Azul da cor do mar
Foi fácil para Luca se encantar por Joaquim.
Quer dizer, não foi à primeira vista como em uma novela bonita ou clichê, por mais que os cabelos curtos e dourados, sempre em um penteado bagunçado, brilhassem sob a iluminação de velas e refletissem nos olhos escuros do jovem malkaviano. Também não foi por conta dos orbes azuis-quase-cianos que transmitiam uma sagacidade que ele não conseguia decifrar — mas ele tinha que ser um pouco sincero e admitir que já se distraiu algumas (muitas) vezes naquele olhar. Mas foi tudo bem simples: se esbarraram numa primeira vez perto da Cidade Universitária, quando o refúgio de Luca ainda era por ali, e uma segunda no Humaitá, alguns meses depois, quando precisara de ajuda.
Ok, por partes: na primeira vez, Luca não sabia que Joaquim era vampiro, não sabia que ele era pesquisador e muito menos sabia seu nome no início. Quando contou do… problema, em seu refúgio, teve medo de parecer maluco: ele poderia ter poucos anos de não-vida, mas sabia que não era normal ver fantasmas. Não era normal tê-los em seu quarto, movimentando seus pertences e o incomodando ao estudar. Por isso, procurou alguém que soubesse lidar com isso — e a sua sorte era que existiam rituais que os afastavam, ainda que entendesse pouquíssimo desse campo.
Joaquim foi o recomendado para o seu caso, com suas mechas loiros, olhos azuis, calças rasgadas e diversos colares no peito. Não era quem ele esperava encontrar quando pensava em feiticeiro-barra-pesquisador, mas era melhor deixar seu imaginário de lado. Luca explicou-lhe as suas angústias, evitando encarar nos orbes ciano, e Joaquim parecia sorrir com o canto dos lábios achando graça. Escutou Luca reclamar de vultos que via, de sons que ouvia, de toques que sentia e se preparou para procurar quaisquer seres invisíveis que encontrasse ao passar do portão do prédio antigo na Praça da Bandeira. Subindo andares pelas escadas, agradeceu por não precisar respirar e não ficar sem fôlego — e se encontrou de frente à porta de madeira. Seu rosto franziu quando observou a bagunça no pequeno refúgio do malkaviano: um único quarto, com uma cama baixa com lençóis jogados, estantes que seguiam a altura do pé direito repletas de livros e persianas que pareciam presas com pregos às janelas. Mas, claro, não era para julgar ou arrumar o cômodo que estava ali; apenas fez o selo ao desenhar seus símbolos e jogou conversa fora, suas duas especialidades. Na verdade, Joaquim até argumentaria que sua melhor qualidade era a sua extroversão, junto a sua habilidade de conversar sobre qualquer coisa que viesse em sua mente.
E, quando perceberam, o horário ficou perigoso: o relógio eletrônico apitava às 03:43 (Joaquim definitivamente achou estranho, mas soube que não deveria perguntar sobre ao notar a expressão dolorida no rosto de Luca ao encarar as horas) e era necessário se despedir — existia um relatório ainda para ser feito e uma discussão sobre o pagamento dos seus serviços. Com essa menção, o malkaviano procurou por sua bagunça — o que um outro vampiro gostaria de receber em troca? Dinheiro? Livros? Favores? Sangue? — e Joaquim deixou-o nesse desespero por alguns minutos.
— Cara, deixa pra lá. Cortesia da casa. — O tremere se levantou da única cadeira que existia no cômodo e que havia posto de frente à cama de Luca para poder conversar consigo.
Luca o encarou com olhos que ameaçavam brilhar pela primeira vez naquela noite.
— É sério. Conversar com você foi bom, já basta. — O “não consigo te cobrar se você continuar me olhando assim” morreu dentro de sua boca, batalhando contra o tamanho de sua língua para não escapar. Ele bagunçou novamente o cabelo, olhou para os lados, tentando ignorar a bagunça, e pensou numa solução rápida: — Assim, a gente sai pra fazer algo e a nossa dívida tá quite. Algo me diz que você tá precisando mesmo sair um pouco daqui.
