As cores dos Anjos
– Estou pensando, se não cabia uma pintura de pequenos anjos para representar a adoração do cálice. – Comentou Eduardo, enquanto olhava os rascunhos do altar que Helena desenhava.
Os rascunhos de Helena Crosgnac não eram muito detalhados, mas pintavam uma ideia arquitetônica de como ficaria o ambiente no qual trabalharia pelos próximos meses. Ser uma escultora imortal dava a ela um condicionamento físico avantajado para esse trabalho, entretanto o tempo de sua mão de obra era curto, devido ao torpor e seu cliente exigente.
– Poderíamos pintá-los com algum pigmento metálico, tenho certeza de que Rosa poderia ceder um de seus pintores, se não, o próprio Matheus poderia doar-nos o talento de sua própria Helena.
Helena nunca havia trabalhado com a outra Helena. Quem diria, duas Helenas, uma escultora, outra pintora. Ambas trabalhando para um LaSombra de Domínio uma igreja. Honestamente, a Camarilla repetia alguns perfis de vampiro tão específicos, que fazia-a sentir-se até segura com a coincidência.
– Quer anjos metálicos? – Perguntou estendendo a folha enorme com o projeto.
– Não metálicos, mas, hmm, cintilantes, com um brilho sutil. Acredito que para um local de adoração, anjos são uma boa representação. Seu aspecto pueril, andrógeno e colorido vão trazer uma vida á um local subterrâneo. Além de ser um local de cacofonia incrível, quem sabe não tenhamos um dia, a visita no futuro de um coro para uma missa de domingo tradicional.
Helena solveu o argumento, raramente discutia com as visões de seu contratante, eram em geral desafiadoras, mas bem fáceis de executar tecnicamente. Trabalhosas, mas fáceis. Asas de anjo, poderiam ser mais desafiadoras, nunca as havia feito.
– Se a ideia é trazer cor, é melhor colocar cortinas vermelhas, vão destacar melhor as asas brancas.
– Brancas? – Questionou Eduardo.
– É, uai. Não quer anjos aqui? Se as cortinas são brancas, e as asas forem brancas, acho que não vão ter um destaque muito bonito, melhor deixar no tom do mármore.
Ele a encarou incrédula, com um sorriso como se seu comentário fosse bobo. Às vezes fazia isso, ficava mudo e surpreso com algum detalhe do que falava, como se fosse ela mesma uma criança de nove anos contando sobre o primário.
– O que eu disse? – comentou impaciente.
– Esqueço-me que é da época em que os anjos são brancos.
– Ah, quer pintá-los com asas negras? – disse Helena, pensando sobre a sombra do arcanjo que viu em sua visão semanas atrás.
Ele a encarou com um sorriso ainda maior, o que a fez sentir-se debochada.
– Me fala o que você tá pensando, eu não leio pensamentos! – Bradou frustrada, recuperando a compostura no segundo seguinte – Desculpe, erm, por favor, eu não estou entendendo o que quer dos Anjos.
– A ideia purista dos anjos sempre esteve presente, justamente em seus aspectos faciais andrógenos e infantis. Mas suas asas brancas são um momento… em que muitas vezes esqueço-me que aconteceu nas representações atuais.
Ele pegou um pouco dos giz secos e deixou a poeira sujar seus dedos antes de borrar a ponta do rascunho de Helena apenas para ver o desgaste da cor.
– Há alguns anos atrás, fui à Bélgica, mais precisamente na cidade de Gante. Hoje é uma cidade universitária, mas naquela época era um importante centro urbano e econômico. Enfim, havia uma catedral, a catedral São Bavão, onde tive a oportunidade de prestigiar um momento marcante no divino da arte.
Eduardo perdia-se em memórias e Helena sabia que quando buscava algo assim, era de vivências seculares. Até por que a cidade de Gante é uma cidade universitária desde os 1800 e alguma coisa, então seria algo interessante.
– A Pintura chamava-se O Cordeiro de Deus, Het Lam Gods, ou Adoração ao Cordeiro de Deus e era definitivamente um evento. Primeiramente, não era bem uma pintura, mas um retábulo, certo, um quadro com dobradiças para outros painéis, doze painéis para ser mais preciso. Então, muito mais complexo que o famoso O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, mas igualmente fenomenal. Ouso dizer, em minha humilde opinião, ainda mais fenomenal.
– Soube que quando foi encomendado pelo comerciante Joris Vijd, ele queria algo espetacular. E Ninguém melhor que Jan van Eyck para entregar uma obra como essa, onde espetacular é o adjetivo mais cabível para este trabalho, se não a única forma de realmente descrevê-la. Além de conter vários painéis detalhados em simbolismos, como Adão com Caim e Abel em pureza e Eva segurando o fruto, com Caim e Abel representando o “primeiro assassinato”, você também podia ver o cultuamento do cordeiro e os coros da igreja, MAS não era apenas ver… a luz e sombra da pintura eram tão perfeitamente sincronizadas com a janela da catedral que diante do retábulo você estava imerso nas mesmas luzes e sombras que a peça estaria.
