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O Diário de Dante, Tremere.

  • Foto do escritor: JP
    JP
  • 18 de jan.
  • 6 min de leitura

No inimigo secreto da Capela dos Santos, os presentes podem ser qualquer tipo de porcaria semi-inofensiva enfeitiçada, e nem sempre quem presenteou se revela, mantendo-se verdadeiramente oculto. Dante preferia ter ganhado uma Gárgula de Natal, se pudesse pedir uma troca.


Ele não fazia ideia do que fazer com aquele livro em branco, protegido contra carniçais e cainitas. Quem quer que tivesse lhe dado algo desnecessariamente protegido esperava o que?


Mas, a cavalo dado não se olha os dentes.


Então, numa noite monótona, nos fundos escuros da capela, cercado de caixas de papelão antigas, deitado num colchão emprestado e apoiado em seu velho travesseiro, no silêncio sepulcral quebrado pelo ruído de sucção que o Tremere fazia ao beber de uma bolsa de sangue velha guardada na bolsa, Dante estalou os dedos, apanhou uma caneta, deu dois cliques e começou a escrever.


“Querido diário, (irônico, já que não sou mais diurnal),


Sim, vou rabiscar meus pensamentos mais íntimos nesse monte de papel besta e iniciar minha escrita como se fosse uma menininha, enrolando os cabelos e mordendo a ponta da caneta, espiando a porta com medo do papai entrar no quarto e perguntar o que estou fazendo ao invés de ir estudar.


Puta merda, — perdão pelo xingamento, e sim, haverão mais! —, mas quem inventou isso de querido diário? Aposto que algum desocupado do clã da lua. Enfim. Lá vou eu. Mas antes, devo me apresentar. Etiqueta é importante.


Em vida me deram outro nome, mas agora atendo por Dante, e essa será minha alcunha. Sou um Feiticeiro da Capela dos Santos, e recém-oficializado como uma Harpia, muito prazer. Ouvi um espectro dizer que escrever um diário poderia ser uma experiência interessante. Marcar minhas vivências em páginas, deixar um registro tão vulnerável assim existir. Expor o que realmente penso, o que realmente sou, sem máscaras ou atuações.


Acho arriscado, mas desde quando isso me impediu? Já sou um Membro da Noite há alguns anos. Poucos, muito poucos, em comparação a maioria dos outros que conheci, é verdade. Fui uma criança noturna praticamente autodidata depois da minha “emancipação”, mas estou aprendendo rápido, ainda mais agora que tenho professores decentes.


Desde o ano passado, me envolvi em todo tipo de situação empolgante, humilhante, perigosa e excitante enquanto tentava entender o que eu queria fazer com a minha existência. Já fui enganado por falsos primogênitos, por dragões se passando por outras pessoas, minha mente controlada para que eu não pudesse falar sobre algo do qual eu ainda não posso falar (merda!). Fui sequestrado, malquisto, ameaçado. Já até perdi meus olhos, certa vez.


Tudo isso, e eu não sabia se deveria ser um verdadeiro monstro, ou ficar eternamente saudoso da vida que perdi no mundo diurno. Mesmo quando passei por um momento baixo causado por irresponsabilidade opcional pura, e vi que nem mesmo minha saudosa mãe mortal conseguia mais me acolher e confortar, ainda me sentia um farsante. Achava que a não-vida jamais valeria a pena, que seria eternamente miserável por dentro e ostentaria sorrisos falsos e discursos caprichados por fora.


E, escondendo isso atrás do meu jeito debochado de ser, até podia parecer que eu tinha controle de alguma situação. A princípio, eu genuinamente não fazia ideia do que estava fazendo. E se houvesse a possibilidade de uma Morte Final, talvez eu estivesse, conscientemente ou não, dançando com o barqueiro. Eu mal havia aprendido a jogar.


Até porque, ser o que eu sou, um Tremere, era só uma nota de rodapé na loucura que se tornou a não-vida pós-Abraço. Eu não me importava com clãs, certamente não com o meu próprio. Toda ação era tomada com o intuito de sobreviver e prosperar, seja lá o que significasse prosperar. O único outro Tremere que eu havia conhecido e tido como referência era o meu “Criador”, Elias. Aquele ruivo filho da puta. Se arrependimento matasse, talvez eu morresse de novo.


Não foi por falta de aviso, mas desafiei tudo que eu conhecia e todos que eu amava por ele, quando mortal. Fui ludibriado por aquela língua de seda, que dizia ver e sentir algo a mais em mim, que eu brilhava, que eu era diferente. Acreditei nas promessas de liberdade, de magia e de amor. De viver uma vida sem culpa, sem vergonha, para sempre. E então, eu não atendi às expectativas do desgraçado.


Só que o estrago já foi feito, e não vai haver volta. Não vai haver uma linda Aruanda esperando por mim, e eu não estarei com minha família no final de tudo. Não haverá evolução. Talvez nunca tenha havido, com o pouco conhecimento que tenho sobre o outro lado do véu.


