Bicho-Papão
– Tá, vamos lá. Temos um total de 7 mortos, cinco por golpes de objetos perfurocortantes, um por um tiro de .38 no olho esquerdo e outro… “dilacerado”, para não entrar em mais detalhes. O que exatamente você aprontou, prima?
Eu odeio quando o Theo fala nessa porra de tom desgraçado. Desde que ele entrou pra família ele tem essa mania insuportável de me cobrar toda vez que eu faço alguma merda. Não posso pisar fora da faixa, incitar uma briga de bar, arranhar um carro alheio na rua ou mandar um vacilão acordar com a boca cheia de formiga que esse insuportável já vem me cobrar.
– Para com essa porra, Theo. Já disse que não fiz nada.
– Foi quem então? O Bicho-Papão?
– Deve ter sido.
– E desde quando o Bicho-Papão aparece nas câmeras de segurança locais usando uma jaqueta branca com spikes e pilotando uma Harley-Davidson esportiva?
Filho da puta, deve ter pego com a Cecília. Esse inútil passa quase a não-vida inteira dele em Porto, fica chupando qualquer português safado que cai nesse papinho de coitado dele e nesse rostinho inocente, não faz quase nada pela família e quando eu faço algo, tenho que ser cobrada por ele?
– Não sei, pergunta pra ele se ele tem bom gosto então.
– Já estou perguntando.
– Você pode deixar eu terminar a porra do meu drink em paz ou você vai ficar enchendo o meu saco?
A minha vontade era lançar ele daquela sacada do casarão e não ter que ouvir mais a sua voz. Infelizmente, o mínimo que eu tenho de carinho por ele me impediu de fazer isso.
Dei uma golada naquela discrasia, pedi um garçom para levar a taça embora e nos deixar a sós.
– Em primeiro lugar: como você soube disso tudo?
– Eu sou especialista em rastrear o seu cheiro de encrenqueira, né? Lembra aquela vez que eu descobri que você botou fogo no carro do Seu Tomás só porque ele esqueceu de trocar a bateria da sua moto?
– Eu tinha um racha naquela noite, tá? Perdi a aposta e a porra da corrida.
– Tanto faz, o que importa é: chego no Galeão, pego o helicóptero para Paraty e o piloto me diz que mataram um grupo de seis amigos e o pai de um deles na Ilha Grande a duas noites atrás, com tiro, facada e tudo. Eu já tinha a minha principal suspeita em mente, e olha só, não é que foi o “Bicho-Papão” de Paraty mesmo?
Fico impressionada como o Theo é um Gangrel diferente dos demais. Não se preocupa em caçar, em brigar, em estudar a natureza e nem mesmo em proteger as posses da família. Só curte viver uma farra, arrumar um namorado novo a cada três meses e ler aqueles romances água com açúcar dele. Se bem que, sendo sincera, seria hipocrisia minha reclamar dessa última parte…
– Saquei, e é agora a parte em que o Detetive Theodoro vai me dar uma lição de moral dizendo que eu não posso deixar os meus instintos bestiais prevalecerem?
– Isso vem depois. Antes de tudo, eu queria saber o que te levou a fazer isso tudo.
– Bem simples: mexeram comigo, se fuderam.
– Se tivessem mexido com você, teriam sido mortos aqui em Paraty. O que eu quero é a verdade, Verônica, e não quero ela simples.
Embora parecesse uma ameaça, esse era o jeito dele de se preocupar com os outros, de se preocupar comigo. Não posso reclamar, tenho uma parcela de culpa nisso, era assim que eu falava com ele quando ele fazia alguma merda na época de criança da noite dele, e agora, ele retribui o favor.
– Quem mais sabe?
– Só eu, mas eu não duvido que o tio Afonso tenha as suas suspeitas. Ele chegou a falar algo contigo?– Não, tá preocupado demais com o leilão daquele lote perto do Jatobá.
– Então talvez eu te ajude a limpar a sua barra, mas pra isso, preciso saber o que realmente aconteceu.
A vantagem de ter um senhor com a influência que o meu pai tem é de que ele geralmente tá muito ocupado para prestar atenção em mim. O problema? Delega essa tarefa para os outros. Eu até prefiro o Theo fazendo isso do que a Emília, porque nesse ponto ela já teria me jogado da cobertura do Casarão, mas ainda era insuportável ter alguém mais novo que tu te vigiando e te cobrando quando você faz a coisa certa. Porra, eu não sou mais uma criança da noite, já são 30 anos de abraçada, eu sei o que fazer e quando fazer.
– Olha, você provavelmente acha que eu fiz isso tudo por um motivo besta, né? Acha que eu fiz isso porque “A Verônica é assim mesmo, ela faz primeiro e pensa depois” ou qualquer merda que a Emília encheu o seu ouvido com, né?– Mais ou menos. Você geralmente não pensa muito mesmo antes de fazer algo, como o Seu Tomás descobriu da pior forma. Mas matar? Acho que, mesmo não pensando muito nas consequências, é um pouco demais para você fazer “de graça”. Eu não estou perguntando isso para te dar um esporro, prima, não sou seu pai e muito menos a sua madrasta, mas eu quero te ajudar a se livrar disso. Nossos “amigos” em Angra até abafaram bem o caso, mas é só questão de tempo até ele se espalhar.
