O Tempo Não Para
Levantando o queixo, virando seu olhar para o telhado escuro, onde um ventilador de teto metálico rangia, produzindo mais ruído do que vento, Nilo, com sua voz grave e embargada, procurava as palavras para explicar sua apreensão com o pedido do rapaz.
– Não é assim tão simples, desde que me tornei essa criatura amaldiçoada, as noites têm ficado cada vez mais entediantes.
As regras da maldição são até simples, mas os efeitos no meu corpo são complexos. Não, não só complexos… são cruelmente sutis. Os efeitos são degradações que vem com o tempo. A fome não cessa, os ímpetos se tornam uma segunda natureza. Logo, não sabemos se somos nós, ou a criatura. Mas, existe algo pior que os sussurros bestiais me arranhando a garganta sempre que estou perto de uma ferida. Pior que meu instinto se aguçando quando estou perto de um mortal, como um cão faminto diante de um suculento pedaço de carne, me tornando quase um bicho.
Pior que a compulsão que faz meu sangue morto borbulhar em fúria desenfreada quando sou afrontado por autoridades que me recuso a reconhecer.
Me refiro às perdas.
Seu olhar se voltava para o rapaz de 32 anos deitado na rede consigo. Via apenas seus cabelos cacheados, mas sentia seu rosto quente sob o peito, sentia o calor emanando de seu corpo vivo, junto do movimento rítmico de sua respiração.
Esse calor sumiria se compartilhasse a maldição.
A mão do rapaz brincava com um lápis entre os dedos, inquieto. Como ambos estavam esmagados na rede, não havia muito movimento que o pequeno hiperativo pudesse fazer para acalmar sua inquietude.
– Eu já entendi que é uma maldição. Que tem que beber sangue e tal – disse preguiçoso, sem tirar a bochecha do peito de Nilo. – Mas agora que eu sei sobre vocês, não me tornar um de vocês é muito mais perigoso.
Ele tinha razão.
Mas não era sobre segurança que Nilo hesitava, era sobre a perda da essência do rapaz e também sobre a ruptura que o pedido causaria em sua relação.
Você nunca pode confiar em quem se alimenta com sangue amaldiçoado. Ele se torna dependente, quase enfeitiçado pelo sabor da vitae, conhecendo o rapaz ele iria querer abusar da substância sobrenatural, e, essa substância seria ele.
Pessoas viram sacos de sangue muito rápido.
– Não é sobre a maldição como os outros te contam, Cá. Essa coisa de instinto assassino sobrenatural ou até compulsões, perdições, besta é uma parte muito superficial do condicionamento vampírico. O que me faz ter tanta apreensão contigo é que se você vai ficar congelado nesse estado pra sempre comigo, eu não quero ser seu Senhor.
Falar em voz alta não amenizava o desconforto da rejeição. O rapaz para de mexer o lápis.
– É tão ruim assim, ser meu Senhor?
Aquela era uma pergunta afrontosa, Nilo sabia da armadilha. Estava sendo provocado.
– Não quero ter que segurar seu corpo morto em meus braços durante a transformação. – continuou com o pesar a voz enquanto tocava gentilmente o braço do rapaz – Não quero ser o responsável por seu abraço, mesmo sabendo que possivelmente não vai morrer, sempre tem um fragmento de chance das coisas não darem certo. Se algo acontecer, ser o culpado de sua morte me assombraria por toda eternidade. Não me peça para contemplar, nem imaginar, a ideia de sua ausência.
O rapaz levantou o rosto, fazendo toda a rede tremer. Encontrou o olhar sombrio de Nilo e decidiu acreditar naquelas palavras.
Nilo não se considerava um especialista na maldição, mas já estava duas belas décadas nesse estado, já entendia algumas nuances das relações mortal-vampiro. Primeiro, o predador não apenas consome sangue, ele consome as emoções, a alma. Segundo, que nem todos caçam com força física, mas a maioria usa das manipulações.
