
“Algumas noites mais do que outras.”
“Mais uma coisa para minha lista.”
“Você ainda está tentando me adivinhar?”
“Desde a praça.”
Julianna terminou metade do copo. Ela olhou-o como se fosse tentar algo, mas acabou por ceder, no fim.
“Então talvez eu devesse lhe dar uma pista. Vocês quase nunca querem água.”
Erik permaneceu sentado. Seus olhos passavam pelo rosto dela, pela porta, pelo corredor, pela bolsa pequena demais sobre o aparador. Julianna sorriu.
“Agora você começou a prestar atenção de verdade, Sir Erik Rothschild-Hardestadt. Eu estava começando a achar ofensivo.”
Erik demorou alguns segundos. A noite inteira podia ser reorganizada a partir daquela frase: a força, as trilhas, o pulso, o “Sir”, a atenção à temperatura, o gosto impossível do sangue, a resistência durante horas e o modo como ela parecera avaliar cada movimento dele desde o primeiro encontro.
“Há quanto tempo você sabe?”
“Desde antes daquela loira olhar para você na praça. Muito antes. Desde que torturei e destrui seu amigo, Federico. Eu estava lhe esperando. Faço isso há bastante tempo. Vocês gostam de pensar que são excelentes predadores. Isso torna meu trabalho muito mais divertido.”
“Ah. Entendo. Você se oferece como isca...”
“Gosto de pensar que sou uma isca particularmente eficiente. Alguns de vocês procuram pessoas extremamente bêbadas. Outros gostam de alguém mais inseguro. Alguns gostam dos solitários, que se esforçam em chamar atenção na noite... E existe um tipo muito específico que prefere uma pessoa forte porque precisa acreditar que conquistar alguém assim diz alguma coisa sobre ele mesmo. Eu costumo ser especialmente boa com esses. Com vocês.”
“Estou começando a achar seu método ofensivamente pessoal, sabia?”
“Era para ser.”
“Então explique a parte que ainda falta…”
Julianna apoiou o copo na mesa de cabeceira e deixou o lençol cair um pouco sobre o ombro, ainda perfeitamente consciente do efeito que sua imagem tinha sobre ele apesar do cansaço. Ela tentava resistir e fazer uma brincadeira, mas algo agora na voz de Erik era ainda mais completamente irresistível. Completamente. Como uma Sirene. Ela se esforçava para continuar o chá de revelação sem entregar seus segredos mais profundos e comunitários.
“Vocês têm uma palavra. Lupinos. No meu caso, Lupina, acho. Já ouvi algumas vezes de algumas das minhas presas. Sempre achei engraçada, parece coisa tirada de um bestiário medieval escrito por algum padre com medinho da floresta. Pode usar se quiser. É o máximo que vai conseguir de mim. Minha família, minha lua, meu povo, o nome que nos chamamos, entre nós mesmos … Ou qualquer nome que vocês tenham decidido dar às coisas que fazemos, tudo isso fica comigo.”
“She-Wolf. Lupine.”
“Viu? Ficou bonito no seu sotaque.”
“E você pretendia me matar, também, como fez com Federico.”
“Pretendia. Faço sempre isso. Eu me tornei muito boa nisso. Inacreditavelmente boa. Sou melhor que os da Lua Nova, mesmo sendo uma da Lua Cheia. Oops! Agora falei demais. Deve ser o Gim…”
“Quantos?”
“Quanto de Gim… Ah. Não. Você está abusando da sua sorte, seu gostoso tesudo.”
“Era apenas curiosidade de alguém destinado a encontrar a Morte-Final.”
“Bonito isso. Poético. Curiosidade de Vampiros sempre parece interrogatório.”
Ela tentou aproximar-se da cama e precisou apoiar a mão na parede. O próprio desequilíbrio a surpreendeu. Julianna respirou fundo e franziu a testa, procurando dentro de si alguma coisa que estava acostumada a encontrar imediatamente. Erik viu sua expressão mudar. A fera que permaneceu sob a superfície durante toda a noite parecia distante agora. O Lobo recuou junto com a força drenada pelo Sangue, deixando-a presa naquela forma humana, cansada, pálida e subitamente muito consciente do quanto bebera e do quanto havia perdido. “Harano? Merda!” ela pensou.
“Você bebeu muito de mim...”
“Você permitiu que eu chegasse muito perto...”
“Eu estava meio ocupada gozando sem parar..”
“Percebi. Eu senti. Eu também gozei, por assim dizer.”
Julianna riu apesar da irritação.
“Pela Deusa, eu devia ter arrancado sua cabeça na rua deserta, quando saímos do bar...”
“Provavelmente, deveria mesmo. Era o acertado. O garantido.”
“E sabe a pior parte? Eu realmente gostei de você. Isso vai ser profundamente humilhante quando eu tiver que contar na próxima Assembléia…”
Erik aproximou-se. Julianna ainda tentou manter a provocação nos olhos.
“Eu sou boa nisso, Erik. Muito boa. Eu sou a perfect bait. Um Vampiro me olha, me deseja, sobe comigo e começa a acreditar que a noite foi toda ideia dele. Já vi alguns morrerem com essa certeza. Você foi o primeiro que conseguiu me fazer esquecer por horas o motivo de eu ter sentado naquela mesa e te esperar...”
“Então finalmente eu consegui vencer alguma coisa esta noite.”
Julianna começava a sentir quase um desmaio. Mas se manteve falando, quase de olhos fechados.
“Te dou esse crédito! Mas…Não comemora cedo demais... Quando minha Loba voltar…Eu… Eu vou te caçar e destruir…; você vai descobrir quanto tempo essa sua vitória improvável..”
“Foi justamente nisso que pensei.”