– Que bondade toda é essa, hein, primo? Sem nenhuma cobrança de favor, sem pedir nada em troca?Não sei se toquei em algum tema sensível, mas ele claramente ficou meio chateado quando eu disse essas palavras. Desviou o olhar, olhou para as estrelas, para as crianças da família brincando no quintal do casarão, para o drink dele, ficou mais introspectivo do nada. Não sei se eu deveria ter dito algo diferente, podemos ser família, mas ainda somos membros, e sei como as relações no nosso meio se dão.
– Eu… acho que fiquei longe por tempo demais para te cobrar isso. Sei que você deve achar que eu só faço farra lá em Portugal, que eu vivo mais em festa do que cuidando das propriedades da família. Mas eu juro que, tudo o que faço, faço por amor aos que me acolheram, faço porque me importo com vocês. Faz o que, quatro anos que eu não volto pra cá? Pode parecer pouco pra quem já viveu 21 sem o coração batendo, mas eu realmente senti saudades de ti, do Tio Afonso, da Alana e de Paraty. Eu entendo a sua desconfiança, mas…
Como às vezes eu odeio te amar, Theo. Tive que me aguentar um pouco mais para não marear os olhos ali mesmo, mas eu não pude evitar de dar um abraço um tanto apertado nele. Eu meio que cresci como a irmã mais velha dele, mesmo que, na nossa configuração familiar um tanto quanto “exótica”, ele tenha sido adotado como um primo.
Mas eu me lembro de ensinar ele a caçar, a controlar sua besta e aprender a usar as suas disciplinas, a lutar quando precisar e a fugir quando for obrigado. E bom, ele me ensinou bastante também, me ajudou a ser menos grosseira ou mal-educada com os outros, me ensinou como ensinar alguém sem ser uma brutamontes. Realmente, será que quatro anos em uma não-vida de 30 fazem tanta diferença assim? A resposta: pra caralho.
– Eu também senti muitas saudades de ti, primo. Você não faz noção do quanto esse lugar ficou mórbido sem ti.
– Nossa, mais do que ele já é?
– Vai se fuder, seu pintor de rodapé.
– Vai você, sua cachorra do mato.
Já tinha me esquecido do quão confortável era o abraço do Theo, o quão bom era bagunçar aquele cabelo curtinho castanho dele, como eu mandava ele à merda quando ele falava que o meu parecia o de um cão pulguento, de quando eu quase arranquei a cabeça de um ex-namorado dele quando o cafajeste falou pro Theo esconder as marcas vitiligo dele, quando ele espalhou o piores rumores possíveis sobre um ex meu e o cara teve de se mudar para São Paulo pra não ser morto… nossa relação era caótica, mas era o melhor caos que eu poderia desejar. Depois de um tempo, me afastei dele e me encostei de volta no guarda-corpo da sacada, e disse:
– Tá bom, você quer a versão curta ou completa?
– Quanto mais detalhes, melhor. Temos a noite toda pra tentar salvar a sua pele antes que o seu pai fique sabendo de tudo.
– Então pede pro garçom trazer outro drink, que isso vai demorar um pouco.
– Com prazer.
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Meio que tudo começou em fevereiro, acho que bem no começo do mês. O meu pai tinha me dado a missão de inspecionar o desaparecimento de uma senhora que morava perto da fábrica da King Breweries, 52 anos, três filhos que não moravam mais em Paraty. Normalmente, a gente não se meteria nisso diretamente e deixaríamos a polícia cuidar disso. Só que não só a polícia não chegava a lugar nenhum como, pelo o que eu consegui extrair de um grupo de corujas, a última vez que viram ela foi numa trilha perto da Praia Brava. O lugar era um antigo território de lobisomens, e o maior receio que tínhamos era da possibilidade deles terem retornado. Obviamente, eu fiquei com a tarefa ingrata de me infiltrar no meio da mata e procurar pela desaparecida.
Até que não foi difícil, cresci explorando aquele matagal e sei até que bem me locomover por lá. Não vi sinal nenhum de lobisomens, ou pelo menos, eles que não quiseram ser vistos por mim. Na verdade, a mata tava quieta demais: pouco passarinho, pouca onça, pouco porco-do-mato, pouco qualquer outro bicho. Parecia que a mata toda tava com medo de algo, com medo de alguém.
Depois de um tempo, achei a tal trilha e fui seguindo-a. Após 3 km dentro da mata, vi o rastro de algo que parecia sangue numa das árvores, comecei a seguir ele, junto com pegadas e o rastro de algo sendo arrastado, e bingo: encontrei uma cova rasa. Cavei, e lá estava ela: Maria Cordeiro dos Anjos, morta aos 52 anos de idade com tiros de 9mm no tórax. Ela tinha sinais de tortura muito claros, como unhas arrancadas e hematomas pelo corpo todo. Pela quantidade de pegadas, foi um grupo que arrastou ela pra lá, no mínimo uns três. Não tinha muito mais o que descobrir naquelas condições, então saí de lá, falei com um contato meu pai na polícia e deixei eles desenterrarem o corpo por conta própria.
Já me preparava para o pior, se foi um grupo que fez isso, existia uma chance considerável de não serem apenas três. Pra piorar tudo, eles eram bons em esconder os seus rastros: a polícia não achou quase nada de novo sobre a morte, apenas de que ela provavelmente havia sido torturada e morta em algum outro lugar e levada para lá. Por mim, eu teria saído e investigado mais essa merda, teria achado os três e espalhado o sangue deles pelas ruas da cidade, mas aparentemente o Sr. Marino decidiu que eu deveria me concentrar “em outros afazeres” e deixar isso com a polícia antes que eu “derramasse sangue demais para esconder”.
