
Em sua residência, pode calmamente entrar em torpor.
Como um pequeno timeskip, uma vez que seu estado de inércia não se equivale completamente ao sono, mas sim a um estado de esforço mínimo na manutenção de sua não vida, para evitar o contato com a fatal luz do sol e seu calor.
Já não se lembra mais do que é dormir, tampouco sonhar.
Sente que sua fome é um pouco mais intensa que na noite anterior, porém ainda está sob um razoável controle. Está sempre com fome, mas nunca com a mesma fome.
Infelizmente, o tempo passa e está em serviço.
Nunca é bom desagradar os mais velhos.
O endereço de seu comissionador não é o mesmo no qual tudo foi acordado. Ele havia o chamado a um pequeno café, fechado, no Parque Lage. Entretanto, fora avisado de onde acha-lo na noite seguinte.
Parece que ao menos confiava em seu serviço de busca da encomenda pelos sinistros corredores subterrâneos. Agora, estava a caminho de uma casa de festas na região da Ilha do Governador, mais especificamente no Dendê, uma casa de festas possivelmente infestada de mortais.
E em território semi-Anarch.
Foto: Thiago Lontra
Por mais conturbada que seja a situação da Linha Vermelha e sua constante briga em filtrar os membros da Torre de Marfim, você dá sorte e não parece haver qualquer inspeção ativa (o que é bom, para variar!). Talvez Rita, também conhecida como Mãezona, esteja ocupada demais, ou talvez seus capangas não sejam tão numerosos.
Ou talvez seja a boa e velha sorte.
Melhor não pensar muito sobre a gangue da Mãezona e seu domínio da Maré.
Parte do caminho na noite fresca é feito a pé. Seu corpo não cansa como antes, como quando era vivo. Seu corpo já não produz também as mesmas secreções. Não há suor ou falta de fôlego, apenas seu corpo gélido subindo pelas sombras de um lugar novo. Mas todas as ruas mortais são a mesma coisa: problema.
A música alta chama-lhe a atenção.
Uma construção ampla, azul escuro, está cercada de homens armados. Estes instrumentos podem não ameaçar sua não-vida tanto quanto uma vez já o fizeram, mas definitivamente pode ameaçar sua Máscara.
Você apalpa seus bolsos na busca da fita e também do envelope que seu encomendador lhe deu: O nome na lista é Rabo-de-Coelho. Como a planta? Grama rabo de Coelho? Um nome obviamente inventado, ou melhor, um descarado codinome!
Porém, não foi abraçado ontem.
Seguir as instruções tem lhe mantido vivo até agora; não é hoje que tudo irá ruir. Assim esperamos.
A música é tão alta que consegue apenas ler os lábios do segurança na entrada.
— Nome.
— Rabo-de-Coelho.
Ele folheia algumas páginas em sua prancheta. Você evita contato visual com o segurança ao lado e ambos liberam você para entrar.

