Morto, demasiado morto
- Catherine Vitagliano

- 2 de mar.
- 7 min de leitura
{Uma carta é entregue em mãos ao Coelho na Toca.}
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Caro G.,
Este mapa é tão seu quanto meu.
Sangue e borda,
C.S.V.
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Este é um mapa para aqueles que andam e olham para cima, para os que observam por entre rachaduras, frestas e fechaduras, para aqueles que passam por um portal de vila e sentem a diferença.
Para aqueles que até gostam da golden hour, mas inspiram fundo só no anil do poente e nascente.
Para os andarilhos de borda.
Um buraco na cidade. Ilha de margens para fora- não para dentro -e que bastavam em si. um terreno baldio porque sim. A Decoração invisível porque óbvio- para os inteligentes.
e O clássico seguir o coelho branco através da Toca porque: na Kamarilla manda quem pode, obedece quem tem juízo; sou Maluco, não doido.
A teia era densa ali.
Noite semiurbana abandonada, algo festiva e decadente. Como em uma festa de São João em subúrbio antigo, um acampamento com fogueira nas férias ou um circo nos arredores da cidade.
Onde você sente a magia nas pontas dos pelos da nuca e dos braços... e acha que está seguro na luz, mas evita olhar para a escuridão.
Seguimos por um pequeno labirinto de madeira, tomado o chão por colorida tapeçaria e as paredes por desenhos infantis que eram e não eram só isso.
Passamos por porverdidos, pargarávios, jaguadartes...
Nos guiando havia fios de lâmpadas incandescentes sob nossas cabeças.
Para um vampiro com a idade certa, a noite amarelada era agradavelmente nostálgica.
Nossos frios mortos corpos caminhavam por cálidas memórias em viva magia nas pinturas juvenis. Para os outros mortos que me acompanhavam eram no máximo uma vaga e indiferente lembrança reminiscente, uma excentricidade malkav qualquer e só.
Aqui ou ali ouvi o som de gelo rachando, de espelho quebrando. Eu vou atravessá-lo ou ele a mim?
Senti que nesta noite andaria pelas bordas, coração primeiro. Haveria nele o suficiente para sangrar ou seria sorte até mesmo ecos?
Olhei para os outros mortos, como conseguiam ser eternamente mortos? Hábito que trouxeram da vida? Inércia desde antes do abraço? Nenhum enrijecer de mandíbula, nenhuma tensão nos ombros, punhos fechado, nada? Só o rigor mortis mesmo?
Ou eu que sou apenas um hipster niilista em redundância pirado?
O cheiro era bom e doído. Não saberia dizer se pela saudade ou apenas pela constatação das bordas do buraco. Infância. Cheiro de desinfetante de lavanda e pastel de carne moída da feira. Meu cheiro de criança do concreto.
Cheiro de leite de rosas.
Quando foi a última vez que pensei nela? Apenas na primeira noite após o abraço e nunca mais? Eu realmente lembro dela?
De sapatos vermelhos e terno branquinho, esse é O Coelho, o chicote doidinho. Primeiro ele estava aqui, depois ali... e isso me pegou muito.
Missão dada por ele- o Chicote Malkaviano -e em frequência amaldiçoada nós fomos transladar uma alma penada.
O desígnio poético de Robin nos proporcionou ouvir os ainda mais mortos.
Ou no caso as mais mortas mas igualmente doidas, partimos para uma plantação de fantasmas em um antigo hospício feminino. Créditos devidos aos Nosferatus anarcas, essa loucura em específico não é do meu clã não.
Partimos enfim, mas não sem antes me partir ao meio.
Primeiro o Coelho quebrou os meus sentidos, pegou metade para si, entregou uma metade dele para mim. As bordas do Cartógrafo e do Coelho começaram a sua interseção.