E assim eu obedeci ele, bom, pelo menos até a segunda morte.
Era a terceira semana de março, dia 19 mais especificamente, o meu pai entrou no meu quarto furioso. Eu mal tinha acordado do torpor e ele já estava arrumado e puto. Em resumo: dois dias antes uma mulher da mesma região que a Maria Cordeiro desapareceu enquanto ia ao mercado e, adivinha só? A porra da polícia não tava conseguindo muito progresso, e os jornais começavam a noticiar “uma série de mortes misteriosas de mulheres em Paraty”. Os turistas meio que não gostaram disso, e caiu sobre as minhas costas salvar a cidade e os negócios da família. A possibilidade de ser um membro ou grupo de membros surgiu na nossa cabeça, especialmente por causa dos desaparecimentos sem rastro. Com isso, fui atrás do perfil da vítima: Vânia Cabral Silva, 55 anos, moradora da região desde que nasceu, empregada doméstica e tinha acabado de se formar pelo EJA. Não demorou muito para eu achar uma conexão entre as duas: eram amigas de infância, e Vânia esteve no enterro de Maria mês passado, iam na mesma igreja, moraram a vida inteira na mesma rua, estudaram no mesmo colégio até a quarta série e, claro, voltaram a estudar e se formaram juntas no EJA ano passado. Era coincidência demais para ser verdade, mas, para confirmar tudo, eu precisava do corpo dela.Esse foi um pouco mais difícil de achar. Nenhum animal parecia ter visto ela ou um grupo de pessoas levando-a para algum lugar, até que, em algum canto da minha cabeça, algo apitou:
As ilhas.
Isoladas o suficiente para esconder algo assim. Os pássaros com quem conversei não tinham visto nada, mas os morcegos… os únicos animais noturnos com acesso às ilhas de Paraty e ao continente, esses sabiam algumas coisas. Na noite de 17 de março, mesmo dia em que Vânia desapareceu, um deles viu uma lancha com quatro pessoas carregando um saco em forma de pessoa e o despejando na Ilha do Caranguejo. Peguei o jetski do Lúcio emprestado e fui pra lá, e adivinha só? Cova rasa, execução com tiros no tórax e sinais claros de tortura. O padrão se repetia, e eu precisava descobrir quem eram os assassinos antes que fizessem uma nova vítima.
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Eu cheguei a ouvir sobre o assassinato da Maria, mas esse da Vânia não chegou até mim. Vocês não avisaram a polícia sobre o cadáver?
– Óbvio que avisamos, mas o seu tio mexeu uns pauzinhos pra notícia não se espalhar ainda mais. Não queríamos expor ainda mais o que tava acontecendo, principalmente se ainda queríamos pegar os culpados.
– E deixa eu adivinhar: mesmo com o corpo, eles não descobriram nada, né?
– Acertou. A situação já estava ficando desesperadora, especialmente quando descobrimos que uma terceira vítima, Carmem Silva de Andrade, 53 anos, também amiga de infância das outras duas vítimas, havia morrido em janeiro, supostamente devido a um “acidente doméstico”.
– E qual foi o próximo passo?
– Investigar inimizades ou ligações em comum. Carmem e Maria eram líderes comunitárias do bairro, muito queridas e conhecidas por lá. A Vânia, por outro lado, morava sozinha e tinha uma vida extremamente reclusa. Pensei que essa atuação como líderes comunitárias poderia ter sido um motivo para uma possível retaliação, mas nada se encaixava com isso. Os vizinhos das duas também não tinham muito para falar, só diziam estar chocados pois ambas “não tinham inimigo nenhum”.
– Sabendo do resultado da história, imagino que você tenha conseguido algo. Perguntou pra algum passarinho de novo?
– Não, invadi a casa da Vânia no meio da noite.
– O que?
– Relaxa, ela morava sozinha e a casa foi isolada pela polícia. Só precisei esperar a noite cair e pular o muro dela. E sinceramente, valeu a pena todo o risco que corri.
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A casa até que tava bem arrumada, com uma ou outra louça pra lavar e pouca poeira acumulada. A primeira coisa que foquei em procurar foram anotações, cartas, diários ou qualquer evidência escrita, mas as cartas acumuladas eram só contas e publicidade.
Tentei procurar algum celular ou computador, mas a polícia tinha levado tudo para a análise. Comecei a ficar sem opções, parecia tudo muito arrumado e certinho naquela casa, arrumado até demais. Foi então que, mais por instinto do que pensamento, decidi olhar debaixo da cama dela. Quando me apoiei, notei que uma das tábuas do chão tava meio solta. Bingo, removi ela e lá estava, uma caixa de sapato protegida com filme plástico e selada com fita adesiva.
Eu já tinha uma suspeita de que as três possuíam algum inimigo em comum, ou pelo menos tinham algum motivo para serem perseguidas assim, mas caralho Theo, o buraco era muito mais embaixo: dentro daquela caixa tinham documentos de todos os tipos, velhos, recentes, fotografias de trabalhadores da fábrica da King Breweries, de soldados da época da Ditadura Militar, de fotos das famílias das três mulheres e, acima de tudo isso, um trabalho escolar impresso. O trabalho, assinado por Carmem, Maria e Vânia, tinha era datado de novembro de 2025, logo antes das três se formarem no EJA, com o título “A greve de 1971 dos trabalhadores da Fábrica King Breweries em Paraty: lutas, resistências e a repressão militar”. Era um trabalho de história, e tinha a orientação da professora Felícia Ramos Lobos.