E foi feito. Acabaram por marcar de se encontrarem no Elísio, no Centro Cultural Banco do Brasil, e de lá falaram que iriam decidir como a noite seguiria. O horário marcado correspondia a algumas horas após o pôr-do-sol, e Luca nunca pensou que pudesse ser tão pontual quanto foi naquele dia. O garoto tentou se arrumar da forma que pôde — não era nenhum galã de novela, fosse das nove ou apenas uma Malhação — e decidiu esperar de frente à Candelária, onde julgou que veria caso Joaquim resolvesse passar por ali. Esperou minutos que pareceram séculos e mudou de banco — e quando os minutos se tornaram horas resolveu ir para o lado de dentro do edifício.
Ele procurou em seu diário a anotação que havia feito sobre esse encontro — não, “encontro” tem um teor muito romântico e aquilo era apenas a primeira saída de duas pessoas querendo se conhecer e cultivar uma amizade — porque talvez tenha sido uma piada cruel da sua mente (afinal, se Luca já era paranoico em sua vida, o seu abraço exagerou aquela inquietude). Mas sua própria letra não mentia: o nome de Joaquim estava envolto de setas que corriam até a data e a hora de hoje. O rubor da vida foi responsável por fazê-lo suspirar e, mesmo tendo sido deixado só, o malkaviano julgou ser melhor aproveitar o lugar: finalmente ter coragem de enfrentar sua nova realidade e se integrar com seus iguais.
Foi até a exposição no segundo andar, de um artista que ele não lembrava ter escutado sobre. O texto curatorial citava sua vida solitária e curta, envolvida por tentativas de fugir da própria realidade e dos fantasmas que o assombram. Em um dos tratamentos para suas condições, o artista descobriu refúgio na arte, mas ela só não foi capaz de salvá-lo. Era estranhamente familiar.
Luca encarava uma pintura emoldurada: uma rua deserta, fria, cinza, em contraste com os outros desenhos de festividades. Uma silhueta desfocada era a única representação de algo — ou alguém — na cena, e ela quase estava de costas ao público, se não fosse por um único ponto amarelo em um dos seus olhos. Ele ficou alguns minutos tentando entender por que a figura o encarava, como se debochasse ou também compartilhasse a sua solidão, e só notou que alguém se aproximava através do reflexo.
— Eu acho que é um olhar de culpa. — A voz era amigável, sem parecer carregar qualquer subtom por trás da simples frase, e Luca só pôde reconhecê-la na última palavra da frase. E, quando se virou, deu de cara com o rosto familiar: cabelo loiro, olhos claros, um pouco mais alto que ele (ele sempre foi tão mais alto assim do que ele, ou era apenas a plataforma das suas botas?), com as mãos nos bolsos do sobretudo escuro que não destoava do local. — A vida seguiu, todos os outros saíram e ele ficou para trás.
— Eu… — Luca pensou bem nas palavras que pronunciaria, antes de fechar a boca em um bico na esperança de refinar seu pensamento. — Acho que é mais do que culpa. Ele parece perdido, por isso procura por nós em vez de seguir a rua. — Talvez falasse por reflexo, mas foi o suficiente para que o outro jovem concordasse com a cabeça.
Joaquim não se desculpou pelo atraso num primeiro momento — ele apenas passou a seguir Luca pela galeria e discutir algumas das outras peças da exposição. O malkaviano também não o questionou sobre, mas um sentimento de alívio cresceu em seu peito ao perceber que não tinha sido deixado ali à mercê de outros membros que ainda não conhecia. Em poucos minutos, a atenção do feiticeiro de sangue passou das obras para a própria vida e, depois, para a vida de Luca: o tremere tinha uma facilidade em surfar entre assuntos que o malkaviano às vezes parecia não entender e se perder, mas em momento algum quis interrompê-lo ou reclamar. Bem, mentira, ele tentou interromper uma vez:
— Joaquim—
— Ah, pode me chamar de “Joca”. — Joaquim o cortou para falar de seu apelido. — Pra combinar com você. Joca, Luca, Luca, Joca. Quero dizer, não pra combinar com você, mas é que já era um apelido que eu já tinha. “Joaquim” parece muito formal.