Em um olho era possível ver o Coelho olhando para o Cartógrafo. No outro era possível ver o Cartógrafo olhando para o Coelho. Olhei para baixo focando com o olho esquerdo para ter uma visão mais familiar de mim mesmo. Foquei no olho direito, que não me obedecia, para ver a mim mesmo por uma borda nova.
Cacete eu sou feio.
Dente torto e amarelo, gordo, belas tetas, ok. Mas morto. Demasiado morto. Segurei a tentação de ativar um rubor da vida. Eu me via intensamente morto.
E a depender da minha covarde inércia isso vai ser eterno. EXATAMENTE o que um niilista sempre sonhou.
Nunca me vi tão morto. O espelho não faz jus comparado a se olhar literalmente pelo olho de outro ser.
Fiquei aliviado pela minha bad trip de ácido de sangue de se olhar no espelho de olho de outrem ter sido interrompida por mais uma interseção.
Não sei o que o mágico malkaviano fez, mas agora éramos o mágico, o coelho e o cartógrafo (outro dia penso em uma piada com isso) em uma amálgama de sentidos e lembranças.
O caminho de tijolos amarelos (pera, esse é outro livro), o caminho para quem não sabe para onde vai zanzava pelas lembranças do Coelho.
Esta entidade tríade teve uma mãe que, de vestido azul e voz de contralto, nos ninava e a outros três pequenos coelhos. Em diminuta estatura, a abraçamos na altura das grossas pernas, recebemos um afago na nuca e nos sujamos na farinha de bolo de cenoura de seu avental. Sorrimos para cima franzindo o nariz, mamãe sorriu de volta e com ternura limpou nosso pequeno rosto.
O nosso rosto agora eternamente frio. As mãos dela barro e pó.
As antes grossas pernas tremiam magras e flácidas em um vestido azul grande demais. Frágeis, tão frágeis. O lindo cabelo estava grisalho, embolado, unhas sujas, escaras de decúbito, o olhar... Do olhar quebrado faltavam pedaços, cada borda para dentro nos sangrava.
Nem barro- nem pó -trouxeram paz.
O olhar passou à transparente textura, em assombrosa eterna dor alucinada.
Fugimos sangrando impotência. O Coelho sangrava por todos nós. Eu me afogava.
Voltamos a ser "apenas" dois. Foquei nas minhas tetas pelo olhar do Coelho. Um belo número primo de carne fria.
Fomos para a plantação.
Um estrangeiro para se tornar um homem da tribo deve beber hidromel, matar um urso e trepar com uma nativa. Bêbado ele foi atrás do urso. Retornou vivo, todo arranhado, e perguntou: agora tenho que matar quem mesmo?
Todos rimos e consegui focar o olho esquerdo no Magic Malk. Eu adoro esse cara.
Consegui comprar um coelho de pelúcia no caminho.
Chegando no local aproximado, pude sentir a angústia do Coelho crescendo novamente. Imitei com a minha mão direita a contagem dele com a ponta dos dedos passando apenas pelos números primos. Em um flash que apenas eu percebi: uma sala de aula e a nossa mãe vindo nos buscar- uma última vez -após uma lição de matemática... Senti a metade do corpo dele relaxar.
Quando eu era criança jogava Mário Kart com a tela dividida. Às vezes confundia qual era o meu carrinho (e eu nem fumava na época).
Bem, consegui guiar o grupo até as fantasmas, certamente não pelo caminho mais direto, mas chegamos.
Nem todas estavam com as vestes do hospício, mas todas apresentavam sinais do descaso institucional e carregavam isso em seus corpos espectrais- eternamente. Aquilo nunca foi um hospício, era um depósito enlouquecedor de indesejadas. As que olhavam e viam começaram a se afastar.
O outro malkaviano fez um lual de Chico Buarque para elas. Funcionou. Dançamos eu, as fantasmas, o Magic Malk e o coelho -de pelúcia.
Achei o vestido azul.