Puta que pariu, uma quarta vítima.
Peguei todos os documentos, coloquei eles dentro da jaqueta e saí de lá o mais rápido que consegui. Liguei pra Cecília e ela conseguiu me passar o endereço da professora, uma casa isolada a uns três quilômetros do centro da cidade. Fui até lá na última marcha, não sabia se ela estava em perigo, se ela sequer era um alvo ou se já era tarde demais, mas eu não podia correr o risco de perder ela, de perder mais uma. Quando cheguei, a porta tava aberta, e tinha um Uno estacionado no portão. Como sempre, cheguei atrasada.
Pulei a mureta e fui até a janela, tinha dois caras, não tinham mais do que 25 anos, um armado com um soco inglês e outro com um facão, tinham amarrado e dopado a Felícia na cozinha e agora tavam discutindo o que fazer: matar ela ali ou levar ela pra um tal de “Agenor”. No final, não eram tão inteligentes assim, caíram pro truque mais velho do mundo: fiz um barulho do lado de fora, se assustaram e o do facão foi checar. Dei a volta, entrei pela porta da cozinha e quebrei o pescoço do primeiro. Quando o segundo voltou e encontrou o companheiro morto, se desesperou e, quando se virou pra correr, só teve tempo de sentir a lâmina da minha kukri abrir aquele pescoço.
Com os dois eliminados, fiz o que era mais sensato: chamei o Serviço de Quarto, levei ela pra um lugar seguro e tentei acordar ela da maneira mais tranquila possível. Obviamente, ela ainda assim entrou em pânico, e lá se foram uns bons 10 minutos tentando acalmá-la:
– Senhora, eu já disse, eles foram embora e nunca mais vão te incomodar, eu prometo.
– Como você sabe? Como eu vou confiar em você? Eles levam a Carmem, a Maria, a Vânia, e agora, eles tentaram, eles…
– Fracassaram, porque eu cheguei a tempo. Eu sinto muito pelas suas perdas, de verdade, eu queria estar lá para ajudá-las mas não pude…
– Antes de tudo, quem é você?
– Pode… me chamar de Verônica. Eu fiquei encarregada de descobrir o que tinha causado a morte das suas ex-alunas, e achei isso aqui na casa da Vânia– digo enquanto mostro para ela o trabalho sobre a greve– Suspeitei de que você poderia ser um alvo, e infelizmente eu estava certa.
– O que você quer? Por favor, me deixe ir embora.
– E eu vou, mas eu preciso da sua ajuda. Todos esses documentos estavam juntos com o seu trabalho na casa da Vânia, e eu só tive tempo de passar o olho por eles. Eu não vou te impedir de sair daqui, de verdade, mas você talvez seja a minha única esperança de descobrir o porquê que elas foram mortas, por quem e como impedi-las. Se queremos que nenhuma gota de sangue inocente seja derramada novamente, você vai precisar me ajudar.
A sua postura mudou de desesperada para melancólica, finalmente bebeu do copo d'água que eu a havia oferecido e passou a olhar para o chão, com os pensamentos distantes enquanto respirava fundo. Quando estava mais calma, finalmente começou a falar:
– O que você sabe sobre a greve na fábrica da King Brewery?
– Pouca coisa, eu nasci…–quase que deixo escapar que eu era 1 ano mais velha que a greve–...em 2001, então só ouvi os meus pais falarem sobre por cima.
– Pois bem: no início de 1971, a gerência da fábrica resolveu que o aumento de salários estava condicionado às metas de venda. O problema? A fábrica já vinha mal das pernas fazia alguns meses, com algumas marcas de bebidas alcoólicas nacionais ocupando o espaço da King. Quando, no final de outubro, foi anunciado que os salários seriam congelados para o próximo ano, os trabalhadores se enfureceram e ocuparam a fábrica, expulsando o supervisor na base da paulada e paralisando a produção toda. A ocupação virou notícia nacional, mesmo com a censura, e durou um total de 15 dias, quando a paciência do exército acabou.
– Invadiram a fábrica e prenderam todo mundo?
– Prenderam os que sobraram. Os militares abriram fogo contra o cordão de trabalhadores que cercava a fábrica, e invadiram com a tropa de choque. No total, foram 23 mortos e mais de 140 presos, números que só foram esclarecidos depois do final da Ditadura. Dentre esses presos, estavam três mulheres operárias e lideranças da greve: as mães de Carmem, Maria e Vânia.
Meu estômago pesou na hora. Eu posso não ser a melhor em História, mas eu sei o que acontecia com quem era preso nessa época.
– Por uma semana, as três passaram pelas piores torturas possíveis, coisas que eu não consigo descrever aqui, até serem largadas no meio de uma estrada remota em plena luz do dia. O homem responsável pelas torturas foi um sargento chamado Pedro Caruso Legucci, o “Polaco”, como era conhecido. Após terem se tornado mães, as três mulheres se tornaram amigas, e acabaram passando esta amizade para as filhas. A última das mães morreu em 1998, e o Polaco morreu em 2001. Quando Carmem, Maria e Vânia se tornaram as minhas alunas, contaram sobre o ocorrido, e eu as convenci a escrever um trabalho sobre a greve e as memórias das mães das três sobre o ocorrido, incluindo as torturas e realizar uma denúncia formal contra Legucci.