Luca esqueceu sobre o que reclamaria ao perceber que Joaquim havia ficado sem jeito com a própria fala. Um riso baixo se formou em sua garganta e ele resolveu continuar caminhando ao seu lado pelo CCBB, ainda sem entender como aquelas horas poderiam servir para pagar seu crédito com o tremere. A dívida nunca foi mencionada — o máximo que ele fez foi perguntar se os espíritos haviam voltado e Luca teve de parar para pensar, o que já levou como uma resposta negativa — e vez ou outra seus braços se encostavam e se separavam com um pedido de desculpas. Algum tempo depois, seguiram suas não-vidas, com um estranho “nos vemos por aí” fechando o diálogo. Indo em direção contrária à Avenida Presidente Vargas, Luca pegou-se pensando no pesquisador mais do que esperaria.
Desde sua vida como mortal, coincidências não são algo que Luca desacredita e ele pensou que, talvez, Joaquim fosse somente uma coincidência — alguém que o “por aí” não fosse passar dessas duas interações. Até se esbarrar mais e mais vezes com o pesquisador e se ver ouvindo as suas reclamações sentado em um banco na madrugada de uma terça-feira, concordando com a cabeça de forma repetitiva durante toda a crônica. Por algum motivo, achava as histórias fascinantes: fosse pela dicotomia entre o conhecimento que Joaquim possuía com a falta de cuidado que falava, fosse pela forma que seus lábios curvavam quando se empolgava em alguém tópico ou fosse pelo novo mundo que parecia conhecer com aquele contato.
— Ah, cara, desculpa. Você deve estar de saco cheio. — Às vezes Joaquim entendia que o seu entusiasmo virava facilmente um mau-humor contagiante.
— Não! Pode continuar reclamando. — E Luca resolvia dar permissão para seguir.
Em algum momento dos novos meses de sua convivência, o silêncio tornou-se confortável, sendo interrompido pelo som de folhas, ampolas e um ou outro xingamento baixo que saía do pesquisador. Luca não sabia se isso aconteceu antes ou depois da primeira vez que conseguiu entrar na Casa dos Santos com a ajuda de Joaquim, mas a questão é que ele percebeu que a companhia do (agora) amigo o permitia baixar a guarda. Se ainda fosse humano, talvez até dormiria no assento de madeira, com o diário em mãos, deixando a caneta escorregar pelos dedos pálidos e riscar a página.
As visitas de Luca à Capela se tornaram corriqueiras depois de certo tempo. Era como se, em um determinado dia da semana, a cadeira que sentava à mesa no porão já esperasse a chegada do jovem malkaviano e guardasse todos os seus segredos ali durante as outras noites. Ele passava sem problema pelos pesquisadores da Casa, sussurrando “boa noite” e sorrindo sem graça para cada par de olhos que o encarava, até se encontrar no subsolo, de frente à porta da sala de Joaquim. Algumas vezes, Luca trombava com Evelynn, Cassandra, Victor, doutor José — mas o pior era quando encontrava Dante. As piadas que a Harpia contava esquentavam suas orelhas, os olhares travessos julgavam por trás dos óculos vermelhos e o sorriso de ponta a ponta não cessava nem quanto Luca retribuía seu “boa noite” e confessava que estava indo visitar Joaquim. Já o pesquisador só revirava os olhos quando via Dante acompanhando o malkaviano até a porta, o puxava para dentro e batia a madeira na cara do irmão enquanto recebia sermões do corredor.