Em outras palavras, as juras de amor de um senhor para uma cria eram a mais pura mentira, uma das mais fáceis de contar e uma das mais cruéis de se descobrir. Um vampiro que tem qualquer afinidade ou respeito por um mortal, jamais o amaldiçoaria direto das presas, onde converteria seu amigo, amante ou rival em uma marionete dependente de sangue.
Se fosse mesmo tê-lo ao seu lado amaldiçoado, no mínimo que não fosse por suas presas. Queria tê-lo intelectualmente e não como uma desgraçada boneca obediente. Não havia amor em um abraço.
– Além do mais, com seu talento, e a fama que tem no momento, seria um ótimo “mordidinha” do clã Toreador.
O rapaz riu, deitando o rosto de volta no peito do homem, a respiração frágil, notável apenas pela intimidade.
– Você pensa demais sobre isso, de tipo de “vampiro”, isso não importa muito pra mim. – O rapaz levantava as duas mãos cobrindo a luminosidade da lâmpada incandescente do rosto. – Assim, eu ia ficar meio grilado de ser Nosferatu sim, mas realmente, eu queria era parar de ficar sentindo dor. Isso de adoecer… essa ressaca da vida é punk, Nilo. Eu sinto meu corpo deteriorando, eu vejo as mudanças começando, as pessoas tão percebendo, se eu vou morrer, que seja pra maldição. Ou, por você.
Nilo não queria vender o vampirismo como uma solução para a doença, como se a imunidade do corpo morto compensasse. Mas não havia empatia ou compreensão que o colocasse nos sapatos do rapaz, cujo as mãos já estavam tornando-se mais finas, as tosses mais constantes e logo seria impossível não notar sua condição.
Ter um amante mortal era sempre difícil, parece que a perda é uma constante na existência de um imortal. Se conseguisse o abraço para ele de um vampiro de confiança, ao menos, teria mais tempo ao seu lado, sem que fossem um a droga do outro.
Deparar-se com a inevitabilidade da perda, seja para uma condição de renascença amaldiçoada como do abraço, ou para a própria morte causava em Nilo uma angústia imensurável. Angústias como esta tornavam-se válvulas para que sua própria besta tomasse o melhor de si. Não podia amaldiçoá-lo com as próprias presas.
Não se perdoaria.
– Espera só mais um pouquinho, Cá. – Pediu gentilmente, passando sua gélida, não-viva, mão pelo antebraço quente do rapaz, que tossiu um pouco.
– Eu vou, eu tô lutando. Esperando e lutando. Mas Nilo, o tempo não para.
***
Nilo sabia que não suportaria ir ao enterro de Cazuza. Só não esperava que seria tão cedo.
Talvez devesse ter deixado o orgulho de lado e abraçado o rapaz logo quando ele suplicava ao invés de esperar que uma outra Cria da noite estivesse apto. Talvez devesse ter puxado favores como faziam os engomadinhos da monarquia, talvez devesse ter apenas conseguido um louco disposto a ter a experiência de causar um abraço.
Queria proteger sua essência, ou queria conservar sua relação? O medo da corrupção de seu amante era tanta que fez com que demorasse e perdesse a corrida contra a única certeza da vida. De que serviam os princípios durante o luto?
Agora só restava lamentar-se. Mil e uma possibilidades do que devia ter feito de nada valiam, quando o resultado era este. Um enterro com grande cobertura midiática, seguido de reportagens sensacionalistas.
Ele adorava atenção.
– Foda, né, Nilo?
Uma voz familiar fez com que voltasse a si, estava divagando demais na própria melancolia.
– Você é…?
– Ismael. – Respondeu com um sorriso solidário. O rapaz boa pinta tinha um olhar simpático. – Eu também conhecia o Cazuza.
– Era um amigo? Ou… um fã?
– Fomos pra mesma clínica.




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