No final das contas, o trabalho ficou tão bom que o diretor da escola resolveu nos inscrever em um evento acadêmico da área de História lá no Rio, que vai ocorrer daqui a algumas semanas. Mesmo com as três já formadas, elas aceitaram o convite. Só tinha um problema: o Lucas, um dos homens que tentou me sequestrar mais cedo, é professor de matemática do colégio onde elas estudavam e neto de Legucci, algo que eu não sabia na época.
– E juntou um grupo de doentes igual a ele pra irem atrás de vocês, né?
– Suponho, mas agora que você “deu um jeito” neles, eu imagino que esteja tudo certo, né?
– Provavelmente não, disseram que queriam levar você pra um tal de “Agenor”, conhece?
Quando falei o nome, a Felícia olhou pra mim com a mesma expressão de quem havia visto um fantasma.
– O filho… filho da puta desgraçado. Agenor Legucci, filho do Polaco e tio do Lucas. Ele ficou conhecido por ter movido uma ação contra o Arquivo Municipal de Paraty em 2003 por supostamente “difamar a imagem de seu pai” por ter feito uma exposição onde denunciava a participação de vários militares na repressão à greve, inclusive o Polaco. Nessa época, não tínhamos ainda provas de que Polaco havia liderado às torturas, mas agora que temos, ele deve ter se desesperado quando o Lucas contou a ele sobre o trabalho.
– Sabe onde ele pode estar?
– Não faço ideia, só sei o nome completo: Agenor Reis Legucci, citamos o processo que ele moveu no trabalho.
Tinha quase tudo o que eu precisava: a motivação do grupo, o alvo restante e o nome da liderança, só faltava a localização deles. Por estarem esperando o Lucas e o outro marginal levarem a Felícia, é bem capaz de estarem todos reunidos no mesmo lugar, o que facilita o meu trabalho. – Fica tranquila, eu vou resolver isso tudo.
– Como? Vai chamar a polícia? Eu tive medo de avisá-los e sofrer alguma represália…
– Relaxa, vai ser algo mais… “efetivo”, se você não se importa.
Felícia assentiu com a cabeça, sabia exatamente do que eu estava falando e sabia que não havia muito o que fazer a não ser expurgar essas pragas da face da terra.
– Você ainda é um alvo, porém, precisa ir pra um lugar seguro. Tem carro?
– Tenho.
– Então volte até sua casa, pegue algumas roupas e se dirija até o casarão dos Marino. Quando chegar lá, diga que a Verônica solicitou que você ficasse lá por uma ou duas noites, e entregue isso para o porteiro.
Entrego a ela um cartão de papel que usamos para convidar mortais para o casarão sem que eles virem o jantar de alguém, como se fosse um “passe-livre”. Se havia algum lugar que a gangue do Agenor sequer pensaria em procurar a Felícia, era naquele casarão.
– Os Marino? Você é parte da família?
– Sou… uma parente mais distante, eu diria. Fique tranquila, estamos do seu lado, e tenho certeza que será recebida com toda a hospitalidade do mundo. Só uma coisa: quando a merda for jogada no ventilador, você não abre a boca por nada, não emita sequer um pio, nem sobre mim, nem sobre os Marino. Não pediremos nada material para te ajudar pois queremos a mesma coisa, só pedimos o seu silêncio total sobre a nossa participação, entendeu?
A professora concordou em silêncio, mas eu conheço a cara de quem entende um pedido sério. Levei ela até em casa, a escoltei por parte do caminho paralela ao seu carro e, quando ela já estava longe, liguei para a Cecília. Até que o tal do Agenor era bem low profile, último registro em rede social de dezembro de 2022, pouquíssima coisa desde então, até que:
– Opa, opa, isso é interessante.
– Achou alguma coisa?
– Aparentemente ele vendeu a casa em Paraty em 2017, e ficou sem residência oficial desde então. Porém… a família tem um terreno na Ilha Grande, bem no meio do mato, uma chácara bem isolada. Sem sinal de celular, muito menos internet. E olha só: algumas das suas últimas postagens na internet eram em uma manifestação em Angra dos Reis.
– Você é um anjo Cecília, puta merda.
– Que isso, xuxu. Você também é o meu Diabo da Tasmânia favorito.
– Feiosa filha da puta.
– Te mandei o endereço, agora vai lá extravasar essa sua raiva. Beijinhos!
Se eu soubesse que ela eventualmente teria vazado as imagens das câmeras pra ti, eu teria xingado ela um tanto mais, mas sinceramente, devo um tanto a essa tagarela. Realmente ela não tava mentindo, o endereço era no cu do mundo, ainda era cedo, mas eu precisava acelerar bastante se queria terminar isso ainda essa noite. Desci o pé no pedal até Angra, peguei uma barca e, usando as indicações da Cecília, segui por uma estrada de terra bisonhamente horrível. Quando fiquei a 1 km do endereço, escondi a moto na mata e fui andando floresta adentro, até ver algumas luzes amarelas em meio às folhas.
Te achei, filho da puta.