Ele virou o olhar para o trabalho de Helena.
– Claro, que em meu caso, apenas sob a luz do luar em uma lua cheia e luminosa, mas ainda assim era possível sorver a luz da manhã. Entenda, a obra estava sempre na parede, mas fechada, pintada como uma janela, com profundidade para um corredor, a sensação que tinha era de que poderia tocá-la e meus dedos a atravessariam. Para vê-la aberta era preciso passar na catedral no domingo, ou em alguma data comemorativa especial, como páscoa. Tive a oportunidade de vê-la, mesmo que a noite, com o coro e até hoje os timbres das vozes daqueles meninos vivem em minha memória, quase como estampados pelas expressões esquisitas do coro representado, bem, cantores faziam essas caretas para alcançar as notas, mas não vem ao caso.
Eduardo limpou suas mãos na batina preta.
– O coro de uma capela, ainda mais naquela época nos anos XV, era magistral. Até porque toda capela de respeito era feita pensando nos ecos dos cantos dos coros, na voz de seus pregadores e na santidade do local. O abraço das vozes dos coros do passado até hoje me lembram o por que sou uma figura de fé, ou um pregador do divino. Quando vi o Het Lam Gods, eu entendi. Eu queria ser tudo naquela obra, desde o anjo, até os santos, até o cordeiro. Entendi o que era adorar e a potência desta ação. Na obra, nos muito simbolismos, desde o cordeiro, até a lança de longinus, os anjos tem asas coloridas, incluindo um com penas de pavão, lindas.
Eduardo cerrou os punhos, e Helena se perguntou se ia lavar as mãos em água quente como fazia todas as manhãs. Um hábito impossível de conhecer a não ser que tivesse passado algumas noites na Antiga Sé. Dizia ele que era uma promessa por ter adorado a um falso deus, que lavaria as mãos do sangue que derramou em pecado por mil anos.
Helena achava uma promessa dessas intensa, mas se perguntava mais ainda, quantos anos faltavam para cumpri-la.
– Mas tenho um apego ao anjo de asas vermelhas com o interior dourado. Aprecio também que cada anjo seja diferente, pois são. Todos somos. Ah, como amo a arte. Ela consegue canalizar o que não podemos ver. Jamais poderia fazer um canto de adoração tão divino quanto um coro de igreja dos tempos antigos. Também jamais poderia representar a magnitude do divino sem os arquitetos e suas visões estonteantes e claro, seus escultores.
Eduardo pegou gentilmente as mãos de Helena, contemplando a ferramenta no qual ela havia feito a estátua de si.
– Sabe Helena, eu não acho que o Divino pode ser compreendido por qualquer um. Acredito muito que não pode ser desbravado ou meramente visto, por isso não tem rosto, por isso nós também não temos.
Eduardo olha para a janela, como se pudesse ver seu reflexo. Havia algo ali, mas não uma silhueta de um homem, e sim um espectro sombrio e dinâmico.
– É por isso que não tenho reflexo. Como um anjo, não posso ser compreendido com os olhos, mas apenas com a arte. E apenas, parcialmente.
Eduardo deu um saudoso sorriso sereno.
– Ao remover de mim o reflexo, é removido também meu self, meu senso de mim. Claro, para um vampiro de hoje com fotos de sua identidade mortal o desafio de desconfiguração de si é diferente, mas a mim? Tudo que sempre tive comigo era meu reflexo, meu rosto. Ainda o tenho comigo, mas já não o vejo a séculos. Não posso estudar minhas feições, não posso atuar ou estudar meus sorrisos, mentir é um dos pecados que não posso cometer, tudo que posso fazer é ser.
Eduardo soltou as mãos de Helena, ambas igualmente gélidas. Helena não concordava em totalidade, mas nunca desafiava a fé do Padre, sabia que ele tinha uma costura bem precisa de fé e maldição, muitas das vezes mais valia escutar do que debatê-la.
– Pinturas sempre foram uma forma de reis e nobres se verem, muito mais que um reflexo em um rio ou num cálice de vinho, ou até em um velho espelho, dependendo de século. As artes de representação não são coesas com a realidade do pintado, mas uma perspectiva do pintor: luz, sombra, ângulos de perspectiva. Eu sou o que representam de mim. Não posso negar seus bustos, ou as pinturas, caricaturas que fazem de mim. Assim como muitos são fadados a contemplar seus reflexos e assumirem serem si, eu sou apenas o que sinto, sou apenas o que sou, pois não posso me associar ao que reflito. Não reflito nada.
– E não sou nada. Sou divino. Sou fé. Sou alguém com um destino.
Helena limpou a garganta, cortando a divagação do Padre.
– Então o senhor quer anjos coloridos no altar?
– Sim, precisamente.





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