Lá no porão, a conversa não era monopolizada por Joaquim, por incrível que pareça. Luca contava-lhe algumas premonições enquanto roía as unhas de ansiedade, procurando buscar nexo entre imagens, sons, cheiros e sensações. Às vezes ele e Joaquim conseguiam chegar a um acordo antes que suas cutículas começassem a ameaçar sangrar, outras eles discutiam amistosamente enquanto discordavam. O resultado geralmente não importava: Luca conseguia sair da sala horas depois mais leve, com um sentimento que a maior das empatias não conseguia categorizar em seu peito.
Sabe, não é amor — não que Luca fosse incapaz de amar, ou que Joca fosse incapaz de ser amado, muito pelo contrário! —, mas era um carinho que o aquecia. Talvez fosse o rubor da vida (seu ceticismo o fazia não excluir essa possibilidade) fazendo o seu coração bater e a pele queimar, talvez fosse seu cérebro pregando peças e errando as sinapses que deveria fazer, talvez fosse um apreço pela voz que se tornava melódica a cada risada, talvez fosse… um carinho que crescia pelo dono dos olhos azuis e que Luca preferia ignorar do que ter de lidar com. E isso sequer deveria ir além do que um bobo e ingênuo pensamento que cruzava sua cabeça toda vez que encarava Joaquim.
Viu? Não é amor. Se fosse, Luca saberia dizer.
(Na verdade, essa era só mais uma das mentiras que ele gostava de acreditar: Luca não saberia identificar o que é amor por não acreditar que devesse ser amado — quando acreditou, recebeu essa maldição. Era como um mecanismo de defesa que havia descoberto durante seu abraço.)
— Luca? Você tá bem, cara? Você parece um pouco pálido. — Era uma das piadas recorrentes de Joaquim. Olhando ao seu redor, Luca foi puxado do canto frio e solitário da sua mente de volta para a mesa do tremere e ele já não sabia se poderia agradecê-lo novamente por tê-lo tirado de seus próprios pensamentos.
— Ah, hm… O que você falou? — O malkaviano se ajeitou na cadeira, olhando para seu diário em uma tentativa de evitar contato visual. Rabiscos de Joaquim apareciam entre algumas anotações feitas durante a noite e, quando ele percebeu, fechou o caderno em vergonha. — Eu tô bem sim, talvez só… com fome. É. Mas não é nada que você deva se preocupar.
— Eu posso te ajudar se você quiser, sabe, — o tremere comentou baixo, coçando a cabeça enquanto também se recusava a encarar os olhos castanhos e vazios de Luca, que só arqueou uma sobrancelha. — Não desse jeito, claro! Mas é que…
Joaquim parecia engasgar com as palavras, mesmo tentando manter uma postura mais séria. Sua atenção foi às paredes, à prateleira de livros, aos pergaminhos a sua frente — tudo que pudesse fazer para não cruzar a visão com o jovem naquele cômodo, uma vez que já achava a situação vergonhosa o suficiente. Ele parou um momento para rebobinar seus pensamentos, fechar os olhos e, caso fosse mortal, até suspirar, antes de continuar:
— Você tem essa carinha de filhote de cachorro com fome, sabe? — Externou um dos primeiros pensamentos que teve ao cruzar caminho com Luca, dessa vez já sem se preocupar por conta da proximidade entre os dois. E, sobre a afirmação, bem… Luca não sabia. — Eu sinto… cara, não dá pra ficar com raiva.
O relógio tocando anunciou uma nova hora e interrompeu a conversa para avisar o início da madrugada. Geralmente, era essa a deixa para que o malkaviano começasse a se despedir, sem precisar mais atrapalhar o pesquisador em seu trabalho. E Joaquim tinha razão: Luca começava a se sentir faminto e era necessário tomar alguma providência sobre isso antes que a própria mente ficasse mais confusa do que o normal. Era um hábito um pouco falho: o malkaviano deixava a noite correr para poder caçar durante as altas horas da madrugada, mas, quando passava tempo com o tremere, se perdia em seu próprio horário.