Subi num pé de Cedro-Rosa que dava acesso à propriedade, e fiquei observando-os por um tempo. Era uma casa relativamente simples, estilo neocolonial e o banheiro era externo. Tinha só 1 andar, mas era até que espaçosa. O terreno tava bem descuidado, a grama era baixa, mas tinha muita folha e lixo espalhado, não vi nenhum animal doméstico. O portão era de metal meio enferrujado, estava trancado e o muro era alto e tinha cacos de vidro. Acho que a tática deles era de fato fingir que a casa tava desabitada, só que falharam nisso quando deixaram as luzes de fora da casa acesas e a janela aberta enquanto falavam alto e discutiam.
Não precisava de Sentidos Aguçados para entender o que falavam. Pelo ângulo alto da árvore, não dava pra ver por dentro da casa, mas a discussão tava um tanto acirrada:
– Eu já falei, caralho. A casa da filha da puta fica no cu de Paraty, vai demorar pra eles chegarem aqui.
– São quase onze da noite, não fode. Já era pra terem chegado faz tempo.
– E tu quer que eu faça o que exatamente? Vá lá procurar eles no meio da madrugada? Se algo acontecer com eles, estamos seguros aqui, ninguém vai nos achar.
Ninguém vivo, talvez, mas nada é impossível para uma Nosferatu fã de Hello Kitty.
– Porra, e não vão dar com a língua nos dentes?
– Relaxa, o Lucas não vai vender o próprio tio, mas nem fudendo.
A discussão continuou, contei um total de sete vozes, inclusive a de um senhor que acredito ser do Agenor, puto e mandando os comparsas fecharem a porra da janela porque “a casa já ventilou o bastante”. Lá se vai a minha entrada fácil. Uns 20 minutos depois, quando eu tava pensando em dar uma circulada pelo terreno pra achar uma outra entrada, a porta da frente da casa se abriu, e um cara no final dos seus 20 anos saiu de lá e foi em direção ao banheiro.
Não sei se isso era falta de inteligência deles ou sorte minha, mas eu só sabia sorrir naquela hora, o mesmo sorriso que faço quando vou enterrar um filho da puta.
Me movi rápido pelas árvores e me escondi atrás da cabine do banheiro e, quando ele saiu, fui andando atrás dele de mansinho, sem que ele percebesse. Ele sequer olhou pra trás, sequer pensou em checar se estava sendo seguido, e foi ali que eu entendi a causa do descuido: perderam o medo. Realmente, tinham um trabalho muito bom em apagar os seus próprios rastros, e por causa disso, acharam que ninguém seguiria eles até o meio do mato da Ilha Grande, acharam que ninguém suspeitaria que essa casa semi-abandonada esconderia uma corja de seres desumanos, acharam que ninguém faria esta conexão. O problema? Não esperavam que alguém iria tão longe pela vida de três mulheres pobres, que mal tinham onde caírem mortas. E eu vou fazer questão de que se arrependam disso.
Quando ele se aproximou da porta, fez um toque específico, um tipo de senha pra deixarem ele entrar. Depois de ouvir uns quatro cadeados diferentes sendo destrancados, a porta se abriu e um moleque, com uns 20 e poucos anos de idade, olhou para frente em choque. Afinal, não esperava ver o comparsa com uma lâmina atravessando o seu pescoço. Quando ele caiu, outros dois que estavam no sofá da sala me viram, e eu disse:
– Felícia mandou lembranças, seus filhos da puta.
Aqui, primo, foi onde a parte divertida começou. O moleque da frente puxou um punhal da barra da calça e tentou me esfaquear no pescoço, mas cortei a mão dele e ela caiu como um fruto maduro cai de uma árvore. Enquanto ele gritava, acertei a cara dele três vezes com kukri até que ele caísse no chão. Com isso, os dois que estavam no sofá partiram pra cima de mim, um portando um facão e outro pegando um machado no canto da sala. O do facão até que sabia lutar, quase me acertou duas vezes, mas deixou o peito e o pescoço muito expostos. O do machado, no desespero, tentou me acertar na cabeça. Bloqueei com a kukri, que foi jogada para fora da casa pela porta. Tentou me acertar de novo, mas desarmei ele pelo cabo do machado, bati com a cabeça do machado na cara dele e afundei a lâmina naquela cara feiosa.
O foda é que, nessa hora, me distraí. Estava com tanta sede de sangue que não notei que fui até a cozinha desarmada, e não notei que tinha um merdinha deles se escondendo atrás da porta. Me agarrou com um mata leão por trás, e outro deles chegou pela direção oposta com um facão pra enfiar no meu bucho. Consegui chutar a lâmina para longe e, sem muitas opções, botei as minhas garras pra fora e arranquei a cara do fudido que tentou me atacar. O do mata-leão ficou tão distraído com as Armas Ferais que mal notou que ele havia amolecido a imobilização. Joguei ele por cima do meu ombro e, em um conjunto de golpes, abri o tórax dele até aquele pulmão podre dele ficar exposto.
Quando me levantei, senti uma porrada me atingindo no ombro, e algo passando de raspão na minha frente. Tinha um merda armado com uma pistola do outro lado do corredor. Me escondi atrás da parede, puxei o revólver e começamos a trocar tiros. Esse merda tinha treinamento, não era igual a esses moleques que se achavam por terem matado três senhoras indefesas. Tentei avançar por outros dois cômodos, mas ele notou e repeliu os disparos, tentei acertar ele, mas tinha uma cobertura sólida. Então, fiz algo mais arriscado: coloquei o corpo um pouco mais exposto e, antes que ele pudesse atirar, disparei contra a lâmpada em cima dele. Escuridão total, se assustou com o estrondo e se distraiu. Ele não via mais nada, mas usando os Olhos da Besta, mirei bem no olho do filho da puta e pintei a parede atrás dele de vermelho.
