
Mais uma noite amaldiçoada.
A eternidade lhe soava muito mais glamurosa que os arredores úmidos no qual você se encontra. A escassez de luz que antes lhe assombrava, agora mais parece uma benção a protegê-lo da vista dos corredores grotescos à sua volta, ainda bem que seus receptores olfativos já não são mais os mesmos também, pois suspeita de que as águas nos qual seus passos ecoam, não sejam das mais limpas.
Estes são os labirintos de esgoto do Rio de Janeiro.
Caminhando pelo que parecem horas, sem sinal de tecnologia, finalmente encontra à sua frente, uma parca luminosidade, e seguindo por ela, uma pequena subida.
Poucos degraus escuros desembocam em uma porta giratória.
Sem grandes avisos, seu ambiente penumbroso e molhado torna-se uma nostálgica localidade: uma vídeo locadora?
Altas estantes com caixas plásticas de fitas de vídeo, separadas em gêneros: ação, comédia romântica, mistério. Prateleiras com personagens clássicos cinematográficos, pôsteres e claro, três mesas, uma em cada corredor da longa sala peculiar.
Embora haja três mesas, encontram-se apenas duas figuras no ressinto, ambas horrendas. Caracterizados com a maldição da repulsividade, um deles observa sua chegada, tem os lábios pintados de preto e as enormes orelhas furadas, a cabeça coberta em pregos e um caricato desinteresse em sua presença. Outro, vestindo um casaco de patchwork de diferentes tons de couro, levanta o rosto com olhos irregulares e fala sob seu semblante monstruoso:
— Bem vindo à Locadora, somos o Clube dos Cinco, eu me chamo Frank e serei seu atendente esta noite. Posso ajudá-lo?
Aquilo parece algo tirado de um sonho. A sala com brinquedos, os filmes, as cortinas vermelhas escondendo outras passagens, o som do ventilador de teto e o aroma artificial de tutti frutti de perto do jarro de balas de cima da mesa.
Frank, estende a mão de dedos tortos e pelos nas juntas, segurando um pequeno cartãozinho de papel.
— Eu disse, posso ajudá-lo?