Ele levantou-se lentamente, apoiando a bolsa-carteiro que carregava na mesa para poder guardar seu diário. Por alguns segundos, se distraiu em como o cabelo do tremere caía ao redor do seu rosto, mesclando-se na penumbra com a sua pele — era um louro brilhoso, mas também um pouco acinzentado. Achava a cor bonita. Joaquim percebeu o par de olhos em si, mas evitou contato antes de pigarrear e continuar:
— Esquece, tá. — Luca assentiu e deu de ombros. Continuou sua arrumação, colocando sua caneta próxima ao estojo que também guardava um dos cristais que Joaquim o deu ao realizar um ritual para ele. Ainda precisava arrumar um local melhor para exibi-lo, fosse em seu próprio quarto ou preso em um pingente em seu pescoço, mas sua cabeça sempre estava cheia demais para conseguir pensar em algo assim — de qualquer forma, era uma das relíquias que guardava do amigo. O tremere pareceu perceber a distração e correu para não deixar o silêncio desconfortável reinar até Luca ir embora, ainda que soubesse que aquilo não o afastaria:
— Olha, eu consegui um par de ingressos pra um musical no fim de semana e queria saber se você quer ir comigo. — Joaquim coçou a cabeça, curvando a postura antes de empurrar um livro para o lado para poder apoiar-se à mesa.
A imagem do pesquisador não era algo que Luca não estava acostumado, pelo contrário: ele já sabia que Joca gostava de usar camisetas por baixo do sobretudo e as suas calças nunca eram tão apertadas ou muito largas, mas geralmente eram jeans. Ele tinha a mania de trocar as joias que adornavam a sua orelha em algumas noites e o malkaviano sempre pensou em perguntar se cada um daqueles piercings tinha doído ou não. Luca gostava quando elas eram de aço preto e com algumas pedra roxa ou vermelha, mas dourado também combinava com seu cabelo, como uma última visão do Sol na praia, e prata brilhava como a Lua em junção dos seus olhos. Algumas vezes, quando o observava se espreguiçar, o malkaviano podia jurar que havia visto alguns desenhos na pele do amigo. Ele admitia que já havia fantasiado sobre o que a tinta pudesse significar: via algo escrito na lateral de seu abdômen e uns traços retos no interior no braço direito de Joaquim, quando ele retirava o sobretudo pois “estava muito quente” dentro do porão. Talvez as artes fossem algo relacionado ao ocultismo, talvez fossem só uma frase que ele gostava de algum livro favorito, talvez fossem a data de nascimento de alguém importante ou o nome de alguém.
Algo clicou em sua mente quando pensou nas desculpas de Joaquim. Por Deus, vampiros não sentem calor. O pesquisador estava caçoando de si toda vez que usava essa desculpa.
Mas, claro, Luca, de volta à pergunta.
— Num teatro? — Achou que o questionamento era válido: ele e Joaquim já haviam ido ao cinema juntos, andando por Botafogo. Teatro parecia algo mais importante.
— É… Assim, você tem cara que curte um pouco isso e eu pensei “ah, por que não convidar o Luca”. — Deu de ombros e o malkaviano o observou com atenção. A reação não convenceu muito Joaquim, que resolveu vender seu caso mais um pouco: — Não que você tenha que ir. Se você achar um saco eu repasso esses ingressos pra alguém ou algo assim, vai ser fácil. Quero dizer, talvez não seja, mas eu realmente não queria ter que deixar de ir porque não tenho companhia.
A ênfase no “realmente” e a mudança súbita de opinião fizeram um sorriso crescer entre as bochechas de Luca e Joaquim perceber que seu charme estava sim funcionando. O semblante do malkaviano foi suficiente para que um suspiro vitorioso escapasse dos lábios do tremere junto a um “ufa!”.
— Eu quero, sim. Se você não tiver mais ninguém com quem prefira ver… — No fundo, Luca esperava que a resposta fosse “não”, mesmo que também estivesse somente retribuindo as expressões do amigo. Não foi necessário apelar para um bico ou qualquer microexpressão para fazer Joaquim se aproximar do outro e já o cortar:
— Eu quero ver com você. — Joaquim estava próximo o suficiente para conseguir chegar perto do rosto de Luca e tocá-lo com a mão. Não foi feito um carinho ou algo do tipo, pelo contrário: usou o polegar e o indicador para apertar a boca do malkaviano entre aquele espaço, forçando a carne em um bico. Achou graça. — Tá, eu prometo chegar no horário no dia. A gente pode até sair daqui.