Um, dois, três, quatro, cinco e seis mortos: só falta o filho da puta mor. E é claro, ele resolveu fugir ao invés de lutar. Saí da casa pela porta de trás e encontrei ele, desesperado e ofegante, tentando pular o muro. Atirei no joelho esquerdo dele e ele caiu pra dentro do terreno, agonizando. Tentou se levantar com a perna boa e estourei o outro joelho. Depois, guardei o revólver, não ia precisar usar ele mais naquela noite.
Quando cheguei perto dele, daquele porco agonizando, comecei o nosso papo amigável:
– Sr. Agenor Legucci, eu suponho. Me deu trabalho pra te achar.
– E quem caralhos é você, sua piranha?
Chutei o joelho esquerdo dele e ele rolou agonizando no chão. Chorava, gritava, me xingava, e eu sorria igual a uma criança na manhã de natal. Se eu estivesse em uma área residencial, os gritos dele já seriam o suficientes pros mortais chamarem a polícia, mas olha só, a propriedade dos Legucci de fato era um tanto quanto isolada.
– Calma, Seu Agenor, não precisa me ofender assim. Me chamo Verônica, sou uma amiga das três mulheres que você torturou e da quarta que você tentou matar.
– Ah é? Veio vingar as três vagabundas?
– Eu vim conversar, seu merdinha. – eu disse enquanto segurava ele por aquele cabelo ensebado. – E eu espero muito que você tenha disposição para falar.
Arrastei ele pelos cabelos até a cozinha. Por causa da minha briga lá, a lâmpada estava encharcada com sangue, e a iluminação era de um vermelho profundo. Joguei ele de costas contra uma parede, coloquei uma cadeira na frente dele, me sentei e disse:
– É nessa casa tão charmosa que você torturou elas? Ou delegou essa tarefa pros moleques que eu acabei de matar?
– Vai se fuder, eu vou abrir o teu pescoço, vagabunda.
– Respira, Seu Agenor, a gente só começou a conversar.
– Respirar o caralho, porra! Vai embora ou…
–Você que manda.
Puff, as garras ferais arrancam a parte da frente do nariz dele.
– FILHA DA PUTA, O QUE VOCÊ FEZ?
– Ué, ficou tão estressado com a ideia de respirar que eu só te ajudei.
– Você vai morrer, eu vou te matar e triturar o teu corpo, sua fodida.
– Olha, meio que você chegou um pouco tarde…– peguei um pano de prato e joguei na cara, pra ele estancar o sangramento. – Já faz o quê? Uns 30 anos que eu tô morta?
– Como é que é?
Quando ele olhou pra mim, deixei as garras e as presas bem amostra. A cara de terror dele foi magnífica, uma certa negação em acreditar o que estava vendo com a certeza de que sabia o que eu era. Cheguei as garras bem perto do olho dele, e eu disse:
– Bom, a essa altura do campeonato tu já deve ter sacado o que eu sou, né?
– O meu pai, ele… ele contava de vocês, que tinham capturado outros de vocês depois da Revolução, mas… eu achei que era exagero, loucura da mente dele, algo que ele inventou daquela cabeça carcomida pela velhice.
– Pois é, deveria ter acreditado naquele covarde, mas decidiu ouvir as merdas que ele falava ao invés da parte séria. Agora, me diga: por que mandar matar e torturar três senhoras inocentes?
– Elas iam mentir, mentir sobre o meu pai! Ele era um herói, eliminou o lixo daquela cidade e protegeu ela daqueles terroristas, daqueles subversivos. Se você, sua vagabunda, consegue viver tranquilamente em Paraty e não em um Gulag, foi porque nós te salvamos disso, foi por que o meu pai fez o trabalho sujo dos outros.
– Tão corajoso o seu pai, tão forte e valente que só precisou de três estudantes e uma professora para expor o legado de merda dele.
– Ingratas, as mães daquelas vagabundas deveriam ter sido executadas por insurreição.
– E hoje você será executado por traição ao seu próprio povo, seu arrombado.
– Ah é? É tudo que você tem? Me matar?
Nessa hora eu levantei da cadeira e ele claramente se assustou, mas eu não fiz nada. Só comecei a andar em volta dele, gesticulando com as garras e dizendo:
– Te matar? Essa é a melhor coisa que eu posso fazer. Você não faz ideia dos quão numerosos nós somos. Centenas, milhares, isso somente nesse país, uns mais velhos que outros, uns mais crueis que outros. Se você não responder cada pergunta minha com toda a educação do mundo, eu vou te levar daqui até um vampiro bem poderoso que eu conheço. Ele não vai te matar, não, vai brincar com você. Beber o seu sangue toda noite, e te alimentar com o dele, vai te transformar num servo, num faz-tudo, num escravo, num mero carniçal de suas vontades. Sua punição máxima será servir, e eu estarei lá, toda santa noite, vendo você servir e eventualmente abrir a boca. E não se preocupe, eu tenho a eternidade inteira para isso.
Pego as bochechas dele com as minhas garras, as arranhando de leve enquanto eu olho, no fundo daqueles olhos, e pergunto:
– Então, qual será a sua escolha?