Chamei a atenção dela com o coelho de pelúcia, esperando que ela viesse até mim no ritmo dela. Magic Malk tentou persuadi-la a falar o próprio nome. Ele costuma ser muito convincente, mas ela estava além das palavras. Tudo o que entendemos pelos balbucios é que ela precisava se curar para poder voltar para os coelhos dela.
Tentei convencê-la de que ela estava bem, que ela já havia se curado. Sem sucesso. Ouvi apenas no fundo da minha mente a voz do Coelho "Como se curar do que nunca esteve errado?"
É tarde. É tarde. Tão tarde até que arde. Ai ai, meu deus, alô adeus, é tarde é tarde é tarde...
Voltei para o caminho das memórias. Mas dessa vez eu sabia aonde ir.
Saí das bordas e fui para o cerne, para os pilares, para o substrato de significado que precede às palavras, matéria-prima do hipocentro ao limiar.
Lá achei a voz de contralto e a senti antes de ouvir a canção de ninar.
Posicionei o coelho de pelúcia olhando para nós e comecei: Neeeesse muuuundooo só meu...
Fiz o coelho de pelúcia olhar para ela como se esperasse algo. Ela continuou sem quebrar o ritmo:
Meus coelhinhos, iam ter um lindo castelinho
e andar todos bem vestidinhos
Neeeesseeee muuuuundo só nosso.
Aproximei timidamente o coelho para que ela pudesse acariciá-lo.
Foi um erro. A mão dela o atravessou. Ela se encolheu como se tivesse se queimado.
Em uma caixa de madeira segurada por um Nosferatu, de um grilhão, a âncora, um pequeno boneco de trapos de uniforme com orelhas compridas, emanava tanta tristeza que qualquer malkav conseguiria identificar. Um dos meus companheiros mortos acendeu um isqueiro.
Assim não. Não seria o suficiente, não para nós.
Não havia nada que eu pudesse fazer. Mas pedi ao Coelho que falasse como estava bem agora, como sabia cuidar dos nossos irmãos, como ela sempre foi importante para todos nós.
Fiz do coelho de pelúcia uma marionete para falar tudo isso para a nossa mãe. Complementei que ela já estava conosco e cuidando de nós, não precisava tocar; bastava ver, ouvir e cantar. Ela cantou -era essa a cura- e que ela já estava conosco e com os nossos irmãos, isso era claro como eu -o coelho- na frente dela.
Dissemos a ela que ela já poderia ir para o nosso lindo castelinho e nos encontrar lá -no mundo só nosso...
Para sempre
O grilhão pegou fogo e se desfez. Ela desapareceu.
Sorrindo.
Meu olho direito era puro sangue.
Trouxe comigo o coelho de pelúcia e uma pedra do local em que nossa mãe fez finalmente a passagem.
Voltamos para a toca. Se antes os desenhos infantis das paredes me doíam pelas bordas, agora eles metiam os dedos nos buracos das minhas feridas recém abertas. A lembrança do sorriso, o coelho de pelúcia e uma pedra eram o que me mantinham em pé.
O Coelho nos agradeceu e chorou sangue por um terceiro olho que surgiu e desapareceu em sua testa. Fiquei para trás para entregar o coelho de pelúcia a ele. Nos abraçamos duplamente, eu também me abracei e ele a si mesmo, tudo ao mesmo tempo. Foi confortável como chegar em casa. Olhei uma última vez para as minhas próprias tetas daquele ângulo, ele me devolveu a minha metade dos sentidos e pegou a dele de volta.
Me senti solitário.
E pensar que eu vim para o Rio de Janeiro para morrer de forma interessante, mas ainda há esperança...
Levei a pedra que trouxe comigo até uma praça arborizada na zona sul na qual eu sabia que havia coelhos. A depositei ao lado de uma toca e ativei meu rubor de vida -para sangrar pelos olhos como há muito eu não fazia...
Quem sangra está vivo?
Como teria sido me masturbar em amálgama? E beber sangue?


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