Luca tentou pronunciar algo evitando morder o interior das próprias bochechas. Não conseguiu, mas também não foi mantido naquela posição por tanto tempo: logo Joaquim o soltou e levou a mão para bagunçar os cabelos castanhos do amigo. Ajeitou-os logo em seguida e encarou o malkaviano como se esperasse algo que demorava a vir, mas não conseguiu identificar se havia alguma intenção por trás dos olhos escuros.
— Eu venho para cá. É, a gente se fala, eu acho que é melhor eu ir indo… — Luca arrumou sua bolsa rente ao corpo, balançando-se para frente e para trás enquanto seguia em direção à porta. Joaquim o acompanhava, mas não parecia satisfeito: as suas sobrancelhas se franziram e, mesmo o malkaviano estando de costas, ele sentiu a revirada de olhos que recebeu ao tocar na maçaneta.
— Uhum, — Joaquim pigarreou para chamar a atenção do amigo. — Só isso? — Luca o olhou confuso. — Não vai me agradecer?
Bastou Luca se virar que o pesquisador diminuiu ainda mais a distância entre ambos e fez o inimaginável: enquanto o malkavianos abria os braços para um abraço — costume que ele e Joaquim haviam criado após noites de conselhos —, o tremere pensou à frente, selando rapidamente os lábios contra os do amigo. O que se iniciou como um selinho para pegar Luca desprevenido (o que, diga-se de passagem, deu muito certo) se encaminhou para um beijo mais profundo, onde o malkaviano era pressionado contra a porta de madeira e Joaquim aproveitava para guiá-lo. Luca não soube onde colocar as mãos: elas repousaram nos ombros do amigo e depois subiram à sua nuca, como se procurasse esquentá-lo em vão com seu toque, passando pelos cabelos que ali eram curtos. O contato não durou muito — não por falta de ar, obviamente, mas porque o pesquisador sabia que deveria ir devagar com Luca: depois de observá-lo por tanto tempo, sabia que cada segundo contava para poder impedir uma confusão mental.
Os olhos arregalados de Luca tiraram um breve riso de Joaquim.
— Pronto, de nada. Pode ir agora. — Antes que o malkaviano pudesse reclamar, Joaquim já girava a maçaneta para que pudesse passar, em um sorriso cínico e vitorioso. Sabia que Luca não conseguiria reclamar, ainda mais pela dificuldade em fitar seus olhos, e utilizou-se disso de vantagem para si. — A gente conversa mais no dia da peça.
Existiam algumas coisas que ninguém poderia saber. A primeira era que ninguém poderia saber que Luca saiu como um projétil da Casa dos Santos, procurando não ser visto por qualquer pessoa que ainda estivesse no laboratório (ele certamente entraria em combustão se qualquer um perguntasse sobre os últimos minutos), muito menos descobrir o motivo atrás disso. A segunda era que ninguém poderia saber que Joaquim continuou o olhando até que o malkaviano sumisse de sua visão, para apenas fechar a porta em uma batida e deixar o corpo cair mole enquanto se apoiava nela, com as mãos entre os fios de cabelo depois de apertar o próprio rosto (ele também não estava envergonhado. Claro que não, onde já se viu uma coisa dessas?! Joaquim conseguia sustentar todas as suas ações sem medo algum). Afinal, ele precisava manter uma postura para conseguir se provar. E a terceira era que Joaquim não suportava musicais, mas precisava de uma desculpa para seu plano.
Para Luca, porém, o que importava é que os olhos que acompanhavam em mente o seu percurso pelo Humaitá eram azuis — a mesma tonalidade que se lembrava de ver pela última vez o céu ensolarado refletido na água.





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