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E aí, ele abriu a boca, prima?
– Desembuchou basicamente tudo. Eles eram um grupo independente, e os dois patetas de Paraty e os sete daquela casa eram os únicos integrantes. Aparentemente, ele e um amigo do exército recrutaram uns moleques meio incels que apoiavam a Ditadura Militar, e deram a eles uma “oportunidade de treinamento em campo”. Torturaram as três para conseguir saber onde as provas documentais estavam, mas não conseguiram quase nenhuma informação. Depois de assassinar a Felícia, pretendiam dispersar por um tempo e voltar à ativa para perseguir mais pessoas.
– Só isso?
– De primeira, sim. Mas depois de fatiar ele, procurei evidências pela casa, e achei uma lista de grupos e lideranças que tem o plano de perseguir sobreviventes da Ditadura. Em Paraty, eles eram os únicos, mas no Rio, tem uma porrada…
– E agora?
– Que a galera do Rio resolva, já cuidei da minha casinha e estou muito alegre com ela.
– Ah prima, não fode, por que você não aproveita que o seu pai sugeriu que você vá para lá e…
– Não.
– Eu não terminei…
– Eu já falei que não.
Era óbvio que tudo isso era uma tramoia, um jeito do Theo me fazer apoiar essa ideia imbecil do meu pai de “supervisionar o Rio de Janeiro” após a tal Tragédia da Laguna de Merda, como se eu fosse uma correspondente de guerra indo pro front de batalha.
– Verônica, por que você tem tanta resistência a ir? É muito importante que você faça isso, vai ajudar a família, vai poder deixar a poeira abaixar depois de ter fatiado o fascista lá em pedacinhos e vai poder ajudar o nosso clã, que não tá com a melhor das imagens depois da tal Tragédia da Laguna.
– Meu clã são os Marino, não tive ajuda de nenhum outro Gangrel quando a minha antiga família foi massacrada, nenhuma primigênie estendeu a mão para mim, e pra variar, saíram da Camarilla como um bando de cachorros com o rabo entre as pernas.
– Pois bem, que tal ajudar os últimos Gangrel que ainda estão na Camarilla?
– Em troca de que, primo?
– Em troca de escrever seu nome na história da família como aquela que abriu as portas do Rio de Janeiro para os Marino. De todos daqui você é a melhor que pode fazer isso. Eu sou meio fraco fisicamente e tenho meus problemas em Portugal para resolver, e a Emília não só chamaria muita atenção sendo uma ancilla, como provavelmente arrancaria a cabeça da primigênie no primeiro estresse menor.
– E eu tenho condições de fazer isso?
– Você já fez coisas muito mais difíceis, Verônica. Tenho certeza que essa vai ser moleza pra ti.
Ele chegou mais perto de mim, botou a mão no meu ombro e olhou no fundo dos meus olhos de imensidão esmeralda e uma cara de coitadinho imbatível.
– Você não precisa aceitar isso, tá? E o Tio Afonso não vai te forçar a ir. Mas de verdade, eu sei que ele ficaria muito feliz em ver a filha querida dele criando asas, saindo um pouco do ninho e finalmente ganhando a independência que ela precisa. E se a sua preocupação é a Alana, relaxa, você vem visitar ela de tempos em tempos, não vai perder nada da criação da sua irmãzinha querida.
Óbvio que ele ia pegar no ponto sensível. É claro, a Alana era um dos grandes motivos que me faziam rejeitar essa ideia. Cuidar dela era o que me mantinha humana, era o que fazia eu passar por cada noite ainda viva, era o que tirava um sorriso de mim toda vez que eu via ela brincar, jogar um brinquedo na minha cabeça ou me abraçar. Ter ela como irmã era uma benção que eu nunca mereci de fato, mas era algo que eu jamais deixaria de ser. Se essa estadia longe de casa vai, a longo prazo, melhorar a vida para ela, então é um sacrifício que vale a pena fazer.
– Tá, eu vou pensar seriamente em ir pro Rio, te dou a resposta amanhã.
– Eba! –ele diz, me abraçando – Vai ser muito bom pra ti e pra gente, mas só vai quando eu for embora, beleza?
– Volta quando pro Porto?
– 7 de abril, daqui a uma semana. Dá tempo de irmos numas festinhas, matar a saudade e limpar a sua barra.
– Então… eu queria te pedir uma coisa.
– Lá vem…
– Não abafa a morte dos arrombados da Ilha Grande, só abafa o meu envolvimento.
A cara de confusão dele foi algo que eu nunca vou esquecer.
– Você ficou maluca? E a repercussão? E se te encontrarem?
– Você vai garantir que eu não seja citada, mas essa história precisa vir à tona, e mais importante: precisa servir de exemplo. Esses merdas fizeram o que fizeram pois se achavam intocáveis, pois bem, que os outros vejam que não só são tão mortais como qualquer um, como que há alguém disposto a caçar cada um desses vermes.
– Quer o que então? Que durmam pensando em um Bicho-Papão hipotético?
– Quero que vivam com medo desse Bicho-Papão, que não consigam mais sair de casa, dormir ou sequer respirar sem pensar que estão sendo vigiados, que a cada vítima que fizerem, litros e litros do sangue deles serão derramados. Não podemos governar pelo medo, primo, mas precisamos que a escória do mundo volte a ter medo. E se eu precisar ser o monstro debaixo da cama deles, eu o serei com prazer.




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