De qualquer maneira, basta dizer que eu não tive um Senhorzinho amoroso e paciente para me ensinar, — história da minha vida, e não-vida —, a ser o que eu sou hoje. Me virei do jeito que pude, com os dons que tive que implorar para o canalha me ensinar, antes dele partir sem olhar para trás. Espero que ele tenha se afogado no abismo.


Passei as noites do último ano sendo um capeta filho da puta? Sim. Fazendo muita merda, ferrando algumas pessoas, arruinando outras, contando segredos e devendo favores a indivíduos perigosos? Também, mas ainda estou aqui, ao contrário de alguns.


E dessa vez, já não estou mais tão sozinho assim.


Desde que comecei a me envolver mais com os outros Membros, me sinto melhor. Mais amparado, talvez? Mais preparado. Seja por conexões firmadas por conveniência, para manter um segredo sombrio ou por “amizade”, — não que isso exista para gente como eu —, ter aliados torna a não-vida bem mais suportável. Certos indivíduos tornam ela, além de suportável, empolgante, pois nunca sei exatamente quando os verei, mas sei que a noite em que o encontro acontecer será uma para se lembrar.


Me refiro a uma Rata, a uma linda Rosa, a um Lobo com um estiloso óculos vermelho, a um curioso motoqueiro do Clã da Caça e, bem, talvez, — só talvez mesmo —, até mesmo a um perigoso Lasombra. Embora eu jamais fosse dizer, e eles jamais lerão isso, cada um me ajudou a entender como nossa sociedade funciona. Por escolha ou por necessidade, alguns laços forjados por sobrevivência persistem e nos mudam, ficando conosco para sempre.


E claro, me refiro acima de tudo à Capela dos Santos e ao seu regente, minha Primigênie. Um juramento de servidão por dois anos feito ao grande inventor abriu as portas para todo tipo de novidade e mudança. A chance de me envolver de verdade com meus Parentes de Sangue. Não posso dizer que me arrependo. Muito pelo contrário, sinto que estou melhor agora que tenho uma causa e uma Casa para defender e honrar. Alguém que eu admiro, alguém que eu quero que me veja com orgulho. Isso me faz lembrar de quando eu era vivo e ficava indo ao templo da fé em que eu acreditava, com meu sacerdote e irmãos de fé. Agora, meus irmãos “de santo” são meus irmãos de Sangue, e eu sigo alguém que é genial. Dizem que nós, Tremere, éramos ligados por laços obrigatórios de servidão, forçados a obedecer e a seguir uma Pirâmide rígida e cruel.


Parece comum, então, que agora que nosso sangue não pode mais enlaçar outros membros, fosse abominável a ideia de permanecer nesse formato que ainda seguimos. Mas, verdadeiramente, não acho ruim seguir ao senhor da capela. O faço por uma escolha devocional sincera. E isso me faz bem. Me dá um propósito.


Eu costumava odiar a ideia de ser um Membro. Era solitário. Mas, tal como foi antes, eu só precisava encontrar as pessoas certas, frequentar lugares que me fazem bem e ousar ter experiências novas, com pessoas novas. E caso queira saber, seu diário intrometido, ultimamente tenho tido cada experiência nova… Até as certezas que carreguei sobre a frieza do meu corpo em seu estado atual foram quebradas.


Às vezes, me submeter a um Sonho e seus caprichos pode ser a decisão mais deliciosa a se tomar. E os Beijos, especialmente daquele lindo Chicote Selvagem, minha nossa! Meu coração inerte poderia palpitar de novo só de lembrar. O clã das Feras sabe como mexer com certos instintos, sabia? Se eu tivesse uma moeda para cada Membro mais velho que me ofereceu provar da vitae deles nesses últimos tempos… já poderia começar uma pequena coleção, arriscando a inveja da Guardiã do Elísio.


O que foi? Até um garoto estudioso e dedicado como eu precisa se divertir durante as noites. Nem só de sangue sobrevive um morto-vivo, e nem só magia interessa esse Tremere aqui, tá? Eu não sei quais mistérios o futuro guarda, mas pretendo descobrir, e aprender mais ainda sobre o que está oculto nessa cidade maravilhosa, literalmente cheia de encantos. Finalmente me sinto empolgado para a não-vida.


Farei como meu homônimo e irei caminhar nos círculos mais medonhos e perigosos, vendo todo tipo de demônio. E farei disso minha nova ambição, descobrir o máximo que puder. E se ela for minha ruína, ao menos será uma que não me arrependerei de ter perseguido. Agora, se me der licença, tolo diário, a noite é longa e eu não vou gastá-la no porão da capela. Nós temos mais o que fazer, talvez uma, duas ou três boates cainitas para visitar. Se for perigoso, melhor ainda.


Carinhosamente, mas nem tanto assim,

Dante.”

 
 
 

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