Um clique metálico.. Erik segurou um dos pulsos dela, aproximando-o da estrutura da cama, e fechou a primeira algema antes que Julianna pudesse reagir plenamente, ou sequer entender o que acontecera. O segundo clique veio durante o movimento seguinte. Ela se recuperou, olhou, puxou os braços com violência. A madeira de lei chegou quase a quebrar.
“Seu filho de uma puta paga. Você trouxe algemas para caçar no Baixo Gávea?”
“Estas especificamente, sim.”
Julianna sentiu então o metal no seu corpo. Alguma coisa dentro dela tentou responder ao perigo. Os ombros se tensionavam quase totalmente, a musculatura fraca pareceu se retorcer, e esse processo todo morreu quase imediatamente quando a prata passou a cumprir sua função. Ela caiu de volta sobre o colchão com um grito sufocado entre os travesseiros, e os olhos arregalados.
“Não acredito nisso! Quando eu sair daqui, vou abrir num rasgo de cima a baixo, seu cadáver.”
“Espero sinceramente que sobreviva para tentar. Seria uma experiência.. Intrigued.. Para sobreviver...”
Julianna lutava contra todas suas forças. Ela percebeu que Erik saíra do quarto. A fumaça começou a aparecer alguns minutos depois. O Cainita já estava vestindo a camisa quando a Garou percebeu o cheiro. A expressão dela perdeu o humor pela primeira vez.
“Erik, escuta. Apaga isso que você fez e vá embora. Você já ganhou tempo. Essas algemas me atrasam, eu estou fraca e minha Loba está dormindo.. Vai e desaparece. Tem gente dormindo neste prédio...”
“Então recomendo que comece a gritar…”
“Por Gaia, pelo Vento Norte e pelos meus ancestrais, você é realmente um filho de uma puta paga.”
“Sim. Você já mencionou isso...”
“Eu vou encontrar você, sanguessuga!”
“Essa parte também...”
A Espreitadora do Vento Ahroun puxou as algemas outra vez, suportou a dor e ficou olhando enquanto Erik terminava de se vestir e recolhia o paletó. Quando o Neófito Ventrue chegou à porta, ela falou num tom um pouco mais baixo ainda…Quase derrotada…
“Você também sentiu. Foi por isso que demorou tanto. Podia ter me drenado antes. Podia ter usado seus truques. Ficou horas aqui porque gostou de mim.”
Erik parou. Julianna sorriu, apesar do cansaço.
“Pode contar a história como quiser quando sair daqui. Vai dizer que percebeu minha força, que desconfiou da temperatura, que reconheceu meu sangue, que um Vampiro nunca perde o controle da situação. Eu estava lá. Vi você se divertir. Você e esse seu pau grosso e essa língua mágica, seu cadáver escroto!..”
Erik permaneceu alguns segundos olhando para ela, genuinamente intrigado.
“Seu cadáver escroto!”
Erik ajustou o paletó.
“Você já disse isso.”
“Me solta!”
“Sabe…Você estava certa sobre uma coisa. Iscas funcionam muito bem com predadores.”
“Então você foi a perfect bait.”
“Para a perfect bait.”
Julianna riu novamente, agora com raiva suficiente para parecer quase admiração. Ela gritava e forçava a algema, se machucando ainda mais no processo. Até que desistiu.
“Boa noite, Julianna. Eu ia adorar tê-la como amante. Mas eu preciso proteger os meus.”
“Boa noite, Sir Erik Hardestadt. Quando eu encontrar você outra vez, vou fazer você se arrepender de ter me comido! Seu cadáver escroto, filho de uma puta paga!”
EPÍLOGO
O alarme do edifício começou quando Erik já saía do elevador de serviço. Ele atravessou a garagem e a abriu no botão automático, enquanto lá acima portas batiam, moradores gritavam e sirene dos bombeiros já podia ser ouvida. Ninguém prestou atenção ao homem extremamente bem vestido que atravessou a fileira de carros com o paletó perfeitamente colocado sobre os ombros. Quando saiu andando para rua quente, um pedaço da lua começou a aparecer . Do lado de fora, o Rio seguia indiferente. Erik andou até o Baixo Gávea, levemente mais vazio, e fez sinal para um táxi encostado na calçada. A atriz de mais cedo o viu. Ele abriu a porta e falou alguma coisa baixo, mas que pelo poder de seu sangue, chegou aos seus ouvidos. Ela sorriu, se levantou achando tudo muito engraçado e caminhou para o táxi. Ela entrou, ele depois, e os dois se beijaram fortemente. A Fome respondeu dentro dele, menor depois do sangue extraordinário de Julianna, porém ainda presente, lembrando que mesmo aquela noite possuía limites. Erik observou pelo retrovisor o edifício ficando para trás e pensou em Federico, seu breve protegido, e nos outros desaparecimentos e na caçadora lobisomem que aprendera a transformar o desejo dos vampiros numa armadilha. Depois pensou na Lupina, por alguns segundos… Sacudiu a cabeça, afastando este pensamento…
Acima dos prédios, sob o céu nublado onde Julianna jamais teria uma lua para receber seu uivo naquela noite, alguma coisa produziu um rugido tão profundo que duas pessoas na calçada pararam e ergueram a cabeça. Erik olhou uma última vez pelo retrovisor. Taxi engatou a marcha, deixou a Gávea para trás e seguiu pela Zona Sul enquanto a cidade começava lentamente a esquecer que ele estivera ali. E os dedos de Erik entraram mais uma vez em uma belíssima nesta noite, prenunciando seu Beijo que viria em seguida… E mais sangue.
Já longe dali, , no entanto, corpo gigantesco em chamas, uivava por vingança e pulava na penumbra do final de noite, pelos tetos dos pequenos prédios de frente para a Praça Santos Dumont…




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